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O luto - uma dor salutar
Anualmente, o dia de finados cumpre seu papel de nos lembrar de nossas despedidas e perdas. Diante da sepultura das pessoas queridas e significativas que nos antecederam na morte, atualiza-se, mais uma vez, a dor da separação. Especialmente para aqueles que sofreram perdas recentes, estes dias são duros e penosos.
Diante da dor do luto, pessoas podem se sentir inseguras. No aconselhamento pastoral, enlutados muitas vezes perguntam se a intensidade da dor que estão sentindo é “normal”. É importante saber que o luto é o sentimento espontâneo e natural de dor pela perda de algo de valor e importância central para nossa vida. Embora existam vários tipos de perda, a mais significativa, sem dúvida, é a morte de uma pessoa amada e querida. Justamente pelo fato de que nós, seres humanos, nos apegamos, nos vinculamos emocionalmente, partilhamos a vida e nos amamos, a perda de uma pessoa querida significa uma grande crise pessoal. Não raro, enlutados perdem completamente o sentido de suas vidas.
Apesar da crise que provoca, entretanto, o luto não é doença e não deve ser confundido com depressão ou melancolia. Na verdade, a reação do luto é inata. Já ao nascer, o ser humano chora, protesta, lamenta. Esta capacidade permanece inalterada até sua morte. Se observarmos nossa vida atentamente, veremos que, desde o início, há despedidas, separações e perdas. A primeira separação e perda é a despedida do ventre materno, lugar protegido e paradisíaco. A última despedida será a própria morte. Curiosamente, estas duas experiências existenciais, a primeira e a última, são experiências de separação, despedida e luto. Outro fator que, ao longo de nossa vida, constantemente nos remete à perda e à despedida é o tempo, que corre impiedosamente e se esvai sem retornar jamais. Assim, a vida humana caracteriza-se por um constante despedir-se.
Pela própria natureza, estamos de antemão preparados e equipados para ter reações adequadas capazes de absorver e transpor perdas, despedidas e o próprio luto.
O luto e sua expressão emocional não deverem ser negados, reprimidos ou até mesmo sufocada à força. Se a expressão do luto for reprimida, então, é preciso contar com distúrbios psicológicos, emocionais, físicos e sociais. Quando, porém, a expressão do luto é permitida, ela propicia uma despedida sadia e nos torna conscientes que a pessoa falecida não mais estará conosco. A livre expressão do luto, portanto, nos leva à gradual superação da dor e à reorganização da vida.
Dr. Paulo Afonso Butzke - Assessor de Formação do Sínodo Vale do Itajaí
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