Jaqueline Schneider *
Nesta semana visitei uma exposição de fotografias
e chamou-me a atenção o trabalho de um fotógrafo
que retratava janelas. O tema de suas fotografias era simplesmente
as janelas. Janelas fechadas. Janelas maiores ou menores, com
paredes coloridas ou descoloridas pelo tempo. Janelas simples
ou com um acabamento especial. Parei na frente daquelas fotos
e passei a olhar para as janelas. Flagrei-me numa estranha e alegre
sensação. Afinal, olhar para uma janela é
exatamente o oposto do objetivo pelo qual uma janela foi criada.
Janelas foram feitas para olharmos através delas. Na verdade,
olhar para uma janela é descobrir uma dimensão totalmente
nova. Certa vez, visitando o meu irmão que mora no centro
de Porto Alegre, descobri que ele tinha um caderno no qual escrevia
alguns pensamentos, poesias e músicas. O título
deste seu caderno era “O céu, as nuvens e a minha
janela”. Perguntei a ele sobre o título do caderno
e ele respondeu: “É porque daqui da janela do meu
quarto posso ver o que acontece neste ‘mundo’ chamado
Porto Alegre. Daqui vejo pessoas apressadas, casais se encontrando
e se separando. Mendigos procurando comida no lixo e as “madames”
levando os seus cachorrinhos para passear. Daqui eu vejo a vida”.
Sem
sombra de dúvida, este olhar para o mundo e refletir sobre
ele é uma das possibilidades proporcionadas pela visão
que temos a partir de uma janela aberta. Uma janela pode nos oferecer
uma vista do mundo e das coisas que nos rodeiam. Mas e quando
invertemos esta situação? O que acontece quando
ao invés de olharmos através da janela, passamos
a olhar para a própria janela? Olhar para a própria
janela possibilita o confronto com e a consciência de percebermos
o ponto de partida de nosso olhar para o mundo. Olhar para a própria
janela é uma metáfora pra olharmos para nós
mesmos e questionarmos quais são os critérios que
usamos para fazer a leitura da realidade que nos rodeia. Olhar
para a própria janela é nos perguntarmos o que tem
sido determinante para que lancemos o nosso olhar nesta ou naquela
direção.
Como cristãos e cristãs poderíamos dizer
que a nossa janela é Jesus Cristo e o seu ministério.
Ele quer ser o ponto de partida, de orientação e
de leitura da realidade. Assim como Lutero descobriu que aquilo
que promove a Cristo deve ser a chave para a interpretação
de toda a Escritura, o ministério de Jesus Cristo quer
ser a janela que orienta o nosso olhar para o mundo. Muitas vezes
andamos atarefados e atarefadas demais e queremos transformar
a realidade que nos cerca, mas não temos tempo para nos
abastecer, para olharmos para nós mesmos e para refletirmos
se não estamos confundindo a vontade de Deus com a nossa
vontade. Olhar para a janela significa parar, refletir, meditar
na Palavra de Deus e deixar esta Palavra atuar em nosso ser e
orientar o nosso olhar para o mundo. Certamente este não
será um simples olhar. Será antes um olhar atuante
e sensível para perceber situações de injustiça
e para nos chamar para corajosamente intervirmos e transformarmos
estas situações.