Pª. Elisabet Lieven *
Sou
mineira já por um bom tempo, talvez desde a infância, por
ter crescido numa casa que era a única a ter fogão de
lenha dentro da cozinha, telhado sem forro e por isso bem preto por
causa da fuligem do fogão, e também por não tomar
chimarrão, coisas incomuns em toda a região cheia de gaúchos
e "catarinas" no oeste do Paraná. Era a única
casa mineira, até a gente lá em casa não tinha
nome, éramos os filhos do mineiro, as filhas do mineiro, a mulher
do mineiro.
Assim, quando o Pastor Valério Guilherme Schaper
me pediu pra escrever algo sobre escatologia e essas coisas, perguntei,
"precisa ser aquelas coisas teóricas, pesadas?" "Não,
pode ser do seu jeito". Peguei o "Braaten", um livro
grosso de teologia sistemática, que só de olhar dá
medo. Talvez por ser meio discípula do P.Baeske, dei uma olhada
pra me inspirar, e me inspirou tanto que veio tudo ao contrário
na minha cabeça. Fui pra varanda e lá encontrei minha
espiritualidade pulsando. Quero testemunhar minha esperança na
vida falando das "cousas" que vivencio neste cantinho di Minas,
estimulando cada um de vocês a vivenciá-la também
aí no seu cantinho.
Desde que cheguei aqui nesta casa, comecei a criar um
jardim, digo criar, porque a terra era amarela sem vida, raspada, cheia
de tiririca que é uma plantinha danada que nasce em qualquer
lugar, menos debaixo de sombra. Tive que carregar muita terra lá
do Brandi e comprar esterco dos "minino" e, o mais importante,
aprender a cuidar daquele pedacinho, pois não entendia muito
de planta. Planto de tudo, meio inspirada na horta altar do Rubem Alves,
minha segunda-feira é dia de festa pras plantinhas, coloco o
cd de Pena Branca e Xavantinho, lembro do meu pai que me ensinou a gostar
de música que vem do chão, lembro da minha outra casa
lá na Bahia.
Tem uma flor(!) que sempre está sendo semeada
no meu jardim, em qualquer estação, em cada canto, perto
da cerca, no "munturo", nos canteiros, entre as couves. Girassóis...
Quando papai faleceu, colhi todos que havia pra enfeitá-lo, alguns
murcharam pois a viagem foi longa, mas dois ficaram firmes. Era um pedaço
do meu sentimento de girassol. Penso que Jesus teria contado uma parábola
de girassol se fosse planta lá da região onde ele caminhava,
e os pássaros da parábola do grão de mostarda iriam
adorar as sementes de girassóis como os daqui gostam.
"...Fica decretado que, a partir desse instante,
haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis
terão direito a abrir-se dentro da sombra e que as janelas devem
permanecer o dia inteiro abertas para o verde onde cresce a esperança."(Thiago
de Mello)
Plantar girassol é viver em esperança.
Esperançar! Semear sempre, deixar brotar, crescer, dar botão,
virar flor, flor que parece ora flor, ora sol, ora comida para os pássaros,
ora colher as sementes pra plantá-las outra vez... Outro dia
vi um girassol "dos contra", gosto deles porque apontam para
o outro lado, não é girassol "vai-com-os-outros",
não olha pra lá porque todos olham pra lá. Poderia
também falar do pé de abóbora que está doido
pra entrar pela varanda, ou das sempre-vivas que, mesmo sendo colocadas
num vaso, permanecem vivas, mas não são de plástico.
Poderia falar da roseira, e das formigas que volta e meia retalham suas
folhas, mas sempre ela brota com mais força e não cansa
de florescer. Mas o Girassol, de todas as plantas "no meu jardim",
comunga com mais força a minha fé.
Girassol gosta de chuva, chuva vem depois do sol, sol
depois da chuva. Não tem o cio da terra? Então, tem também
o cio da chuva. Aqui aprendi a respeitar e a amar a chuva. Fica tudo
seco durante o outono e o inverno, tem sua beleza também, a terra
descansa, a terra vira poeira e torrão, têm flores que
resistem à seca, os ipês ejaculam em agosto, a sequidão
realça estas belezas, e a terra aos poucos começa a gemer.
Através das aves, dos insetos, sinais vão aparecendo e
esperançando a chuva; sabemos que ela vem, cedo ou tarde ela
vai chegar. O joão-de-barro constrói sua casa com a portinha
do lado contrário de onde virão os ventos, as andorinhas
voam baixo, o saleiro começa a transpirar, as tanajuras saem
de seus ninhos para a alegria da criançada que faz competição,
as pedreiras ficam úmidas, o ventinho faz rastros pelas estradas
enrolando as folhas, o círculo ao redor do sol, as nuvens viram
castelos, a seriema canta, a cigarra grita ... Lá vem ela, já
se sente aquele cheirinho de terra molhada. Depois da primeira chuvada
tudo brota de repente, o ar limpa, vem a tranqüilidade dentro da
gente. Ver a chuva caindo faz a gente chorar junto com ela de alegria,
de tristeza e de saudade. As plantas agradecem, a vida agradece. A Terra
ressuscita! Chuvas de bênçãos pra ricos e pobres,
pra pecadores e justos, vida em abundância faz e refaz. "Eis
que vos farei chover do céu pão"(Ex 16.4), "...das
nuvens chovam justiça: abra-se a terra e produza a salvação,
e juntamente com ela brote a justiça: eu, o Senhor, as criei."(Is
45.8) Não é só sinal do Reino de Deus, é
o Reino brotando e florescendo perante nossos olhos. Os poetas do sertão
sentem este milagre como ninguém:
"No meu Cariri, quando a chuva não vem não
fica mais ninguém, somente Deus ajuda se não vier do céu
chuva que nos acuda macambira morre chique-chique seca juriti se muda.
Se meu Deus der um jeito de chover todo ano se acaba o desengano o meu
viver lá é certo no meu Cariri pode se ver de perto quanta
boniteza, pois a natureza é um paraíso aberto." (Rosil
Cavalcanti, Dilú Melo)
"Põe as galinhas pra dentro, recolhe os lençóis,
fecha os vidros, desliga as tomadas e deixa as faíscas passarem,
tocando tambores cuidado, sinto cheiro de chuva no ar. Ela vai chegar,
ela vai chegar...Pudera, lembra que a chuva quem manda é Deus...um
rastro de cheiro de terra molhada, repara, alma lavada é mesmo
assim." (Renato Teixeira)
"Quando é tempo de chover se alegram flores,
bichos, gados, eu ainda hei de ver um mundo sem guerra de homens honrados
então seguirei por aqui de pés do chão despreocupado."
(Juraildes da Cruz)
"Josefina sai cá fora e vem vê, olha
os fôrro ramiado vai chovê, vai triminá riduzi toda
a criação das banda de lá do ri Gavião,Chiquêra
prá cá já ronca o truvão, futuca a tuia,
pega o catadô vamo plantá feijão no pó."
(Elomar F. Mello)
* Pastora Elisabet Lieven é
obreira
na Paróquia Evangélica Luterana de Funil (Minas Gerais),
desde setembro de 1999.
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Nascida
em: |
Palotina
(PR), dia 19.12.70 |
| Formação
acadêmica: |
Teologia
na EST
(Escola Superior de Teologia)
(1991 a 1997) |
| Estágio: |
Missão
Guarita,
em Tenente Portela/RS
com os povos Kaigang e Guarani. |
| Intercâmbio: |
Seminário
Ecumênico de Ricatla
(Moçambique-Africa) |
| Período
Prático de Habilitação ao Pastorado: |
Paróquia
São Lucas
(Porto Alegre/RS) |