P. Armindo L. Müller *
Leia
Mt
2, 9 – 11
Adoro observar os meus netos, quando recebem um presente. Ansiosos
e agitados, nem tem tempo para agradecer. Logo começam a
rasgar o papel bonito e brilhante. O papel não lhes interessa,
por mais vistoso que seja. Eles querem ver o que está dentro,
o conteúdo.
Muito semelhante é a história do Natal, em especial
do nosso texto. O que é o importante ? Qual é a mensagem
central ? Acho que é: “eles encontraram o Salvador,
adoraram-no e lhe deram presentes”. Deram-lhe artigos valiosos
e caros e, o que é es-sencial, deram com alegria e satisfação,
deram de coração.
Mas logo fico pensando: como é o nosso Natal ?
Aquele primeiro Natal foi simples, alegre e fácil. Em verdade,
o Natal é e deve ser assim. Nós é que, muitas
vêzes, o com-plicamos. Transformamos o Natal numa grande festa,
presentes, música, enfeites, Papai Noel e tanta coisa mais.
E isto nos cansa, enerva e custa caro. Às vêzes me
pergunto: se, por qualquer motivo, não pudéssemos
ter tudo isto, ainda teríamos Natal ?
Será que não nos logramos e enganamos a nós
mesmos e uns aos outros ?
No Natal damos, de novo, vazão ao nosso sentimentalismo.
Damos uma lustradinha na nossqa religiosidade e enchemo-nos de festa,
comida e presentes.
Mas eu venho notando que o meu filho está se afastando,
cada vez mais, de mim. Noto que ele precisa de mim, do meu tempo
e atenção. Compro-lhe um presente valioso, procurando
atraí-lo a mim. Mas dentro de mim sinto que não é
isto o que ele quer e precisa. Sei muito bem que ele quer a mim
e precisa de mim.
Meu casamento não vai bem. Não temos mais diálogo
e cada qual se enterra, cada vez mais, em negócios, festinhas
e pro-gramas. Compro uma jóia que custa uma fortuna. Mas
sei muito bem de que a minha esposa sente falta de mim e do meu
amor.
Noto que com a minha maneira de ser e de viver cada vez crio mais
problemas e dificuldades para os meus pais e professo-res. Eles
não agüentam mais comigo. E até começo
a gostar de incomodá-los, pois então recebo atenção.
Mas, no fundo, tenho vontade de chorar e de gritar e dizer que os
amo. Compro um presente caro, mas esqueço de dar o que realmente
deveria dar: res-peito, amor e atenção.
Poderíamos continuar longe, enumerando exemplos. Não
está na hora de rasgar este papel bonito ? Não está
na hora de a-cabar com a máscara ? Não está
na hora de abrir o jogo ?
Na vida sempre queremos subir. Mas o Natal significa descer. E
é interessante de observar que a Bíblia sempre fala
que Deus desce. Natal é doação, é entrega.
Natal não é tanto dar presentes, mas muito mais ser
um presente. Deus se tornou presente para nós na pessoa de
Jesus Cristo. Ele se tornou o nosso irmão e amigo, aquele
que se põe na estrada para caminhar conosco, para repartir
conosco as alegrias e as tristezas da vida, as nossas lágrimas
e esperanças. Um Deus que vem trazer amor, salvação
e uma vida plena, autêntica e verdadeira.
Nós damos presentes e fazemos festa e acreditamos que, dessa
maneira, pagamos as dívidas de amor, tempo, atenção
e gra-tidão que temos uns com os outros. Mas esquecemos que
os outros realmente querem a nós mesmos. E isto é
muito mais importan-te e valioso do que todo o resto.
O Natal ainda não terminou. Ainda hoje à noite e
nos próximos dias há tempo para começar.
Vamos abrir o nosso coração e doar-nos por inteiro.
E veremos que a manjedoura de Belém pode estar lá
em casa mesmo. E então haverá alegria verdadeira e
estaremos comemorando plenamente o Natal. “De que adianta
Jesus ter nascido mil vêzes em Belém, se ele não
nascer na nossa vida” ?, disse um poeta antigo.
Quem sabe, neste ano, montamos o nosso presépio não
debaixo do pinheirinho, mas ao lado, e nos incluímos a nós
mesmos como personagens ativos. Vamos descomplicar o Natal. E simplificá-lo.
Vamos pôr amor nas nossas vidas. Vamos repartir o nosso amor,
o nosso tempo, a nossa atenção com as pessoas que
nos cercam. Pois nada disto nos pertence unicamente a nós.
Recebemos tudo isto de Deus, mas não para benefício
só nosso. Tudo deve ser repartido e veremos, de repente,
que o Natal verdadeiro nem se restringe apenas a uns poucos dias.
Natal pode e deve acontecer em cada dia.
Concluo com uma mensagem natalina que enviei aos meus amigos no
ano passado. Esta mensagem está baseada num fato cotidiano
das nossas grandes cidades: um homem dá a uma mendiga maltrapilha
em vez de uma esmola uma flor. E desta flor a mendiga vive enquanto
a flor não secou, ela vive da esperança. E Natal sig-nifica
esperança, porque o próprio Deus veio morar entre
nós.
Natal Esperança
Maria,
simplesmente Maria!
Maria mulher,
humildemente mulher!
Maria trapo,
vive num barraco!
Você,
simplesmente você!
Você doação,
de grande coração!
Você amor,
afasta toda a dor.
Maria – não tenho nome,
mas estou com fome.
Você – não tenho pão,
mas um grande coração.
Uma flor,
simplesmente uma flor.
Flor esperança.
Maria ri, pula, dança.
Uma flor, dada com amor,
alivia uma grande dor.
Flor de esperança.
Esperança em flor.
Maria flor,
Maria esperança.
Natal esperança.
Armindo L. Müller
Nova Friburgo-RJ
almolitor@ig.com.br