O desafio da sustentabilidade, do crescimento quantitativo e
qualitativo e o desafio da identidade foram o cerne da palestra
apresentada no XXV Concílio da IECLB, no dia 13 de outubro, pelo pastor
Dr. Paulo Afonso Butzke. Assessor teológico do Sínodo Vale do Itajaí,
ele baseou sua reflexão em Lucas 5. 1-6 - onde "Jesus chama os
primeiros discípulos" e os anima a lançar suas redes em águas mais
profundas, contrariando, com isso, a experiência dos pescadores.
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| Paulo Butzke: As igrejas também podem valer-se de planejamento, monitoramento e avaliação |
A
história do conceito da sustentabilidade liga-se à preocupação
crescente em alcançar o equilíbrio entre atividade econômica, meio
ambiente e bem-estar da humanidade, expôs o palestrante.
Atualmente, prosseguiu, na busca por sustentabilidade e desenvolvimento
institucional, organizações de todos os setores são desafiadas a
utilizar a ferramenta do planejamento estratégico, ou seja, o
planejamento, monitoramento e avaliação (PMA). As igrejas, enquanto
organizações da sociedade civil, também podem valer-se desta
metodologia para promover crescimento quantitativo e qualitativo.
"O planejamento estratégico possibilita à igreja a tomada de medidas
positivas tanto para enfrentar ameaças quanto para aproveitar as
oportunidades em seu ambiente. Onde existe planejamento a médio e longo
prazo, existe a concentração e a aplicação eficaz de todas as
possibilidades que a igreja dispõe, facilitando que ela alcance seus
objetivos e colabore de forma eficaz com a missão de Deus no mundo",
ensinou Butzke.
MORDOMIA CRISTÃ - Uma estratégia de desenvolver a auto-sustentabilidade
da igreja, igualmente, é a promoção persistente e contínua da mordomia
cristã. Determinante para o programa de mordomia é a convicção de que
os dons individuais, os bens materiais e o tempo nada mais são do que
propriedade de Deus confiada aos seres humanos. A estes cabe a tarefa
de administrar esta propriedade divina de acordo com a vontade de Deus,
colaborando com sua missão neste mundo.
Butzke define como "sinal de esperança" o fato de em todos os sínodos
da IECLB estarem surgindo iniciativas em torno do tema "fé, gratidão e
compromisso". Ele, contudo, chama a atenção para alguns perigos que
percebe no tratamento do tema: ele não pode ser apenas objeto de
reflexão cognitiva seguido por um apelo moral em favor da contribuição.
"Ou o tema atinge o coração de nossos membros ou teremos mais uma
frustração a contabilizar", assegura o palestrante. Na sua convicção,
importantíssimo fator pedagógico é conectar a disposição de doar e
contribuir com projetos missionários e diaconais.
A IECLB, como um todo, não cresce como desejado. Em algumas áreas,
inclusive, estagnou ou decresce. Em outras, nota-se algum crescimento,
incluídos aqui os projetos missionários e outras iniciativas motivadas
pelo Plano de Ação Missão da Igreja (Pami), aponta Butzke.
Para ele, o nó crítico da missão da IECLB, porém, permanece sendo o
desafio do desenvolvimento e de crescimento quantitativo e qualitativo
de suas comunidades e paróquias - isto apesar do instigante slogan do
Pami: "Nenhuma comunidade sem missão - nenhuma missão sem comunidade".
LIMITES E RIVALIDADES - Butzke diz ter percebido um claro descompasso
na reflexão acerca da missão: "Temos sido eficazes em articular as
bases teológicas da missão, em fomentar e executar projetos
missionários exemplares de missão integral e contextual. Falta-nos, no
entanto, a concepção e a visão para o crescimento quantitativo e
qualitativo de nossas comunidades e paróquias. As poucas visões que
temos não são compartilhadas - esbarram nos limites e rivalidades
existentes entre os sínodos, movimentos, instituições".
Ele considera "urgente" a realização de fórum nacional para trocar
experiências, para refletir acerca das concepções eclesiológicas e
modelos ministeriais vigentes, para construir um projeto comum
adaptável aos diferentes contextos.
"Se quisermos, de fato, promover um processo de desenvolvimento capaz
de viabilizar crescimento quantitativo e qualitativo de nossas
paróquias e comunidades, será necessário, antes de tudo, qualificar
cada um dos aspectos fundamentais da vida comunitária e eclesiástica",
assegura o palestrante.
Palestra cativou a todos - delegados e hóspedes ecumênicos
LEGADO DO CMI - Para Butzke, uma das definições mais completas dos
aspectos que perfazem a missão da igreja foi legada pelo Conselho
Mundial de Igrejas (CMI). No contexto da discussão sobre estruturas
missionárias das igrejas na década de 60 do século passado,
estabeleceu-se que a igreja participa da missão de Deus neste mundo
promovendo "martyria" - o testemunho do Evangelho; "koinonia" - a
comunhão dos que vivem a partir do Evangelho; "diakonia" - o serviço ao
próximo e à sociedade; "leitourgia" - o louvor e a celebração do amor
de Deus.
É na realização equilibrada e perseverante destes aspectos é que se
pode esperar crescimento quantitativo. "Lançar a rede em águas mais
profundas" em cada um destes aspectos será decisivo para o bom futuro
da IECLB, ensinou o palestrante.
"Lançar as redes em águas mais profundas" no que diz respeito à
"martyria" - testemunho do Evangelho - significa, entre outros,
investir em formas que comunicam o Evangelho de forma efetiva para o
mundo de hoje: cursos evangelísticos, espaços de reflexão que integrem
fé e vida, utilização da mídia moderna, otimização da comunicação,
incentivo e formação para a evangelização a partir dos relacionamentos.
"Lançar a rede em águas mais profundas" no aspecto da "koinonia" -
vivência concreta do corpo de Cristo - é promover a experiência da
comunhão. O grande desafio é proporcionar, na vida comunitária, espaços
de convivência e aceitação mútuas. Espaços onde a graça de Deus
determine o relacionamento das pessoas, criando um clima positivo.
Para Paulo Butzke, a característica mais importante de um clima
positivo é a valorização das pessoas. "Comunidade que consegue incluir
e valorizar membros e não membros possuiu alta atratividade e deverá
crescer em número", afiança Paulo.
"Lançar a rede em águas mais profundas" no aspecto da "diakonia" - o
serviço ao próximo e à sociedade - é tornar a fé e a espiritualidade
ativas no amor. O crescimento das comunidades e paróquias da IECLB
dependerá, em boa medida, da relevância diaconal que possam conquistar
na sociedade em que estão inseridos. Dependerá, pois, da
disponibilidade para tornarem-se comunidade solidária e igreja para
outros.
O que significa "Lançar a rede em águas mais profundas" no aspecto da
"Leitorgia" - celebração do amor de Deus? Em nenhum outro aspecto a
IECLB avançou mais nas últimas décadas do que na renovação litúrgica,
afiança Butzke. "Cabe ainda avançarmos na compreensão e melhor
elaboração dos elementos antropológicos do culto para que, de fato, se
torne acontecimento dialogal e proporcione experiência de comunhão",
assinala.
"Testemunho - comunhão - serviço - louvor. É na constante qualificação
destes aspectos básicos que promovemos nosso desenvolvimento como
igreja. O desafio maior da IECLB é ouvir a ordem de Jesus - 'lancem as
redes em águas mais profundas' - e responder como discípulos e
discípulas - 'apesar das dificuldades, sob a tua palavra lançaremos as
redes'. Se o barco chamado IECLB se tornar disponível para a missão de
Deus, então poderemos contar com a sua fidelidade, e, onde e quando
aprouver a Deus, experimentar o milagre das redes repletas de suas
bênçãos", afiança Paulo Butzke.