P. Guilherme Lieven *
O
que é indiferença? Seria um desvio de comportamento,
um costume, uma forma de sobrevivência, um mecanismo
de defesa, de resistência, ou conseqüência
do egoísmo e do medo? O fato é que todos nós,
uns mais outros menos, somos indiferentes, "passamos
ao largo" de muitas coisas, realidades, fatos e pessoas,
em algumas situações, até de nós
mesmos.
A indiferença tem um poder devastador. Ela é
a companheira doentia do dominador e opressor, também
dos que preferem as desigualdades, a violência, o ódio
e a morte. Os indiferentes, de uma forma ou de outra, ferem,
rejeitam, excluem, matam. Está correta a conclusão:
o contrário do amor não é o ódio,
mas a indiferença.
Esta poderosa doença está presente em toda
história dos seres humanos, ela é milenar. Já
nos relatos bíblicos a indiferença é
apresentada como um comportamento que impede a vida, a salvação
do outro, a cura, gestos de solidariedade. Cito somente duas
cenas bíblicas. Primeiro a história de Jonas,
ele foge da sua missão. No navio dormiu, ficou indiferente
à tempestade que ameaçava a vida dos marinheiros.
Enquanto fugiu da sua missão ficou indiferente a tudo
e a Deus. Cito, ainda, a parábola do bom samaritano
(Lc 10). O sacerdote e o levita passaram ao largo da vítima
do assalto. Preferiram a indiferença e negaram-lhe
socorro e cuidado. O samaritano, uma pessoa simples, atendeu
aos gritos da vítima. Com facilidade verificamos que
a indiferença das pessoas causou sofrimento e morte
na história da humanidade.
Creio que podemos resistir, nos defender e sobreviver, resgatando
e desenvolvendo outros valores e mecanismos de relações
humanas que, por sua vez, passam ao largo da indiferença.
A vida comunitária de fé associada ao exercício
saudável da cidadania é um milagroso remédio
contra o mal da indiferença. Quero dizer que uma espiritualidade
participativa, fundamentada no evangelho, e o exercício
de uma cidadania ativa tornam-nos atentos e ligados a tudo
e uns aos outros, envolvem-nos com o sofrimento do outro e
com a alegria de todos. É por isso que cremos na renovação
da vida. O amor e a graça de Deus anunciam diariamente
para nós a possibilidade de renascimento e desperta-nos
para a ação pela vida, para o envolvimento comunitário
e social. Quando não nos isolamos em nossos "mundinhos",
quando evitamos pensar só em nós mesmos, quando
abrimos nossos olhos e ouvidos, os sinais, a graça
e o amor de Deus nos constrangem e denunciam a nossa indiferença,
movendo-nos para caminhos novos que transpiram vida, justiça,
esperança e paz.
Uma vida social ativa e a fé no Deus da justiça
e da paz, vivo, nos levam a uma saudável e constante
briga contra a indiferença, impedindo que ela crie
raízes em nós, em nossa comunidade, em nossa
sociedade.
Longe de nós a indiferença, esta doença
crônica que causa sofrimento e mata. Que a paz e a voz
de Deus abram sempre nossas algemas, descruzem nossos braços,
desanuviem nossos olhos, despertem nossa paralisia e movam-nos
para o companheirismo, para a alegria da partilha, do afeto,
da solidariedade e da construção de esperanças.