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Posicionamento da
IECLB
Ano: 1997
1.
Introdução
Este
documento sobre a Pastoral de Família na IECLB é resultado de uma
Consulta Nacional realizada em Porto Alegre (RS), de 04 a 06 de outubro
de 1996. A consulta teve como objetivo definir o trabalho e as
atividades relacionadas com as famílias na IECLB, ou atingidas por ela.
O presente documento, aprovado pelo Conselho Diretor, é uma orientação
em meio à diversidade de iniciativas existentes no âmbito da IECLB. O
documento contém três aspectos importantes: a)
Análise da Realidade (a
família atual e as influências às quais
está exposta); b) Visão
Bíblica (a família nos tempos da
Bíblia e os propósitos de Deus com
relação à vida familiar); c) Pastoral de Família
(sugestões da IECLB para o convívio familiar e o trabalho com as
famílias). Em seu todo, o documento está fundamentado na
confessionalidade luterana.
Trata-se
de uma Pastoral porque procura-se inserir as famílias no rebanho de
Cristo, o Bom Pastor. Assim também o rebanho, a congregação cristã, tem
uma função familiar. Todas as pessoas têm o direito de receber a
orientação e a proteção do Bom Pastor. Este documento é uma palavra
orientadora para a vida e o convívio familiar de pessoas, comunidades e
entidades ligadas à Igreja.
Sob
família a Igreja entende o grupo de pessoas relacionadas entre si por
laços de parentesco, afetividade, compromisso ou comunhão cristã.
Portanto, o conceito de família vai além do grupo de pessoas formado
por pai, mãe, filhos e filhas, vivendo legalmente sob o mesmo teto. Com
respeito e amor, a comunidade cristã também aceita, acolhe e ampara
grupos familiares com características especiais.
Por
causa da grande diversidade de relacionamentos no convívio humano, o
presente documento não pode abranger todos os aspectos. Quer, no
entanto, ser um agente motivador para membros e comunidades da IECLB, a
fim de que abracem a Pastoral de Família como uma tarefa inserida na
missão cristã.
A
IECLB confessa e vive da graça de Deus revelada no Senhor Jesus Cristo.
Esta graça de Deus tem profundas conseqüências na vida pessoal, nos
grupos familiares e no convívio comunitário. A Pastoral de Família quer
ajudar os membros e as comunidades a vivenciarem sinais deste grande
amor de Deus.
Como
resposta a este amor, a Pastoral de Família traz consigo também uma
dimensão de serviço. O convívio comunitário e familiar tem aspectos
profundamente diaconais, ou seja, de serviço ao próximo. Este
documento, portanto, quer ser uma ajuda à Igreja, para que esta possa
servir cada vez melhor.
2.
A Realidade
Desafia
A
família, como instituição, tem recebido profundos impactos por causa de
mudanças ocorridas na esfera cultural, com reflexos, inclusive, na
formulação de leis civis. Percebe-se que estes impactos são, entre
outros motivos, provenientes da liberação sexual, do movimento
feminista, da aprovação do divórcio, da urbanização desenfreada, do
processo migratório, da crise econômica e da aprovação da nova
Constituição do Brasil. Há elementos positivos e negativos nestas
mudanças. É um desafio para a Igreja tratar de forma diferenciada os
aspectos positivos e negativos.
A
Constituição de 1988 trouxe mudanças na base legal do matrimônio e da
família. As Constituições
até então mantinham, por exemplo, uma
visão
patriarcal da família: o marido era o chefe da família, detinha o
direito de fixar domicílio, administrar os bens e decidir em casos de
divergência. A Constituição de 1988 trata de superar esta discriminação
legislativa. O item Da família, da criança e do adolescente e do idoso
estabelece um conceito ampliado da família, quando reconhece a união
estável entre homem e mulher como entidade familiar. Foi suprimida a
expressão constituída pelo casamento. Esta nova
Constituição concede às mulheres igualdade de direitos, livrando-as do
desamparo e da discriminação legal. Apesar da legislação, na realidade,
continuam vigorando estruturas hierárquicos-patriarcais que definem a
vida familiar de muitas pessoas.
Estas
modificações na área
jurídica trouxeram novas questões para a
prática
da Igreja. A realização da Bênção Matrimonial estava naturalmente
vinculada à sanção do Estado.
Só se concedia a Bênção
Matrimonial ao
casal que casava no civil. Em muitos lugares também só se batizava a
criança de um lar legitimamente constituído. A nova realidade admite
uniões fora do modelo tradicional. Existe a possibilidade legal de
uniões por concubinato. Fala-se, inclusive, na legalização de uniões de
parceiros do mesmo sexo, tendo em vista ser uma realidade a existência
da indiferenciação entre os sexos. Por causa da complexidade e
amplitude da questão, sugere-se que a IECLB promova um amplo e profundo
estudo sobre a homossexualidade, fornecendo posteriormente um documento
que defina a posição da Igreja a respeito do assunto.
As
pesquisas indicam que os brasileiros e as brasileiras casam menos e se
separam mais. Aumenta o número de uniões de casais sem o registro
civil. Cresce a quantidade de famílias só com mãe e crianças, sem pai.
Surgem cada vez mais filhos e filhas com quatro pais,
ou seja, mães e pais divorciados e recasados. As formas de geração de
crianças também sofrem mudanças. Muitas vezes, a gravidez acontece sob
situações adversas. A discussão sobre a descriminalização ou
legalização do aborto não pode acontecer sem a posição franca da
Igreja. Por isso também se sugere que a IECLB manifeste, em documento
específico, sua posição com
relação à discussão atual
sobre o aborto.
Constata-se
que a iniciação sexual da juventude já acontece na pré-adolescência.
Disto resultam: gravidez precoce, mães adolescentes e solteiras, uniões
instáveis e sem respaldo econômico, prostituição juvenil, mas lembra-se
também que muitos avós assumem a tutela destas crianças.
A
família modifica-se constantemente e, por sua vez, modifica também o
meio no qual se encontra inserida. Em sua própria trajetória ela passa
por momentos denominados de eventos críticos. Entre
estes podem ser citados: a) o ajustamento do casal; b) o nascimento de
uma criança; c) a escolaridade; d) a adolescência; e) a saída de filhos
e filhas de casa; f) a eventual separação do casal por divórcio; g) o
envelhecimento e a senilidade; h) a morte de um familiar.
A
vida em família é um processo de constantes rupturas, perdas e ganhos,
apegos e desapegos, construção e reconstrução da trajetória de uma
existência compartilhada. Neste processo, a fé religiosa é um fator de
reordenação do caos. Constata-se, contudo, que a proliferação de
propostas religiosas causa confusão, gera conflitos e patologias.
As
mudanças políticas e econômicas que
estão ocorrendo nos últimos tempos com o processo
chamado de globalização
vêm interferindo também na área cultural. Esta interferência é sentida,
em primeiro plano, pela família e vem das novas necessidades impostas.
Entre estas, podem-se citar: a) a necessidade que as pessoas têm de se
atualizar para competir num mercado que se especializa e se torna cada
vez mais exigente; b) a insegurança que é causada pela falência de
empresas que não conseguem mais competir, fazendo com que membros de
família, às vezes, tenham que mudar de profissão; c) a carência de
campos de trabalho causada pelo crescente desemprego, que afeta amplos
setores sociais, causando empobrecimento de novas camadas
populacionais, isto é, levando novas famílias para a marginalização; d)
as novas necessidades surgidas nas famílias que incluem crianças e
pessoas idosas, por causa da valorização exclusiva do homem e da mulher
em idade produtiva; e) a falta de perspectiva sentida por jovens. Estes
são alguns aspectos que podem ser destacados e que são significativos
para a família.
O
empobrecimento de uma família altera profundamente sua estrutura e seu
sistema de relacionamentos. Há muitas pessoas e famílias que vivem
abaixo das condições mínimas de dignidade humana. Isto gera carências,
necessidades e desafios que devem ser enfrentados pela comunidade
social e eclesial. Além dos conflitos com filhos e filhas, das crises
afetivas, sexuais e econômicas, valorizam-se os dados de pesquisas
recentes que comprovam ser o alcoolismo o maior fator gerador de crises
familiares.
Os
recursos científico-tecnológicos atuais trazem muitos impulsos novos
para a vida pessoal e o convívio familiar. Na área da medicina por
exemplo, os avanços proporcionam maiores perspectivas de sobrevida e
longevidade. Constata-se, porém, que a maioria da população não tem
acesso a estes recursos. Em vista disso, a medicina natural e
comunitária (popular) tem alcançado, através da prevenção, uma melhor
qualidade de vida. Vale lembrar, além disso, que a sociedade
competitiva e consumista exige cada vez mais das pessoas. Urge uma
conscientização a respeito da necessidade e importância do lazer para a
busca de um equilíbrio pessoal e familiar. Este visa ao descanso, à
diversão e ao desenvolvimento.
Os
estudos e as descobertas no campo da psicologia, psicanálise e terapia
trazem novas perspectivas para o trabalho de conflitos e para a
superação de crises conjugais e na
educação de filhos e
filhas.
3.
O Evangelho
Compromete
O
Antigo Testamento conta a história da
criação e do povo de Deus como história familiar.
Adão e Eva simbolizam a humanidade. São criados por Deus como casal que
deve constituir família e administrar a criação (Gn 1.27-28; 2.15).
Através das famílias dos patriarcas
Abraão, Isaque e Jacó inicia a história da eleição e
salvação.
As diferentes famílias se localizavam no tempo pela memória de sua
origem, através da lista dos antepassados (genealogia) que despertavam
a consciência histórica do povo de Deus.
Conforme
o espírito da época, predomina no Antigo Testamento uma visão
patriarcal da família, centrada no homem, como pai e chefe do clã. Em
textos decisivos, porém, como a história da criação do homem e da
mulher e da queda, transparece a profunda igualdade de ambos entre si e
perante Deus (Gn 1.27-28; 2-3).
É significante que a queda de Adão e
Eva (Gn 3) marca profundamente a história da
família humana.
Os perigos e as dores do parto, bem como a luta pela sobrevivência no
trabalho e o estabelecimento de estruturas de poder são conseqüências
da queda e mostram como a realidade da vida familiar é uma expressão da
ambivalência da vida humana. A dominação do homem sobre a mulher, o
ciúme e a violência entre os irmãos Caim e Abel (Gn 4.1-16) testemunham
que, desde o início, o pecado e o conflito fazem parte da vida familiar.
O
Antigo Testamento entende o matrimônio como instituição social, na qual
se realiza de uma forma duradoura a relação entre
homem e mulher (tornando-se os dois uma só
carne
– Gn2,24), com a finalidade da procriação e do sustento econômico dos
membros do grupo familiar. Independente da sua forma cultural,
matrimônio e família pertencem à
criação de Deus, são
abençoados por
ele e instrumentos da sua promessa de conservar a humanidade como
espécie no mundo pecaminoso (Gn 9.8-17) e da sobrevivência do seu povo
(Gn 15.4-5).
O
4º, o 6º e o 10º Mandamentos (Êx 20.1+17) expressam grande preocupação
pela manutenção da ordem familiar. Diversas outras leis, bem como
vários textos poéticos e proféticos, valorizam o matrimônio e a família
(Oséias 2 e Cantares).
A
vida da família no ciclo do ano é estritamente ligada a rituais e
celebrações religiosas (Sábado, páscoa, colheitas, etc.). Mudanças
durante o ciclo da vida familiar, como o nascimento, a adolescência, o
casamento, o falecimento, são motivos de reunião da família e da
realização de ritos de passagem. Através dos rituais a família reafirma
que pertence ao povo de Deus e vive sob a promessa da sua
bênção.
No
mundo do Novo Testamento também predomina a
família patriarcal, a estrutura da casa do
pai.
Porém os grandes clãs estão dissolvidos e as famílias vivem de forma
mais isolada. Em conseqüência da
ocupação e exploração pelo
Império
Romano, as famílias enfrentam grandes problemas, muita pobreza e fome.
Para sobreviver, muitos pais vendem filhos e filhas como escravos. Há
muitas pessoas desenraizadas que migram através do país, mendigando nas
ruas e procurando empregos ocasionais.
Nos
Evangelhos, a posição de Jesus com
relação à família deixa
claro que esta é uma realidade penúltima. A última
realidade é o Reino de Deus, esperado para breve. Frente ao fim dos
tempos e à vinda do Reino, Jesus chama as pessoas para fazerem
penitência e converter-se, a fim de estarem preparadas para participar
deste futuro (Mc 1.115). Isto individualiza as pessoas perante Deus.
Sua relação com Deus e Jesus torna-se mais importante do que os laços
familiares (Mc 13.12-13).
Jesus
questiona o encontro com a sua mãe e os seus irmãos que o procuram e
diz: “Qualquer que fizer a vontade de Deus, esse é meu irmão, irmã e
mãe” (Mc 3.35). ele relativiza os laços biológicos que constituem a
família e identifica os seus seguidores como família constituída pelo
laço espiritual, que é o fazer a
vontade de Deus. Ao lado da família
biológica, aparece a comunidade como novo
grupo familiar para os
cristãos.
Jesus
afirma o matrimônio como forma adequada de convívio, numa união plena
de corpo e alma, entre um homem e uma mulher. É o próprio Deus, o
Criador, que une as pessoas numa relação monogâmica. Ao proibir o
divórcio (Mc 10.2-12), Jesus chama as pessoas para que voltem à vontade
original de Deus. Dizendo que direito do divórcio foi
concedido por causa da dureza do
coração,
ele afirma a indissolubilidade original do matrimônio, como realidade
da criação. O que ele ensina sobre o divórcio faz parte da sua pregação
de penitência, que confronta as pessoas com o seu pecado. Por isso o
casamento com um parceiro divorciado é considerado adultério, porque a
decisão humana de se divorciar não dissolve o sentido original da união
matrimonial perante Deus (Mc 10.11). Na realidade, também o
cristianismo primitivo teve que aceitar o divórcio em determinados
casos e achar regras de avaliação (Mt 19.9; 1 Co 7.15).
A
mensagem do Reino leva a uma transformação
radical do sentido das relações familiares. Ao
aceitar as mulheres como discípulas,
Jesus dá início à igualdade espiritual entre homem e mulher. Isto leva
o Apóstolo Paulo à
constatação de que em Cristo não
há mais diferença
da função social prescrita para homem e mulher (Gl 3.28). Isto
relativiza e transforma as estruturas de poder na família patriarcal.
Certos textos bíblicos são recomendações específicas para determinadas
épocas, realidades e contextos (Cl 3.18-4.1; Ef 5.22-23). Através dos
séculos, porém, o cristianismo usa estes textos para manter a ordem
patriarcal, obscurecendo, assim, a revolução que Jesus inicia na
relação entre os gêneros.
De
forma parecida, Jesus valoriza as crianças, que no mundo antigo não
possuem uma individualidade própria. Contrariando esta visão, Jesus
deixa as crianças chegarem perto e as toca (Mc 10.13+16). Ele usa a
imagem da criança que é dependente dos adultos como metáfora da relação
do ser humano com Deus (Mt 18.1-5). Jesus se identifica com as
crianças, defende-as e mostra que Deus se faz presente através dos
excluídos e fracos. Ele mesmo se coloca diante de Deus como uma
criança, quando no Jardim Getsêmani, relutando com o seu destino, chama
Deus em tom íntimo e familiar de Aba, Pai (Mc 14.36).
Na parábola do Pai Bondoso (Lc 15.11-32), o conflito e a reconciliação
entre pai e filho(s) aparecem como um modelo da relação íntima e
familiarizada dos crentes com Deus. Por isso, nas cartas pastorais, a
relação entre pais e filhos é caracterizada pela valorização e pelo
respeito mútuo (Ef 6.1-4; Cl 3.20-21).
No
livro de Atos e nas cartas de Paulo encontram-se os lares e as famílias
como fundamento social da missão. Eram células da comunidade, lugares
de reunião, celebração e partilha.
Na
Bíblia,
a família é encarada como uma oportunidade para o crescimento e o
desenvolvimento saudável, tanto na esfera física como também na
emocional, social e espiritual. Esse crescimento é previsto para esposa
e marido, pais/mães e filhos/as, para crianças, pessoas adultas e
idosos/as.
A
Bíblia confronta as pessoas com o fato de que são pecadoras em relação
a Deus e ao próximo. Todas as pessoas carecem da graça de Deus. São
aceitas e perdoadas gratuitamente pela dádiva do seu amor. Assim,
portanto, indistintamente crianças, mulheres e homens são justificados
pela fé, independente das obras da lei.
4.
A Pastoral de
Família na
IECLB
As
comunidades e paróquias da IECLB promovem muitas atividades que
envolvem diversos membros da família (Culto Infantil, Ensino
Confirmatório, JE, Grupo de Singulares, OASE, Estudo Bíblico, Grupo de
Casais, Presbitério, Coral, Legião Evangélica, Grupo da Terceira Idade,
etc.). Tais grupos podem ser uma família para muitas pessoas que vivem
ou se sentem sós. Eles podem inclusive ser uma ajuda para o convívio
familiar.
Os
líderes comunitários são incentivados a usar sua criatividade no
sentido de promover acontecimentos que unam as famílias e que ajudem as
pessoas a se sentirem uma família.
O
culto, como acontecimento central da vida comunitária, também é um
evento familiar. Valoriza-se a celebração de cultos que envolvam as
famílias e que façam com que as pessoas que deles participam se sintam
como povo de Deus, o qual se abre para ir ao encontro de outras pessoas.
Na
intenção de ser comunidade acolhedora, ela abre espaço para o
envolvimento e engajamento de pessoas e grupos sociais normalmente
marginalizados pela sociedade. O próprio Senhor e Criador de toda a
comunidade cristã, com seu exemplo, desafia a Igreja a supera
preconceitos.
Os
programas e as propostas desta Pastoral de Família não podem se
restringir ao aconselhamento e aos desafios da família nuclear. Ela
necessita de coragem para integrar na comunidade de fé também aquelas
pessoas e aqueles grupos familiares com características especiais. Para
tanto necessita de ações conjugadas com outros setores da vida
comunitária, tais como programas de educação, geração de empregos e
renda, busca de qualificação profissional, luta por trabalho, saúde e
habitação. No âmbito da comunidade
há muita riqueza a
compartilhar.
A
comunidade pode ser um lugar onde se resgata a dignidade, onde há boa
comunicação entre as pessoas, onde se encontram apoio, amparo e
consolo. Através de portas abertas e visitação, a congregação presta um
bom serviço no ambiente em que está inserida. Este espaço diaconal da
Pastoral de Família é muito relevante.
A
fé cristã atinge a vida singular,
conjugal e familiar.
As pessoas merecem ser respeitadas em suas opções ou nos acontecimentos
que as colocam em determinada situação. Por isso o serviço comunitário
deve procurar aceitar, envolver e amparar todas as pessoas, sem medo,
constrangimento ou preconceitos. O sofrimento causado pela rejeição,
por parte da família e da sociedade, é um motivo de preocupação para a
comunidade cristã.
Os
Ritos de Passagem
merecem uma valorização específica, pois são momentos de convívio
familiar aliados à vida e ao serviço da comunidade. Mencionam-se o
Batismo, a Confirmação, a Bênção Matrimonial, as Bodas de Jubileu, o
Sepultamento. É muito importante que pessoas e famílias passem pelas
diversas fases da vida de uma maneira saudável. Por isso, em tais
momentos e ventos, a Igreja tem a mensagem evangélica para proclamar, a
comunhão cristã a oferecer e o serviço do amor a prestar.
Quando pessoas ou famílias vivenciam eventos críticos e inesperados,
é tarefa da comunidade prestar apoio e amparo. Citam-se, como exemplos,
a gravidez na adolescência, a separação conjugal, doenças (quaisquer
que sejam), alcoolismo, acidentes, crises financeiras, a adoção de
filhos/as por parte de casais e singulares.
Uma
ajuda substancial para as comunidades é a
criação de Equipes
Interdisciplinares.
Podem ser advogados/as, médicos/as, psicólogos/as, analistas,
terapeutas, pastores/as, catequistas, obreiros/as diaconais e
diaconisas. Unindo forças e capacidades, estas equipes podem ajudar
decididamente em situações que dificultam ou ameaçam a vida e o
convívio de pessoas e famílias.
Nesta área também se pode colher bons
frutos da Terapia Familiar.
O aconselhamento pastoral tem, muitas vezes, suas limitações. É um
sinal de sabedoria quando, então, se procura encaminhar um casal ou uma
família para a terapia, onde pessoas especializadas poderão buscar
soluções e restabelecer a harmonia no lar.
Destaque especial deve ser dado à
contribuição que o encontro de
casais, como o Programa Reencontro
e outros, dão ao bom convívio matrimonial e familiar. Estas atividades
visam renovar a fé cristã, fortalecer os laços conjugais, solidificar a
vida em família e despertar para a atuação da comunidade.
Enfatiza-se a criação do Departamento da
Pastoral de Família
na comunidade. Este departamento poderá abranger as questões e
atividades que giram em torno da família. O seu objetivo principal será
a concretização das orientações deste Documento da Pastoral de Família.
Também buscará soluções locais para as questões que surgirem em seu
ambiente.
O
Departamento da Pastoral de Família poderá coordenar, entre outras, as
seguintes áreas: a) Educação para o
Matrimônio; b) Comunicação Conjugal
e Familiar; c) Cursos sobre Valores Éticos e Cristãos; d) Celebrações
dos Ritos de Passagem; e) Compartilhar dos Eventos Críticos; f)
Relacionamento Interfamiliar.
As
Equipes Interdisciplinares e os Departamentos da Pastoral de Família
poderão ser formados nos diversos níveis que
compõem a IECLB. Nada impede que paróquias ou
comunidades se unam nesta tarefa.
No
âmbito de toda a IECLB, as Secretaria de
Missão e de Pessoal
estarão à disposição para
receber e responder pedidos de informação,
sugerir vias de concretização deste documento e assessorar na promoção
de eventos relacionados com a família no plano nacional.
A
comunidade é chamada a promover a valorização do lar.
Faz parte da dignidade humana poder viver sob um teto acolhedor, entre
pessoas que amam e são amadas. A comunidade também é vocacionada para
colaborar didaticamente para que reine a paz nos lares dentro e fora de
seu ambiente.
5.
Conclusão
Na
compreensão luterana, a comunidade cristã tem tarefas que ultrapassam
as fronteiras das famílias que a compõem. Por isso estas famílias são
chamadas a vivenciar sua vocação cristã, colaborando com a comunidade
na realização de sua missão no mundo.
No
cumprimento desta missão de Deus, a comunidade congrega
pessoas e famílias para celebrar, testemunhar,
servir e conviver como irmãos e irmãs em Cristo, ordenados/as a partir
do Batismo, para exercer o sacerdócio geral de todos os crentes.
Nesta
perspectiva da comunidade, a família está sendo desafiada para ser
Igreja e viver as funções básicas da vida comunitária entre si, crescer
e amadurecer espiritualmente, ouvir a palavra bíblica, orar e cantar,
bem como apoiar-se, ajudar-se, aconselhar-se e buscar perdão. Por outro
lado, a família está sendo convidada para ouvir, aprender, ser ajudada,
buscar perdão, engajar-se solidariamente e celebrar em conjunto na
comunhão com outras pessoas.
Porto Alegre, 9 de janeiro de
1997
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