Guilherme Lieven *
O Espírito de Deus é quem dá a vida...
As palavras que eu lhes disse são espírito e vida.
(Jo 6.63)
O Senhor tem as palavras que dão a vida eterna! (Jo 6.68)
Ao refletir sobre o Espírito que dá a vida lembrei-me
de que ainda é muito comum, em alguns meios, o uso da expressão “espírito
de porco”. Muitos se expressam assim ao referirem-se a pessoas
sem escrúpulos, sem limites, amigos da corrupção
e da confusão, que desestabilizam ambientes de convivência,
que estão sempre corrompendo os bons propósitos com
o mal. Com esta referência quero dizer que no dia-a-dia, além
do Espírito de Deus lembramos, ouvimos e interagimos com muitas
linguagens sobre espírito: espíritos humanos, espíritos
divinos bons e maus, espíritos de luz, da paz e de sabedoria.
Quando prestamos atenção encontramos em nosso meio
muitos nomes, conceitos e compreensões diferentes e contraditórias
do termo espírito.
Como respondemos quando perguntados sobre qual o Espírito
que nos santifica e nos conduz à vida eterna? Quem revela
o que está oculto (Jo 14-16)? Quem anuncia aquilo que há de
vir (Jo 16.13)? Se cremos que somente Deus pode revelar Deus, quem
o revela (Mt 11.27)? Como é essa força espiritual de
Deus que mora em nós desde o dia do batismo? Quem cria e mantém
em nós esperança e fé? Quem nos auxilia e grita
por nós na hora da oração? A estas perguntas
respondemos rapidamente: O Espírito de Deus, o Espírito
Santo. Verdadeiramente Esta é a nossa fé e, conseqüentemente,
a nossa linguagem como cristãs e cristãos. Mas, como
explicamos, assimilamos, compreendemos e experimentamos o Espírito
Santo e as suas ações?
O Espírito Santo, o Paracleto, revela a vida, convence e impulsiona
o seguimento a Jesus cristo, vocaciona, purifica e santifica. Cria
comunhão com Deus. Dá a vida. É vida (tzoé).
Estas palavras e conceitos sobre o Espírito para alguns são
bonitas e reveladoras, para outros, a maioria, são de difícil
compreensão e adaptação para a vivência
espiritual do dia-a-dia. Para dar sentido a esta força santa
de Deus nossa linguagem é fraca e limitada. Já sabemos
que não podemos reduzir a beleza e o poder do Espírito
de Deus a conceitos, a uma única fórmula ou linguagem.
A tradução desta força santificadora e salvadora
necessita de constante atualização e contextualização.
Na Bíblia, nos textos em hebraico, foi usado para a palavra
espírito o termo ruach, que significa brisa, corrente de ar,
força e vida. E nos textos escritos em grego foi usado pneuma
com significado aproximado ao de ruach. Encontramos, ainda, na Bíblia
outras metáforas, tais como fogo, vento, luz e água
para comunicarem a força criativa, transformadora, bela e
santa do Espírito de Deus.
Mas como falar que esta fantástica força de Deus é fogo,
se para nós hoje fogo é destruição e
ameaça; é força incontrolável e arma
de guerra, capazes de destruir casas, edifícios, fábricas,
depósitos, pessoas e meio ambiente? Como usar esta bela e
fácil imagem se fogo hoje representa valores diferentes daqueles
do tempo da Bíblia em que significava milagre da natureza,
força que aquece, sinaliza, cozinha e transforma os meios
para o trabalho e sustento? Ou então, como falar que o Espírito
santo é vento, se vento na maioria dos meses do ano é quase
sinônimo de pneumonia, se na praia junto com a areia é como
chicote, se dele é preciso se proteger e evitar? Diferente
do contexto geográfico bíblico em que vento era brisa
que refrescava, reanimava e fortalecia. Como falar que o Espírito
de Deus é luz, se em nossas noites as luzes das ruas, mercados,
vitrines e fachadas comunicam produtos e mercadorias, pessoas, propostas
e programas que parecem querer nos possuir, dominar e escravizar?
Bem diferente do contexto bíblico em que luz era quase exclusivamente
um fenômeno natural e sagrado que indicava caminho e revelava
a vida e o futuro.
Convido você para arriscar comigo. Vamos atualizar um pouco
a nossa linguagem, escolhendo novos termos para comunicar esta maravilhosa
força de Deus.
O Espírito de Deus é como remédio, bom e barato.
Ele cura. Toma conta do corpo e da alma e expulsa o demônio
e o caos. Medicados com o Espírito de Deus alcançamos
saúde, entendimento, lucidez e bem-estar.
O Espírito santo é como um abraço amigo e forte,
fraterno e intenso. É como um abraço de reencontro
e reconciliação. É um abraço que perdoa,
que retira pesos e cargas, que devolve o fôlego e a liberdade.
O Espírito santificador é como um som gostoso de ouvir.
Como um som que reúne e sinaliza, que desperta, chama e toca
por dentro. Ele tem o poder de revelar a presença de Deus às
pessoas, comunidades e povos sofridos, excluídos e oprimidos.
Ele fortalece, toca e cria uma comunhão invisível entre
todos os que crêem e buscam transformação. Com
aquela melodia frágil e suave chega para os fracos e desanimados,
para os aflitos e os desamparados e, então, acalma, reúne,
fortalece, consola e cria paz. É um som inaudível para
os ouvidos dos poderosos e maus, para os ouvidos dos possuídos
pelo “espírito de porco”.
O Espírito de Cristo é um perfume que seduz e toca
os nossos corpos mortais com o sabor da vida e da ressurreição. É perfume
que afugenta o odor e o poder da morte. É perfume de amor
que dá sentido à vida e cria um ambiente da ressurreição
e da eternidade.
Jesus Cristo trouxe da parte de Deus vida para a vida humana condenada
e rejeitada. Interferiu na história com o amor e a doação.
E deixou no mundo e nas vidas humanas o Espírito Santo para
ser remédio, carinho, abraço, afago, música
e perfume. Eu sei, o Espírito de Deus é vida.
* Guilherme
Lieven é pastor na Paróquia ABCD