Pª Andrea Luisa Mühlhäusser
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E não vos conformeis com
este século, mas transformai-vos pela renovação
da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável
e perfeita vontade de Deus. Romanos 12, 2
Quem quiser, pois, salvar a sua vida
perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do
evangelho salvá-la-á. Marcos 8, 35
Tenho um texto muito bom de Marina Colasanti que deixo para você
ler, refletir, meditar,
questionar e, quem sabe, através dele, tornar a ganhar mais vida,
que tal!?
EU SEI, MAS NÃO DEVIA
"Eu
sei que a gente se acostuma, mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não
ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não
tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque
não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo
as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma
a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece
o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltada porque está
na hora. A tomar café correndo porque está atrasada. A
ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da
viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus
porque está cansada. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido
o dia.
A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando
a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos.
E, aceitando os números, aceita não acreditar em negociações
de paz. E, não acreditando nas negociações de paz,
aceita todo dia de guerra, dos números, da longa duração.
A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje
não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso
de volta. A ser ignorada quando precisava tanto ser vista.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que se necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do
que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas
valem. E, a saber, que cada vez pagará mais. E a procurar mais
trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas
em que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas
e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigada, conduzida, desnorteada,
lançada a infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição. Às salas
fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial
do ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam da luz natural. Às
bactérias da água potável. À contaminação
da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a
não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a
temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé,
a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses
pequenas, tentando não perceber, vão afastando uma dor
aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está
cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés
e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se
consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não
há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeita
porque tem sono atrasado.
A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar
a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar
a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto costumar, se
perde de si mesma." (Colasanti, Marina. Eu sei mas não
devia. Rio de Janeiro, Editora. Rocco, 1996.)