P. Antônio Carlos Ribeiro
Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte
já não existirá
(Apocalipse 21.4)
Estamos
a todo momento convivendo com a morte. Ela é sofrida por pessoas
comuns e por gente importante, que já galgou degraus na pirâmide
da fama. Cruel em todos os casos, ela é mais sentida quando
resulta da violência urbana do dia-a-dia, especialmente a das
grandes metrópoles, ou na forma de doenças fatais,
desenvolvidas a partir da fragilidade física de quem está exposto
ao estresse, acentuado em épocas de crise econômica
aguda, como a atual.
Na maior parte das circunstâncias isso acontece com outras
pessoas, desconhecidos a respeito de quem apenas lemos as notícias.
Outras vezes, a insensibilidade natural de quem vive no Grande Rio
- uma megalópole de mais de quase 10 milhões de habitantes
- é quebrada com a perda de pessoas queridas, da nossa família,
de amigos próximos e de famílias da nossa comunidade,
provocando além de dor, sofrimento e saudade, a surpresa de
que a morte atinja também a nós.
Abalados, tristes e sem respostas que aplaquem nossa dor, nos sentimos
num vale de lágrimas, uma situação de sofrimento
contínuo que por vezes nos leva ao desespero. Essa também
foi a situação vivida pelas comunidades da Ásia
Menor, às quais João dirigiu o seu "Apocalipse",
procurando aliviar seu sofrimento com uma palavra de consolo e esperança
em meio à dor.
Essa palavra consola porque chorar a perda de um pai, um irmão
ou uma filha é profundamente sofrido. Já ouvi mães
dizendo que não tinham mais lágrimas para chorar. Diante
da dor não valem as explicações lógicas,
apenas o calor humano que ajuda a enfrentar a perda do ser amado. Só assim
nos sentimos irmãos uns dos outros e filhos do mesmo Pai. "O
coração conhece razões que a própria razão
desconhece. E é o coração que conhece a Deus",
disse o matemático Blaise Pascal.
Embora a promessa de João diga respeito a uma esperança
a ser construída, como um tecido, fio a fio, o esforço
para testemunhar em meio ao drama urbano é ao mesmo tempo um
desafio, especialmente para uma Igreja tímida, cujo espaço
que ocupa na mídia por vezes se resume a uma linha de catálogo
telefônico gratuito. Isso exige tanta energia para apenas subsistir,
que por vezes nos tira a visão do conjunto. Vivemos o dilema
de a um só tempo ser comunidades com pessoas que sofrem e que
precisam se abrir cada vez mais às pessoas que buscam comunidades
que lhes enxuguem as lágrimas.
Essa promessa, dirigida a comunidades débeis cuja esperança
se baseava num fundamento frágil, Jesus Cristo, lhes deu condições
de enfrentar a perseguição atroz, sobretudo a do imperador
Domiciano, e inspirou os primeiros teólogos cristãos,
chamados Pais da Igreja, a buscarem um fio que amarrasse a esperança
a partir de coração quebrantados pela dor. Foi Tertuliano,
um dos que primeiro pensou a fé do povo do caminho, que disse: "o
sangue dos cristãos é como semente. Quanto mais é derramado,
mais cristãos aparecem".
O sofrimento do nosso povo é um bom motivo para insistirmos
em ser Igreja na Cidade. Pela fé no Senhor que nos chamou a
viver a vocação de nosso chamado como cristãos,
não desistamos de nutrir essa "comunhão dos santos",
que o terceiro artigo do Credo Apostólico diz que surge pela
força do Espírito Santo e que se chama Igreja. Faremos
isso ao assumir e enfrentar as dificuldades que temos de acolher as
pessoas, especialmente os diferentes, que nos assustam, com quem não
queremos estreitar laços.
A promessa de enxugar lágrimas, atribuída a Deus, não
diz respeito apenas às nossas lágrimas, mas a de toda
uma gente. Nossa tarefa, que o evangelho nos impõe, é ser
comunidade que acolhe o que é diferente de nós, de outra
etnia, cultura e situação sócio-econômica.
Quando a população das cidades do Grande Rio descobrirem
que as comunidades evangélico-luteranas abrem suas portas aos
que têm lágrimas a chorar, nosso sofrimento será menor
e a palavra do evangelho como serviço ao seu povo será maior.
Que assim seja!