Pª Vera Cristina Weissheimer
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É um desafio meditarmos sobre os textos
natalinos. Eles já foram tão usados que quem
fala deles acaba repetindo o que outros já falaram.
Ao mesmo tempo, de tanto serem usados, lidos e relidos, esses
textos tornam-se familiares e tão íntimos de
nosso pensamento que acabamos por não perceber as suas
qualidades e sutilezas.
Por isso, sempre voltamos a eles, mas buscando detalhes que
normalmente são esquecidos ou camuflados. Acabamos
temos uma certa dificuldade em ver aquele menino deitado entre
palhas.
Dos
pastores, aqueles que cuidam de ovelhas nos campos, vem a
primeira surpresa. Chama a atenção, no texto
bíblico que nos conta sobre o nascimento de Cristo,
que o anúncio do anjo que vem dar a notícia
do nascimento do Salvador seja dirigido primeiro aos pastores.
Mas por quê? Não poderia ser para alguma autoridade
de Belém?
Pastor de ovelhas até parece ser uma profissão
bonita: os campos, os cajados, os animais correndo pelas montanhas...
Mas naquela época os pastores eram enquadrados nas
profissões não aconselhadas para pessoas "de
bem".
Nenhum pai dizia ao filho: "vá ser pastor de
ovelhas". Os pastores eram conhecidos como gatunos; conduziam
os rebanhos em pastos alheios; eram considerados desonestos
nas vendas de ovelhas. Dizia-se que eram incapazes de confessar
seus pecados porque sua lista era muito grande e eles levariam
muito tempo para fazê-lo - e nem conseguiriam indenizar
a todos que tinham roubado. Eles não podiam ser testemunhas,
porque seu testemunho de nada valia. Com tudo isso, os pastores
sofriam profunda discriminação dentro da sociedade
da época.
A surpresa dos textos aparece quando o anjo escolhe os pastores
para receber a notícia em primeira mão - justamente
eles, que não tinham vez. Ou seja: o aviso do nascimento
do Salvador foi dado primeiro aos que não tinham vez.
Deus anuncia aos que estão à margem. Não
é bárbaro?
Outra surpresa: esse Salvador, o Cristo-Senhor, será
encontrado como recém-nascido numa estrebaria - num
estábulo -, e como criança. Ele não vem
como guerreiro, como super-herói. Vem frágil.
Vem como criança.
Engraçado: os textos bíblicos que chegaram
até nós falam dos pastores sem muitos problemas,
mesmo sendo essa uma profissão sem glamour. Mas as
palavras "estábulo" ou "estrebaria"
parecem difíceis de ser engolidas. A maioria das traduções
faz uma troca por "manjedoura", uma palavra mais
bonita, que até evoca poesia.
A humanidade tenta tapar o sol com a peneira. O sentido do
Natal foi "amansado". Construímos presépios
perfumados, com jogos de luzes, vaquinhas de carinhas angelicais,
numa festa em que o tamanho dos presentes importa, e muito.
É difícil ler que Jesus nasceu num estábulo
porque não havia outro lugar para ele.
Mais uma vez temos uma inversão. A concretização
de nossas esperanças vem de onde ninguém pode
esperar: de um recém-nascido num estábulo. Inversões
que nos levam a pensar. Esse singelo texto que aparece nos
evangelhos, é revisitado todo Natal e tanto nos emociona
nos teatros das crianças traz em cada palavra um forte
desafio. Um desafio que se encontra presente no Cristianismo
e deve nos questionar hoje.
Enquanto a religião oficial esperava a salvação
de Deus vinda de um guerreiro manifestando-se aos puros, o
Messias surge em meio ao cheiro de esterco dos animais, tendo
como uma das primeiras visitas um grupo de trabalhadores que
não mereciam muita confiança. Segundo outro
texto, os magos do Oriente também passaram por lá
e levaram até presentes! Não é interessante?
Deus inverte a lógica das coisas. Deus inverte a lógica
de nossa vida. Quando não acontece o que desejamos,
acontece o que necessitamos. E isso geralmente é melhor
do que aquilo que tínhamos capacidade de sonhar. Às
vezes sequer estamos preparados para receber aquilo que tanto
planejamos ou com que tanto sonhamos.
"Ele brinca com meus sonhos. Vira uns em cima dos outros",
diz Fernando Pessoa em "O guardador de rebanhos",
poema em que fala de como seria seu encontro com o pequeno
Jesus. Quando achamos que somos senhores de nossa vida, a
própria vida nos mostra o contrário. Nos mostra
caminhos diferentes e nos emociona com a simplicidade de cada
Natal.
Recebi certa vez um cartão que dizia o seguinte: Natal
é muito simples. É um menininho que nasceu em
meio aos bois, vacas, ovelhas, cavalos, jumentos. Era um menininho
pobre. Mas diz a história que quando ele nasceu aconteceu
uma mágica com o mundo: tudo ficou diferente.
Na noite do Natal, antes da comida e antes de abrir os presentes,
por favor, conte a história do menininho.