Pa. Vera Cristina Weissheimer *
Há
muitas coisas das quais nos esquecemos. Há outras tantas que
precisam ser recordadas sempre de novo para que a gente não esqueça
da sua importância. Há ainda aquelas que fazemos questão
de esquecer.
Nas sociedades antigas era comum encontrar pessoas que tinham a função
de guardar a memória do grupo. Eram "homens-memória",
contadores de história. Eles eram pessoas importantíssimas,
porque acreditava-se que o futuro de uma sociedade dependia da memória
que ela mantinha de seu passado. Quem controlava a lembrança
influenciava decisivamente o futuro.
Já em tempos remotos se sabia que o lembrar e o esquecer são
fundamentais para a vida. Aquilo que é constantemente lembrado
acaba se impondo como verdade, e aquilo que se esquece simplesmente
desaparece - é como se nunca tivesse existido.
Mas a lembrança não é só uma forma de trazer
para o presente algo que aconteceu no passado. A lembrança é
sempre uma volta ao passado a partir do que vivemos hoje, a partir do
que somos hoje. Lembrar é um exercício de vida. A memória
tem o poder de criar sentido para situações da vida que
não têm sentido. Nas situações em que a realidade
parece sugerir que tudo acabou, a memória tem o poder de produzir
sentidos, de indicar caminhos.
É preciso refrescar em nossa memória o significado da
Páscoa para que possamos saber por que vamos celebrar, e o que
vamos celebrar.
O povo judeu, por exemplo, tinha que manter viva a memória dos
filhos, e dos filhos dos filhos, sobre como Deus os libertara da escravidão
no Egito. Essa memória é reavivada até hoje no
ritual da Páscoa judaica, quando se come a carne de cordeiro
(pesach), o pão sem fermento (matzá) e as ervas amargas
(maror). No final, tomam-se quatro taças de vinho como lembrança
da liberdade e das esperanças renovadas.
Em Êxodo 13.14 está escrito: "Amanhã, quando
seu filho lhe perguntar: 'Que significa isso?', você lhe responderá:
Com mão forte Javé nos tirou do Egito, da casa da escravidão".
Será que nos preocupamos dessa forma tão pedagógica
em ensinar para nossos filhos e os filhos de nossos filhos qual o sentido
da Páscoa cristã? Também nela reavivamos nossa
memória.
A reflexão sobre a morte de Jesus é um desses momentos
densos e intensos. São histórias que nos exigem um exercício
profundo de memória, no qual a tragédia da morte se transforma
em força, em energia, em vida. A comunidade que consegue manter
viva na memória a trajetória de Jesus mantém também
vivo o desafio de ser sinal nesse mundo. Somos deste mundo e neste mundo
vivemos; é aqui que temos que dar sinais de nossa vida e testemunho
cristãos.
O
texto do Evangelho de João 19.17-30, que descreve o momento em
que Jesus carrega a sua cruz em direção ao Gólgota
(palavra hebraica que quer dizer "lugar da caveira"), é
um exemplo desse exercício de memória. Parece uma peça
de teatro na qual os movimentos e os símbolos falam mais que
as palavras. Jesus é portador de uma proposta que não
tinha lugar nos centros do poder da época.
Estamos vivendo o tempo da Quaresma, as quatro semanas que antecedem
o domingo da Páscoa. É tempo de nos prepararmos para silenciar
e refletir sobre como tem andado nossa vida.
Para compreender a ressurreição é preciso ter
preparo interior, sensibilidade e simplicidade. Porque a ressurreição
não é o reavivamento de um cadáver, mas sim a explosão
da certeza de que há um novo caminho. Porém, enquanto
estivermos ocupados em fazer orações só para nós
mesmos, enquanto preferirmos garantir somente o nosso pão, ao
invés de partilhar para que a mesa seja comunitária, não
compreenderemos o significado do que aconteceu naquele domingo.
Esses quarenta dias são um tempo para nos tornarmos melhores,
um tempo para experimentarmos a partilha, e não a divisão.
A diferença está no fato de que na divisão todos
recebem a mesma coisa, ainda que alguns tenham necessidade maior do
que outros. Na partilha, cada um recebe conforme a sua necessidade,
conforme a sua fome.
Nesse período de penitência, vamos pedir perdão
por todas as vezes em que nos tornamos agentes de morte; por nossa incapacidade
de seguir um caminho conjunto; por nossa incapacidade de trabalharmos
juntos; por nosso egoísmo e nossos ciúmes.
Páscoa é a descoberta de um novo caminho, mas essa é
uma trilha que só faz sentido para quem se aventura a caminhar
por ela.
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Vera Cristina Weissheimer é
pastora na Paróquia Centro
- SP