O Encontro Nacional de Mulheres, que iniciou cedo,
na manhã de sexta-feira, 22/08/03, com a chegada de participantes
vindas de várias partes do país, contou com a participação
de 63 mulheres, provenientes do RS, SC, PR, SP, RO, MG e ES com
idades entre 20 e oitenta anos, envolvidas em diversos tipos de
atividades sociais e comunitárias.
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No primeiro dia, pela manhã foi feita a acolhida e, através
da biodança, com a assessoria da psicóloga Jozânia
Miguel Chaves (Jô), as participantes foram convidadas a
dançar e refletir sobre "quem sou" apresentando-se
gradativamente às demais companheiras neste encontro.
Na parte da tarde, os trabalhos foram iniciados com palestra
da Dra. Fátima Oliveira, que é médica e secretária
executiva da Rede Nacional Feminista de Saúde, Direitos
Sexuais e Direitos Reprodutivos, organização apoiadora
do Encontro. Fátima trouxe uma série de dados sobre
a violência em suas manifestações mais cruéis
e fez questão de frisar duas coisas: que quando se trata
da preocupação com a saúde da mulher e com
a violência de gênero, não se pode esquecer
de falar sobre a saúde da mulher negra e sobre a violência
específica que visa às mulheres negras, que são
pelo menos metade da população feminina em nosso
país; outro ponto foi de que, uma vez que as mulheres em
situação de violência tendem a buscar em primeiro
lugar os serviços de saúde, os profissionais dessas
áreas devem estar devidamente capacitados a diagnosticar
quando as mulheres atendidas são vítimas de violência,
para tratá-las como tal. Foi uma contribuição
feita em quatro pontos, em que apresentou: 1. Uma radiografia
da violência de gênero (doméstica, sexual,
moral, racial e institucional) no mundo; 2. Breve histórico
da luta feminista para visibilizar e coibir a violência
contra a mulher; 3. Os equipamentos públicos de atenção
à violência de gênero ,as áreas de segurança,
social e jurídica e da saúde; e 4. Saúde
da Mulher como um campo de assistência e pesquisa.
A palestrante foi muito feliz em seu modo de chamar atenção
para o fato de que a violência de gênero se manifesta
no mundo como um verdadeiro pandemônio, com raízes
extremamente profundas, que precisa ser enfrentada através
da criação de uma rede com o maior número
de segmentos possíveis que operem em concomitância
e sintonia, para a superação dessa epidemia que
não atinge apenas outras mulheres, mas a cada uma de nós.
À noite a P.ª Dr.ª Ivoni Richter Reimer, especializada
em Teologia Bíblica, fez às participantes uma apresentação
em data show , tratando de "Cura e Saúde numa perspectiva
holística", tema este com o qual introduziu seus trabalhos
para o segundo dia do Encontro. A pastora trouxe reflexões
sobre o que é saúde, o que é cura e o que
é vida e frisou que a dor ou a doença de uma pessoa,
pensando em sentido holístico (considerando o todo), afeta
não somente o corpo de quem sofre essa dor ou dessa doença,
mas toda a criação.
Os trabalhos do segundo dia foram marcados por muitas vivências.
Na parte da manhã, a P.ª Ivoni desafiou as mulheres
a, através do estudo de três textos do Novo Testamento,
que tratam da doença ou da dor de mulheres, refletir, em
três cenas sobre as doenças (o que são e como
se manifestam), sobre o processo terapêutico (quando e como
ele acontece) e sobre cura. Os textos estudados mostram que há
situações em que a cura acontece como conseqüência
da insistência em lutar, em não desistir e em buscar
uma libertação para a própria dor. Mostraram
também que há situações em que a cura
é conseqüência da solidariedade de alguém
que intercede pedindo cura para quem padece. E há, ainda,
outros casos em que a pessoa, para ser curada precisa ser vista
e socorrida.
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O estudo de todos os textos foi feito com vivências em
que as participantes tinham que se colocar na pele da mulher vítima
de dor/doença, que cada texto trazia. Essas vivências
e reflexões foram enriquecidas e feitas com cada mulher
considerando sua própria situação e partilhando
suas sensações e experiências.
À tarde, a doutoranda em Teologia Prática no Instituto
Ecumênico de Pós-Graduação, em São
Leopoldo-RS, Anete Roese, desenvolveu várias vivências
e trabalhou dois textos do Antigo Testamento que trazem a experiência
de mulheres violentadas com o objetivo de que cada uma pudesse
perceber como a dor se manifesta em si mesma e nas outras mulheres.
Muitas dinâmicas ligadas ao bibliodrama foram desenvolvidas
e através destas mulheres puderam sentir como é
querer se levantar e não poder, querer gritar e ter a boca
tampada, querer dizer o que se sente e não ser compreendida
e várias outras sensações.
Em azulejos e com a ajuda de espátulas (palitos de picolé)
cada participante foi convidada a reproduzir com cores a dor.
Refletiu-se muito encima disso. Os azulejos foram dispostos no
chão formando um grande e belo mosaico que trazia histórias
e sentimentos de mulheres vítimas de violência e
dor. Ao final das atividades, depois de partilhar muitas sensações,
as mulheres se sentiam com os corpos doendo de fato, como resultado
de tudo a que foram submetidos, porém o sentimento era
de mais alívio uma vez que as dores haviam sido compartilhadas.
Foi com essa impressão que cada mulher foi convidada a
novamente pintar, com as cores da libertação, conforme
critérios de cada uma, uma nova figura por cima da pintura
já existente. Notou-se ao final da tarefa, que o mosaico
já havia ficado bem mais colorido e alegre. Ao final do
Encontro cada participante poderá levar seu azulejo, como
uma lembrança deste encontro e das experiências aqui
vividas, como um marco na história de vida de cada uma.
A noite foi reservada para informações sobre a
Pastoral Popular Luterana, mais especificamente sobre o Programa
Mulheres e Relações de Gênero, que promove
esses encontros. E, ainda, para alguns encaminhamentos relacionados
ao trabalho com mulheres no âmbito da Igreja Evangélica
de Confissão Luterana.
No último dia do Encontro, o período da manhã
foi reservado para atividades de biodança com a Jô
Miguel, para pensar sobre os "quem" na vida de cada
uma. À tarde mais um tempo para avaliação
e encaminhamentos relacionados ao próximo encontro, bem
como para uma celebração final.
O programa do encontro foi extremamente apertado e o tempo curto
para permitir que tantas mulheres falem em plenária tudo
o que acontece de significativo ou doloroso em suas vidas. Essa
partilha de experiências e estreitamento de laços
e contatos, foi feita de uma ou outra forma nas discussões
em grupos e nos intervalos.
Pª Aneli Schwarz