Piotr Ilych Tchaikovsky (1840
- 1893) No século XIX, o Império Russo era uma organização burrocrática
de enorme proporções, de fazer inveja à qualquer tentativa brasileira
de inchar o estado com funcionários públicos. Em uma modesta repartição
pública de Moscou trabalhava um funcionário de nome Piotr - Pedro,
em português. Homem gentil, amável e educado, mas sempre meio desligado
e com estranhas manias. Uma delas, por exemplo, era o hábito de rasgar
pedaços de documentos oficiais para fazer bolinhas de papel para mascar.
Certa vez, por distração, mascou um documento inteiro. O nome completo
do funcionário? Pyotr Illich Tchaikovsky. Tchaikovsky nasceu em Vyatka,
na Rússia, em 7 de maio de 1840, segundo de uma família de cinco filhos.
Ainda criança foi estudar
na capital do Império, São Petersburgo, acompanhado por sua mãe. Sua
personalidade já tinha as características que viriam a marcar sua
vida adulta: muito inteligente e emotivo, embora bastante impetuoso.
Já nessa época de estudante apresentava uma auto-crítica que, no futuro,
o faria rasgar muitas de suas partituras, insatisfeito com seu desenvolvimento.
Em sua juventude, por insistência
da família, foi estudar Direito e conseguiu um emprego no Ministério
da Justiça. Com pouco mais de vinte anos, porém, mandou a família
às favas e foi estudar música no Conservatório de São Petersburgo.
Qualquer pessoa nessa idade é considerada, pelos entendidos, como
"velha demais" para estudar música. O caso de Tchaikovsky não fugiu
à regra. Com vinte e um anos, apesar de conhecer e gostar de Mozart,
não sabia quem era Schumann e não tinha a menor idéia de quantas sinfonias
Beethoven havia escrito.
Todavia, em um gigantesco
esforço de trabalho, coordenado por seu professor Anton Rubinstein,
fez com que o aluno progredisse rapidamente. Um exemplo: certa vez,
Rubinstein pediu-lhe que escrevesse variações sobre um tema de Beethoven.
Tchaikovsky passou a noite trabalhando e na manhã seguinte apresentou
duzentas. Seus progressos foram visíveis: em 1866 foi convidado por
Nicholas Rubinstein, irmão de Anton, para ser professor no Novo Conservatório
de Moscou, cidade para onde se mudou. Datam desse período suas primeiras
composições sérias, em especial a Primeira Sinfonia, intitulada "Sonhos
de Inverno". O poético título não escondia uma melancolia sempre presente,
que nas obras posteriores se transformaria em desespero. Desespero,
porém, presente durante o período de composição da sinfonia: o ritmo
de trabalho foi tão estafante que Tchaikovsky chegou a ter alucinações,
crises nervosas e dores de cabeça a tal ponto que jurou a si mesmo
nunca mais escrever música de noite.
Os primeiros dez anos em
Moscou foram particularmente difícieis para ele: além das constantes
crises de depressão, não obtinha o sucesso desejado. Teve oportunidade
de conhecer alguns de seus grandes contemporâneos - Liszt, Tolstoi,
Wagner - e desenvolver sua carreira de compositor. Quarteros de Cordas
(1871, 1874 e 1876), Sinfonias (No.2, 1872, and No.3 1875) óperas
Francesca da Rimini (1876), Romeo e Julieta (1869), e o famosíssimo
Concerto para Piano em Si Bemol Menor de 1874. Há uma anedota interessante
sobre esse concerto, que viria a tornar o nome de Tchaikovsky mundialmente
famoso.
A obra foi dedicada à Nicholas
Rubinstein, que, quando a ouviu pela primeira vez, disse que "duas
ou três páginas poderiam se salvar", mas que "o resto tinha de ser
refeito". Tchaikovsky não mudou uma linha da partitura, exceto a dedicatória,
que foi transferida para o pianista e Maestro Hasn Von Bullow, casado
com Cósima Wagner. Para tentar resolver alguns de seus problemas,
decidiu que a melhor solução era casar. Antonina Ivanovana Milyukoff
era uma jovem russa que, impressionada pela música de Tchaikovsky,
escreveu-lhe uma carta dizendo-se apaixonada. O compositor não pensou
duas vezes: casou-se em 6 de julho de 1877, separando-se em menos
de um mês. Sua situação não poderia ser pior: se sua vida pessoal
estava em ruínas, tampouco sua vida profissional estava em seus melhores
dias: o emprego no conservatório não lhe rendia o esperado.
De repente, do meio do nada,
uma carta mudou completamente essa situação. Nadejda Fillaretovna
von Meck, uma milionária da alta aristocracia russa enviava-lhe uma
carta expressando sua admiração por sua música e sua intenção de patrocinar
o compositor com um subsídio de cerca de 6.000 rublos por ano. (Não,
não imagino quanto seja isso em reais, mas deve ser uma tremenda grana).
Nadeja era nove anos mais velha que Tchaikóvsky, viúva e muito, muito
rica. O contrato de patrocínio especificava que os dois jamais poderiam
se encontrar. Apesar de estranha, essa situação salvou o compositor
do desespero total. Avesso às relações pessoais, a amizade de Nadeja
era uma válvula de escape para a personalidade ao mesmo tempo nervosa
e expansiva de Tchaikovsky. Nadeja tornou-se amiga e confidente de
Tchaikovsky. O fato de não se conhecerem pessoalmente não os impediu
de se tornarem amigos íntimos: trocavam cartas e mais cartas, às vezes
seis por dia, dividindo esperanças, sonhos e música, muita música.
A produção do compositor
crescia, junto com sua fama: a Quarta Sinfonia - já marcada por um
tema recorrente simbolizando o "Destino"- de 1878, Eugene Onegin,
sua ópera mais famosa, no mesmo ano. O Concerto para Violino, e a
ópera Manfredo em 1885; a Quinta Sinfonia em 1888; Pique Dame, outra
ópera de sucesso, em 1890; O Quebra-Nozes, ballet de 1891 ainda hoje
um de seus sucessos; Sua fama atravessou a fronteira do país, e ele
visitou todas as grnades capitais da Europa dando concertos e regendo
suas próprias obras. Esses anos felizes terminaram em 1890, quando,
já tendo dispensado há algum tempo o subsídio de Nadeja Von Meck,
rompeu com ela.
A amizade chegou a o fim,
e a vida do compositor também: três anos depois, em sua propriedade
rural, na cidade de Klin, completou sua mais fantasmagórica obra,
a Sexta Sinfonia, conhecida como "Patética". Dias depois da estréia,
Tchaikovsky tomou um copo de água não filtrada (talvez intencionalmente)
e morreu de cólera em 6 de Novembro de 1893. Obras Tchaikovsky teve
uma produção bastante diversificada, mas seus trabalhos mais conhecidos
são para orquestra. Se ele não teve o mesmo brilho de seus colegas
russos (como Rimsky-Korsakow) no que tange à orquestração, soube usar
bem os recursos da moderna orquestra sinfônica, já estabelecidos por
Beethoven. Concertos e Sinfonias Concerto para Piano n. 1, em Si Bemol
Menor - Uma das jóias do repertório pianístico, inicia-se com um arrebatamento
majestoso nas trompas que não deixa dúvidas quanto ao que vem por
aí.
O primeiro movimento, em
especial, é uma excelente introdução à obra de Tchaikovsky. Sinfonia
n. 5 - A partir da Sinfonia N. 4, as obras de Tchaikovsky passaram
a ser marcadas pelo tema do destino cruel, à que todas as criaturas
devem se submeter, sem esperança. Essa situação é desenvolvida na
Sinfonia N. 5, mas ainda com esperança de vitória. O segundo movimento,
Adagio, tem um belíssimo solo de trompa (que já foi transformado em
balada por - bleargh - Waldo de Los Rios) e, no festivo último movimento,
a vitória completa sobre o mal. Sinfonia n. 6 - Vitória bastante discutível,
uma vez que na sinfonia seguinte toda e qualquer esperança é aniquilada
sob o efeito mortal da falta de sentido perante e vida. (Ou eu paro
por aqui ou vou começar a falar de Kierkegaard e Sartre). Dessa obra
destacam-se, para o iniciante, o segundo movimento, uma estranha valsa
em 5/4, e o último, de onde a sinfonia tirou seu título. Ballets O
Quebra-Nozes - Baseado em um conto de fadas sobre o soldadinho de
chumbo que se apaixona pela bailarina, este balé resume toda a riqueza
de orquestração de Tchaicovsky.
Para os novatos, a Suíte
extraída do balé completo é uma boa introdução. A Bela Adormecida
- Lembra do filme da Disney, com as três fadas boazinhas, a bruxa
malvada, a Bela Adormecida e o Príncipe? Pois é: sabia que toda a
trilha sonora é extraída do Ballet de Tchaikovsky? Sem detalhes: vá
até a locadora e ouça o filme. É o melhor resumo que posso oferecer.