Salmo 62 e João 6.28-40

Alocução de Sepultamento

26/11/1994

1. Situando a alocução

Fazia alguns meses que acompanhávamos minha sogra junto ao leito de seu marido, gravemente enfermo. Ele contraíra um tipo de câncer há mais de dez anos. Naqueles meses o caso se agravara e agora ele estava muito mal. Seus últimos dias foram de muito sofrimento. Por ter tido um derrame muito tempo atrás, perdera a faculdade de falar. Este fato contribuía para aumentar, quem sabe, o seu sofrimento. Como expressar tudo o que ia na alma, no coração nesses momentos de angústia, de medo, de dor? Toda a família se solidarizou e lutou junto com ele até a hora do desfecho.

Alguns pastores o visitaram naqueles meses, dando-lhe apoio e uma palavra de consolo e esperança. Ninguém de nós poderá saber o que essas visitas significaram para ele. Mas sua esposa não esquece aqueles gestos de fraternidade numa hora tão difícil. Calou fundo em seu coração triste a palavra amiga e a oração da fé.

Na véspera do sepultamento, fui surpreendido com o pedido para dirigir a cerimónia fúnebre. Ela fora programada para se realizar na comunidade de origem de meu sogro. Seu corpo fora velado no interior da igreja, que ele ajudar a construir e onde, naquela manhã chuvosa, realizamos a oração de encomendação, durante a qual proferi a alocução que se segue. Devo acrescentar que foi difícil falar com voz clara e audível. Minha fala vinha embargada pela emoção e a tristeza. A igreja estava repleta, pois meu sogro era pessoa muito conhecida no lugar. Todos sabemos como um sepultamento mobiliza as pessoas nas comunidades do interior deste país, não importando o credo a que pertençam. O que dizer para aquelas pessoas? Que palavra anunciar para minha sogra, minha esposa, minhas cunhadas, netos, netas, os parentes, as pessoas amigas e conhecidas?

Naquela noite, dormi pouco, e, quando acordei, bem cedo, tomei o texto bíblico do Evangelho de João 6.28-40 e comecei a articular os pensamentos. Lembrei-me então de um texto que havia lido há anos atrás e que falava de um velório e uma aldeia. Tratava-se de uma novela de Gabriel Garcia Marques. Conhecera o texto por meio de um livro de Rubem Alves. E pensei que podia começar por aí: a fala da esperança se tece sobre o corpo de um morto que é mensagem para nós, os vivos.

O primeiro ponto era este: o corpo presente. Depois veio a palavra da fé: o corpo de Cristo que aquele corpo inerte nos lembra em toda a sua impotência. E porque é de Cristo, é corpo de vida, de ressurreição. Ali reunidos, somos esse corpo de Cristo, corpo-comunidade animado pelo Espírito Santo. O terceiro ponto apontava para o corpo ausente: é preciso aprender a viver da saudade do nosso amor, saudade que nasce na ausência do amado. Essa ausência é oportu-nidade de desenvolver o dom precioso, a esperança que vem da fé. A vida vence a morte, ainda que tudo nos diga que não. Aí está colocada a graça de Deus. Aí entra o evangelho: Deus não quer que ninguém se perca, mas ressuscite no último dia. Este o contexto em que esbocei o que se segue. Evidentemente, as palavras não foram essas, mas o conteúdo, sim.
Vamos à alocução.

2. Alocução

Prezados irmãos e prezadas irmãs:

Vamos ouvir no início desta meditação a leitura do Evangelho de João, capítulo 6, versículos 28-40, feita por um genro do Sr. Alípio.

2.1. Corpo presente

Para nós, cristãos, o corpo é um bem precioso. Nós não desprezamos o corpo. Por isso, quando alguém entre nós morre, providenciamos um sepultamento digno e humano. Aqui temos o corpo de um irmão nosso que trabalhou na terra por quase toda a vida. Agora vamos devolvê-lo à terra que ele amou. Mas é importante lembrar neste momento a sua história, a sua vida. E, ao fazermos isso, acabamos falando de nós mesmos, da nossa história. Falar de um corpo é trazer a memória dessa vida. Nossa vida é memória presente.

Lembro aqui uma história contada por um escritor que falava de uma aldeia de pescadores num país distante. Um dia pela manhã, aconteceu algo que mudou completamente a vida pacata e monótona daquela aldeia. Apareceu na praia um corpo de um náufrago, um desconhecido. Era necessário enterrá-lo, e as mulheres foram as primeiras que começaram a preparar o corpo para o seu último repouso. Mas, ao procederem assim, passaram a tecer sobre aquele corpo desconhecido uma história que nem suspeitavam. Falando da estória daquele corpo, na verdade, falaram sobre si mesmas. E seus maridos e filhos e filhas fizeram o mesmo. E, no fim, da (ala sobre o morto uma vida nova começou a nascer. As pessoas olharam o seu passado e imaginaram que tudo podia ser diferente. E se deram conta de que, se assim podia ter sido, o futuro podia igualmente ser diferente, e a aldeia nunca mais foi a mesma.

O corpo presente deste irmão é um sinal de nossa finitude. Ele nos diz que um dia estaremos no seu lugar. Por isso choramos. Por ele, que por um pouco ainda está conosco, mas já não vive. E por nós, que o perdemos e logo não mais o veremos. E ainda porque um dia também morreremos. Mas é bom chorar! Porque ao chorar nos damos conta de que o corpo é sagrado. O corpo é para a vida e não para a morte.

2.2. Corpo de Cristo

Este corpo aqui presente nos lembra de um outro corpo: o corpo de Cristo. Ele também sofreu e morreu. É pão do céu que dá vida ao mundo. O corpo nos lembra que a Santa Ceia nos coloca repetidamente diante da morte e da vida. A morte é uma luta, o último inimigo, que precisa ser vencido para que a vida prevaleça. E a vida é dom de Deus. Em Jesus Cristo, a vida venceu. Ele ressuscitou pela força de Deus. Esta é a promessa que recebemos: que se com ele morremos, também com ele viveremos.

De certo modo, hoje representamos aqui este corpo de Cristo, morto e ressuscitado. Pelo Espírito de Cristo, somos o seu corpo que acolhe em seu meio o corpo deste nosso irmão. Nesta hora difícil, como corpo de Cristo, como Igreja de Deus, afirmamos a vitória da vida sobre a morte, ainda que tudo pareça o contrário. E a vitória não é outra senão a nossa fé. Nós cremos e nisto está toda a nossa esperança.

Esta é a ousadia cristã. Crer que a palavra é capaz de suscitar a fé, de chamar da morte para a vida. E a palavra é palavra de Deus. Palavra de Vida. Palavra que transforma e constrói um novo mundo, uma nova realidade, hoje e aqui.

Como cristãos ousamos colocar nossa confiança na palavra última de Deus. Não nas nossas palavras, que passam como a erva dos campos. Mas naquela Palavra que se encarnou e que venceu a morte, em favor de nós e de todas as pessoas deste mundo.

2.3. Corpo ausente

Mas logo mais este corpo-mensagem, o corpo deste nosso irmão será enterrado e, então, definitivamente separado de nosso meio. Ficará apenas a dor de sua ausência. Será um corpo ausente. Como suportar essa ausência? Para isso recebe mós a fé. É pela fé que aprendemos a viver na ausência daqueles que amamos. A saudade do corpo amado pode ser tanta que, por vezes, pensamos que vamos morrer também. A saudade pode fazer morrer. E por isso que nos reunimos aqui. Para falar sobre este que amamos e buscar na palavra de Deus a força que nos vai ajudar a continuar a viver e a confiar e a amar. Pois, se vivemos a saudade da ausência, nós a vivemos pela fé e na fé. A vida vence a morte. Nisto nos agarramos, não por nossa razão ou força, mas por causa da palavra de Deus. E se assim é, sabemos o que é viver da graça de Deus. Saudade, neste sentido, é lambem graça de Deus. Saber viver na saudade é um aprendizado. Para muitos esse aprendizado começa cedo, para outros bem mais tarde. Mas, para uns e outros, importante é saber viver a saudade da ausência do ser amado com fé naquele que oferece vida, e vida abundante.

A vontade de Deus, como diz João, é que' ninguém se perca, é que cada um lenha a vida eterna, a vida autêntica, a vida que vence a morte, e que ressuscite no último dia.

Com Jesus, aprendemos a caminhar no caminho de Deus. Por isso e baseados nessa Palavra, podemos seguir, ainda que a tristeza nos assalte e que a saudade nos corroa. Não queremos consolo barato, mas buscamos aquela força que nos permite viver com olhos abertos e coração confiante. Essa força é a fé que nos dá. O que crê em mim, jamais terá sede.

Bebendo dessa água, saberemos suportar tristeza, dor e ausência. Pois viveremos com os olhos postos naquele que é capaz de dizer: De fato, a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Amém.

3. Sugestões para a liturgia de oração fúnebre

— Hino.
— Salmo 62.
— Oração.
— Alocução.
— Hino.
— Intercessão e Pai-Nosso.
— Sinal do óleo.
— Voto de paz para acompanhar o corpo do/a falecido/a ao cemitério. Bênção.

Sinal do óleo. Como sinal da fé da comunidade na palavra e na força de Deus, coloquei óleo comum de amêndoa num recipiente sobre o altar e com ele fiz o sinal da cruz no rosto do falecido e depois na fronte de minha sogra e suas filhas, dizendo: A paz de Cristo seja contigo e te dê forças e muita fé! Após este gesto, quem quisesse podia fazer o mesmo.

Sugestão de Salmo: Em quem confiar?

Em meio aos meus dias de dor pus-me a meditar:

em quem porei a minha confiança?
Encontrei no Livro um canto
que dizia:
Somente em Deus, ó minha alma,
espera silenciosa;
dele vem a minha salvação.
Só dele, a minha esperança.
Arrisquei o que pude
e confiei no Deus da vida.
Um tempo e mais um tempo
e então compreendi:
De Deus depende a minha salvação
e a minha glória.
Querem derrubar o homem justo
e não cansam de lisonjeá-lo
com promessas, louvores e prestígio.
Mas o seu coração não aderiu.
Na sua solidão
confiou naquele que vem
e não se deixou abater.
Feliz é o homem que confia
na Rocha, no Deus Libertador.
Este não será confundido
na hora cristalina.

(In: Vigília; Salmos para Tempos de Incerteza.)

4. Bibliografia

ALVES, Rubem. Variações sobre a Vida e a Morte; a Teologia e a Sua Fala. São Paulo, Paulinas, 1982.
ZWETSCH, Roberto E. Vigília; Salmos para Tempos de Incerteza. São Leopoldo, Sinodal, 1994.


Autor(a): Roberto Ervino Zwetsch
Âmbito: IECLB
Título da publicação: Proclamar Libertação / Editora: Editora Sinodal / Ano: 1994 / Volume: 20
Natureza do Texto: Liturgia
Perfil do Texto: Alocução
ID: 17677
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