Guilherme Lieven *
Ó Deus,
que o teu amor nos acompanhe,
pois nós pomos
em ti a nossa esperança! Salmos 33:22
Numa conversa com dois jovens perguntei sobre quais os principais
motivos do sentimento de vazio, de perda e de desesperança.
Após alguns segundos de silêncio, como milho de pipoca
na panela quente, muitas situações rapidamente foram
citadas. Anotei a maioria: solidão, saudade, infidelidade,
traição, desamparo, discriminação, abandono
dos amigos e da família, sentido para viver, fome, desinformação,
doença, dor, objetivos frustrados, medo de fracassar, desilusões,
amores perdidos, humilhação, desemprego, morte, violência
pessoal, psíquica e social.
Empolgados com o assunto relacionamos as respostas com as atitudes
e comportamentos, comuns entre os adolescentes e jovens, que demonstram
ansiedade e sofrimento, que expressam fugas e revoltas, que buscam
desordenadamente caminhos e metas que superem os problemas e garantam
conquistas e prazeres. A conversa continuou por muitos minutos, versando
sobre os sofrimentos que afligem a juventude e a família.
Agora, motivado por essa conversa partilho uma reflexão,
que contrapõe o vazio vivido pelos jovens, tão volumoso
e comum, com a também volumosa e concreta esperança,
a esperança vivida e experimentada pela fé.
Estavam com fome e com sede e haviam perdido toda a esperança.
Salmos 107:5
O vazio cria o fatalismo e alimenta uma compreensão distorcida
da natureza humana, da Criação e de Deus. Os adolescentes
e jovens na situação de perda e desespero interagem
e reagem, inadvertidamente, como agentes independentes, criadores
do próprio destino, escolhendo rumos e comportamentos destrutivos.
A partir da experiência com a dor, com o sofrimento e a exclusão,
quando ainda lhes restam forças e criatividade, escolhem o
caminho da auto-gestão de prazeres, objetivos e sentidos,
usando as mesmas armas e a mesma dinâmica de destruição
de que são vítimas. A visão é esta, que
no vazio todas as propostas são boas e as melhores são
aquelas que controlo, que garantem soluções e prazeres
imediatos, mesmo que destrutivos.
Neste contexto apresentamos a esperança, gerada pela fé no
Deus de amor, que nos salvou do pecado e da morte por meio de Jesus
Cristo, como o caminho. Esta esperança propõe uma nova
compreensão da realidade de conflitos, vazia de sentido, da
natureza humana, da História e de Deus.
Somente em Deus eu encontro paz e nele ponho
a minha esperança.
Salmos 62:5
Na verdade desde o batismo somos filhas e filhos de Deus, dependentes
da sua graça e cuidados. Dependentes dele somos chamados para
criar e recriar o que é justo e bom. A vocação
de Deus não é para o castigo e para a aflição,
mas para a liberdade e para a vida. A partir da fé em Jesus
Cristo e do exercício da espiritualidade aprendemos a participar
da obra de vida de Deus instalada no mundo. Reconhecemos que somos
limitados, imperfeitos e pecadores, porém, reconciliados pela
fé, aceitamos a dependência de Deus e buscamos, com
Ele, a superação do vazio e do sofrimento. Aceitamos
a vocação para servir e amar, sob o cuidado e a inspiração
de Deus (Pai, Filho e Espírito santo) para além dos
limites do medo e dos poderes que matam. Significa que negamos a
compreensão manipuladora que explica o ser humano como um
ser independente e agente solitário da sua salvação.
Significa que não estamos solitários no mundo na busca
pela vida, mas que há um Deus libertador que propõe
a nossa inclusão em seu reino, fazendo de nós testemunhas
e agentes vivos da superação da realidade de morte.
Testemunhamos que a dependência de Deus não é escravizante,
mas, pela graça, inclui o ser humano na construção
da vida como ser criativo, dotado de dons, apesar da sua fragilidade,
limitação e imperfeição.
Nas situações de sofrimento, nos vazios da vida, gerados
pela perda, é possível encontrar a graça de
Deus, a presença viva de Jesus Cristo e a ação
do espírito santo e, com Ele, realinhar o rumo, fazer escolhas
novas, começar de novo, nascer de novo (2 Coríntios
5.17) para uma proposta de vida que, ao contrário da alienação
e da destruição, nos prepara e nos insere em novas
situações, em que é possível ser agente
de solidariedade e de transformação do vazio em vida.
Proponho a todos, especialmente aos adolescentes e jovens, a experiência
de um caminho novo, e encontrar nele a superação de
suas dores e sofrimentos - o caminho da graça de Deus que,
invariavelmente, leva à liberdade e a vida, que adota todos
como seres ativos e criativos, como agentes de transformação.
Foi Cristo quem nos deu, por meio da nossa fé, esta vida
na graça de Deus. E agora continuamos firmes nessa graça
e nos alegramos na esperança de participar da glória
de Deus. Romanos 5.2
* Guilherme
Lieven é pastor na Paróquia ABCD