P. Martin Bruno François *
Foi
no Natal do ano passado. O sinal fechou e Flávio
parou o carro. Logo viu que se aproximava um menino.
Daqueles que costumamos ver nas esquinas e sinais e
com os quais, todavia, não nos acostumamos. Sua
primeira reação foi fechar o vidro do
carro. Sentimentos como medo e insegurança o
incomodaram. Justo no Natal, quando batem os sinos pequeninos
de Natal proclamando a paz na terra, este menino se
aproxima.
A surpresa, no entanto, veio quando este menino, franzino,
bateu no vidro com os dedos e desejou um Feliz Natal.
E foi embora! Só isso... não pediu moeda
e nem quis vender nada, nem se ofereceu para lavar o
vidro. Flávio engoliu em seco, o sinal abriu
e o carro que estava atrás buzinou porque tinha
pressa. E Flávio seguiu... e o menino ficou.
Um foi e outro ficou, pela vida.
Dias depois conversávamos a respeito, e a inquietação
de Flávio e seu sentimento incômodo diante
do acontecido tornaram-se meus também.
Passado quase um ano, e outro Natal se aproxima. Momento
que convida a olhar para a vida, em torno da pequena
manjedoura que acolhe, em meio a palha simples, o sinal
maior do amor de Deus. O Deus menino vem até
nós e, singelo, bate no vidro que nos separa,
buscando desejar a bênção da vida.
E nós nos fechamos porque temos medo do que pode
significar este encontro. Olhar nos olhos e perceber
no outro a humanidade.
A pressa da vida, o sinal que abre e a urgência
daqueles que vêm atrás de nós nos
impedem de ouvir o desejo expresso em palavras simples.
São desculpas porque, afinal, não temos
tempo, temos medo.
Não sei se aquele menino continua naquele sinal,
não sei o que dele foi feito neste ano que passou.
Sei sim o que Deus fez por mim e os caminhos pelos quais
me conduziu.
Também sabemos, Flávio e eu, que se neste
Natal um menino de nós se aproximar não
vamos fechar o vidro e virar nosso olhar. Nem permitir
que a pressa do outro nos impeça de ouvir o desejo
de um Feliz Natal que o menino nos diz. Vamos olhar
nos olhos e agradecer, quem sabe retribuir o desejo
deixando ali tudo, menos o sentimento incômodo
de abandono e rejeição a quem não
foi compreendido. Quiçá possa Deus nos
permitir a graça do encontro singelo com o Deus
menino mais uma vez e, tendo ouvido sua voz, possamos
dar graças pela vida que Dele temos recebido.
* Martin Bruno François é pastor na Paróquia
Leste (São Paulo). 