P. Guilherme Lieven *
A nossa fé no Cristo de Deus, Jesus, remete-nos
para um horizonte que inclui a vida após a morte, um encontro
com a vida plena. Apesar da crueldade da morte, do vazio e da ruptura
que ela provoca, cremos na ressurreição, na nova vida,
no "novo céu e nova terra" que virão (Isaías
65 e Apocalipse 21). No batismo fomos unidos a Cristo na sua morte e
ressurreição (Romanos 6.5). Diante da ruptura cruel causada
pela morte, afirmamos a vitória da vida.
"Senhor, ensina-nos a
contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio."
(Sl.90.12)
No mês de novembro, além de todos os rituais
e costumes em torno do dia dos finados, em nossas comunidades cristãs
celebram-se os "últimos tempos" de mais um ano da igreja
(eclesiástico). Em novembro temos o último domingo do
ano da igreja, chamado de Cristo Rei, domingo da eternidade (após
este domingo inicia a época do Advento). O calendário
litúrgico do ano da igreja estimula a comunidade cristã
a refletir, em novembro, sobre o senhorio de Jesus sobre a morte, a
vitória da vida sobre a morte. Tempo de falar sobre o julgamento
de Deus das práticas humanas, sobre o juízo final. No
entanto, a comunidade cristã celebra e reflete estes temas, deixando-se
confrontar com a novidade do evangelho. A novidade do evangelho e da
comunidade cristã é deparar-se com a crueldade da morte
revestida do anúncio da misericórdia, da graça,
do perdão, do amor de Deus. Olhar para morte ao lado do espelho
da vida criado por Jesus, pela ressurreição.
Na liturgia das comunidades cristãs, a vitória
do Cristo Rei sobre a morte, configurada no evento da páscoa
cristã, toma lugar como o ponto culminante de toda a vida comunitária
de fé. Cada domingo a comunidade comemora a ressurreição
de Jesus. O ciclo da páscoa cristã está presente
em toda a dinâmica das etapas do tempo celebrado pela igreja.
Desta forma, também no domingo da eternidade, quando o tema é
morte/juízo final, o evento da páscoa tem o seu impacto.
Mesmo quando a morte e os temas a ela relacionados estão em primeiro
plano, a ressurreição de Jesus, sob o prisma da fé,
celebra e anuncia uma linguagem nova, a comunicação do
encontro misericordioso de Deus com as pessoas e comunidades, a dádiva
da vida em meio à morte.
A morte será sempre uma cruel ruptura no tempo
e na história das pessoas. Porém, pela fé, somos
chamados e chamadas para, em comunidade, viver a sua superação,
a vitória da vida. Cremos que somos livres da morte. Celebramos
esta liberdade a cada domingo e especialmente em novembro, quando, a
cada ano, se encerra o ciclo do ano litúrgico da igreja com a
celebração e reflexão dos temas morte e juízo
final.
* Guilherme Lieven é
Pastor da
Paróquia ABCD, SP