Pª Bärbel Vogel *
"O povo que andava
em trevas
viu grande luz."
Isaías 9, 2
Existe um amplo consenso sobre o fato de que necessitamos de paz. Este
consenso, porém, logo começa a se dissipar quando nos
perguntamos se justamente o período de Advento e Natal pode nos
proporcionar esta paz. Muito pelo contrário, é sabidamente
este período que, muitas vezes, nos deixa mais agitados. Aumenta
a violência dentro e fora da casa; também costuma aumentar
o consumo de álcool.
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"Escrevíamos
cartas para o Papai Noel;
confeccionávamos presentes
para toda a família..." |
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Quem está só nestes dias sofre mais ainda com a sua
solidão; quem arca com muito trabalho e tumulto por conviver
com muitas pessoas e compromissos, por sua vez, sente justamente nestes
dias mais acentuadamente o cansaço que tudo isso provoca. "O
Natal não passa de um aborrecimento!" Assim um pastor pregou
na noite do dia 24 quando nós ainda éramos crianças.
Lembro bem das discussões que esta afirmação depois
provocou! Pois os adultos, em sua maioria, concordavam com o pastor.
Nós, crianças, porém, em nada concordamos; pelo
contrário, ficamos ofendidas! O Natal, para nós, era maravilhoso,
cheio de encantos! Escrevíamos cartas para o Papai Noel; confeccionávamos
presentes para toda a família; a casa cheirava a biscoitos e
a árvore enfeitada era a coisa mais linda de se ver! O Natal
era um tempo de sonhos! Sobretudo isso - um tempo para sonhar. Todo
mundo, por alguns dias dentro de casa, sem trabalhar fora - isso, para
nós crianças, era a paz.
A luz veio ao mundo. Deus se tornou ser humano. Ou, como escreveu
Guimarães Rosa: "Um menino nasceu - o mundo tonou a começar!"
Será que nós, os adultos, fugimos desta paz que o menino
veio trazer? Será que nos jogamos nesta agitação
acentuada por termos medo de tanta pureza e simplicidade, como se encontra
no presente do menino de Belém? Será que temos medo da
luz, da alegria e do céu aberto que caracterizam esta festa tão
linda? Pois sabemos que, no fundo, nada temos a oferecer a este menino
que veio lá dos céus nos abraçar, nos trazer a
sua ternura e a sua acolhida justa e calorosa. Será que temos
medo do príncipe da paz que não quer nascer somente em
Belém, mas em meio às nossas vidas e solidões?
Vamos recebê-lo em nossos corações antes que os
comerciais, tristemente, nos levem até o Natal? Cristo quer nascer
em nosso coração; quer nascer nas trevas que escurecem
nossas vidas!!
Trevas que podemos chamar de muitas coisas: orgulho, ciúmes,
cinismo, má distribuição de renda, sentimentos
de culpa e ganância por toda parte. Sem falar da lei da selva
que muitas vezes governa nossas vidas!
A paz que Cristo nos dá é muito diferente de um tesouro
que, uma vez achado, guardamos e esquecemos. A paz que ele nos dá
nos acompanha sempre! Ela dissipa as trevas, muda a nossa vida - o mundo
tornou a começar. O menino na manjedoura nos abre os olhos sobre
o mundo que Deus quer para nós. Nos prepara para encontrarmos
os outros e não pisarmos os nossos semelhantes. Pois a paz não
se limita ao âmbito individual. É preciso ampliar os nossos
horizontes! É preciso assumir as nossas vidas!
É preciso, sim, aceitar esta luz. Não fugirmos do menino
Jesus. Mesmo sabendo que pouco temos a oferecer em troca!
Com ou sem enfeites de Natal, fazendo muito ou fazendo pouco nestes
dias que antecedem a festa de Natal, é necessário que
nos voltemos para nós mesmos: reflexão, introspeção,
jejum e oração! Preparar-nos para os pequenos encontros
e os gestos silenciosos. Pois há de vir o Príncipe da
Paz!
Que todos tenham um feliz e abençoado tempo de Advento e Natal!
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Bärbel Vogel é pastora
da Comunidade Evangélica
de Confissão Luterana em Petrópolis
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