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fé, investimento
de risco
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Ramona Elisabeth Weisheimer*

"Mãe é aquela que gosta e cuida da gente e que
conta histórias". Assim Wendy, amiga de Peter Pan, explicou
para os meninos órfãos da "Terra do Nunca",
o que é uma mãe. Mãe conta histórias porque
gosta daqueles que ouvem. Histórias, parábolas, em geral,
são maneiras mais fáceis de ensinar algo que, de outra
forma, seria difícil de entender. Amor, fé, confiança,
solidariedade são conceitos importantes, mas abstratos, que
podem ser apresentados, ensinados dessa forma. Jesus também
se valeu muitas vezes de parábolas, pequenas histórias,
para fazer os seus, a quem ele amava, pensarem e compreenderem elementos
importantes para sua vida de fé. E é num contexto de
anúncio da partida, e promessa de retorno, que Jesus conta
a parábola dos Dez Talentos (Mt 25.14-30).
Vejamos, um homem foi viajar e, antes de ir, repartiu seus bens entre
três servos. O evangelista Mateus não diz nada sobre
as instruções dadas aos servos, enquanto Lucas (19.11-27)
especifica que eles deverão negociar com o dinheiro. Fica aqui,
então, subentendida a tarefa. Que fazer com o dinheiro recebido,
confiado? Aquele que recebeu cinco talentos imediatamente os colocou
em movimento, conquistando mais cinco. Assim também o que recebera
dois talentos pôs mãos à obra granjeando outros
dois. E o que recebeu só um? Escondeu o que lhe foi confiado.
Não perdeu, não se arriscou, mas também não
ganhou nada. Temia a reação do seu senhor, por isso
se encolheu. E o que resultou disso? "Choro e ranger de dentes".
Esta parábola, como já dissemos, está num contexto
de despedida. O Senhor anuncia seu retorno à Parusia, instituição
definitiva do Reino de Deus. Ao anúncio da partida, precedem
dias de relativo sucesso e mostras do poder de Jesus em Jerusalém
- a entrada triunfal e a purificação do templo. Mesmo
assim, Jesus deixa claro em seus sermões proféticos
que o Reino ainda não se estabeleceu e que muito sofrimento,
provação e morte ainda virão. Jesus se ausentará,
mas voltará em glória para o ajuste de contas. O que
Jesus quer deixar claro para os seus discípulos, através
dessa parábola, são as atitudes a serem tomadas durante
a sua ausência, quais sejam: vigilância, preparação,
dedicação, prática do amor ao próximo.
Voltando ao nosso texto, Jesus se utiliza aqui de um modelo econômico
vigente na época. Com a expansão do Império Romano,
e a relativa paz vigente, desenvolveu-se um comércio florescente
que dava bons lucros a um investidor hábil. E já existiam
na época os "oikonomoi", servos que administravam
os bens dos senhores. "Talento" era uma moeda corrente que
equivalia a 20 Kg de ouro. Portanto, o senhor aqui não era
pobre, e confiou a cada servo uma bela quantia, que eles deveriam
administrar conforme suas habilidades e ousadia.
Investimento de risco !
Assim foi com Jesus. Ausentou-se mas, antes de partir, deixou com
seus servos - discípulos - aquilo que possuía. Não
era necessário dizer o que fazer, pois depois de tanto tempo
já estava mais que subentendida a tarefa. O "talento",
moeda, não precisa ser entendido como dom concedido a cada
um - como música, pregação, etc. - mas como a
fé a nós confiada. Investimento de risco, não?
Bem, como vimos, arriscar não parece ser para todos, principalmente
em matéria de fé. Mas impressiona ver quantos de nós
cristãos procuramos na religião uma coisa segura, firme,
imutável - como caderneta de poupança – em que
não se perde, mas também praticamente não se
ganha. Não ousam, não se arriscam, pois é mais
seguro guardar só para si, enterrar onde ninguém vê
nem toca. Só que dinheiro não é semente, que
brota e cresce, e fé que se esconde é semente sem chance
de florescer.
Eu sei que, à primeira vista, parecem duras as palavras do
senhor ao terceiro servo ("Mau e negligente servo, sabes que
ceifo onde não semeei e junto onde não espalhei; (...)
tirai-lhe pois o talento, e dai-o ao que tem os dez talentos (...)
Lançai pois o servo inútil nas trevas; ali haverá
pranto e ranger de dentes" vv. 26, 28, 30). Afinal, recebeu tão
pouco, como multiplicar? - Pouco? Um talento era equivalente a mil
ciclos, ou mil dias de trabalho! Uma fortuna! Ainda assim temos pena
dele, pois perdeu tudo e ainda foi mandado embora. Coitado, só
porque teve medo de perder o que lhe foi confiado...
Mas fé, meus amigos, também tem que ser investimento
de risco. Não pode ficar guardada. É preciso pôr
em movimento.
Qual teria sido a reação do senhor se o terceiro servo
tivesse investido e perdido? Tenho para mim que ele lhe diria as mesmas
palavras que aos outros: "bom e fiel servo. Sobre o pouco foste
fiel, sobre muito te colocarei; entra no gozo do teu senhor"
(vv. 21 e 23). Por quê? Porque ele teria ao menos tentado. O
profeta Elias não sofreu tantos revezes em sua missão,
a ponto de desejar a morte? E Amós, o boieiro de Tecoa, não
foi expulso do santuário do rei por falar o que Deus lhe mandava
dizer? E Paulo, não foi preso e até torturado por ousar
levar adiante, aos outros, a sua fé? As comunidades por ele
fundadas todas prosperaram e não tiveram qualquer problema?
E, contudo Deus jamais abandonou ou expulsou de sua presença
aqueles que ao menos tentaram pôr em movimento sua fé.
Não sei quantos talentos cada um de nós recebeu. Não
importa a quantidade agora, importa sim: vigiar, preparar, dedicar,
praticar o amor ao próximo.
Concluo com um poema do bispo luterano indiano Johnson Gnanabaranam,
Deus se orgulha de ti:
Tu repartes teu alimento com um pobre.
Ele te amaldiçoa por não lhe teres dado mais.
Deus te ensina paciência.
Tu repartes teu alimento com um pobre.
Ele é ingrato.
Deus te recompensa.
Tu repartes teu alimento com um pobre.
Ele é indiferente.
Tu te lembras da bondade de Deus,
que também ama os indiferentes.
Tu repartes teu alimento com um pobre.
Ele te agradece.
Tu agradeces a Deus,
por ter te dado a possibilidade de ajudar a outros.
Tu repartes teu alimento com um pobre.
Ele agradece a Deus por tua causa.
Deus se orgulha de ti.
Amém.
* Ramona Elisabeth Weisheimer
é pastora na Paróquia Norte do Rio de Janeiro.
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