P. Dr. Rolf Schünemann
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Adeus,
gravata e paletó! Tchau, crachá
de identificação! Chega de levantar
cedo e enfrentar congestionamento de trânsito!
Eis o que se passa com milhares de pessoas nestes
meses de janeiro e fevereiro. Neste período
as cidades sofrem uma mudança populacional.
De um lado, as pessoas fogem para o mar, montanhas,
sítios e chácaras. Procuram gozar
as férias distantes da agitação
rotineira ou entram em outra agitação,
num outro contexto. De outro lado, algumas cidades
também atraem muitos turistas. De qualquer
modo há um arrefecimento do ritmo e um
aquecimento ao mesmo tempo. O refluxo nós
o percebemos na retração que se
verifica nas atividades comunitárias.
Toda esta movimentação possui em
comum a busca do lazer e do descanso. Todos sabemos
e experimentamos que a vida de nossa sociedade
está estruturada de uma forma tal que nós
nos tornamos apenas pessoas produtoras e consumidoras.
Nós nos coisificamos. O ritmo alucinante
a que somos submetidos, ou nos submetemos, arrasa-nos
psicologicamente. As tensões levam à
agressividade e o trabalho demasiado ao esgotamento
físico e nervoso. O lazer torna-se, assim,
aquela válvula de escape mais do que necessária
para descarregar as tensões da agitação
do dia-a-dia. O lazer, além de se constituir
numa necessidade, torna-se, inclusive, num direito
de cada pessoa.
Temos inúmeras possibilidades de lazer
na sociedade contemporânea que, aliás,
está sendo descrita por alguns estudiosos
como uma sociedade do ócio. Como podemos
encarar as formas de lazer sob a ótica
cristã?
Em
primeiro lugar, é impossível elaborar
um regulamento que possa listar todas as formas
de lazer e servir como norma para a provação
e/ou reprovação. Isso, sem dúvida,
cria insegurança para muitas pessoas. Existe
uma tendência de colocar tudo preto-no-branco.
Ou se vê tudo com óculos escuros
ou com óculos cor-de-rosa. Ou se nega todo
tipo de lazer, de festa, de diversão, etc.
ou se aprova tudo sem um mínimo de espírito
crítico.
Nós cristãos evangélicos
de tradição luterana sugerimos um
outro óculos - a liberdade cristã:
"Todas as coisas
me são lícitas, mas nem todas convém.
Todas as coisas me são lícitas,
mas não me deixarei dominar por nenhuma
delas."
( I Co 6.12)
Toda forma de lazer que contribui para vivência
e expressão desta liberdade e não
é fonte de escravidão e dependência
de forma alguma pode ser reprovada. Isso quer
dizer que podemos celebrar a alegria, mesmo vivendo
uma situação em que o trabalho não
nos dá prazer. O lazer vivido sob a liberdade
cristã nos habilita para uma prática
humanizadora do trabalho. Uma prática que
liberta as pessoas do peso que ele, muitas vezes,
representa.
Agora, toda forma de lazer que é uma forma
de fugir, torna-se problemática. Quando
simplesmente se quer fazer um "escravo feliz",
se está fugindo do princípio da
liberdade cristã, pois o lazer aprisiona
a pessoa a sua situação e não
o ajuda a dar a volta por cima. Tudo que não
promove a pessoa, tudo o que instrumentaliza as
pessoas, torna-se alienante, ou seja, desvia a
pessoa de suas reais necessidades, impedindo a
sua verdadeira realização.
A comunidade cristã celebra a alegria
da presença graça de Deus e está
sempre consciente de que esta experiência
é parcial. É um aperitivo do Reino
de Deus. A alegria proporcionada pelo exercício
da liberdade cristã rega todos os espaços
de vida. Ela contagia trabalho e lazer. Que possamos
nos deixar regar da melhor maneira possível
nestas férias de verão pela alegria
que provém de Deus mediada pelos meios
de lazer e descanso! Que o deleite das férias
seja um tira-gosto de nossa suprema esperança:
o Reino de Deus!