Volta à baila,
nestes últimos tempos, a questão da eutanásia.
Talvez mais em um contexto europeu e norte-americano, mas também
com reflexos aqui. É um desses temas, como o do aborto, que
sempre de novo fazem uma consulta às consciências morais
e éticas da sociedade, sejam elas religiosas, governamentais
e políticas ou do âmbito do Direito. O caso de Terry Schiavo,
nos EUA, e de filmes, como a película espanhola Mar adentro
e o longa-metragem norte-americano Menina de ouro repuseram a eutanásia
na ordem do dia. Esse tema, como todos os polêmicos, suscita ânimos
acalorados e polarizados, dúvidas e questionamentos. Enfim,
tem o mérito de nos fazer pensar e observar as sutilezas e complexidades
da vida e os limites que temos no trato de questões vitais que
não se contentam com respostas simples.
Aqui quero contribuir com poucas e tímidas reflexões
sobre o tema. Reflexões de âmbito pessoal, conquanto postas
para o debate que precisa ser enunciado. Uma primeira questão
que coloco é uma constatação a partir da ótica
cristã: a vida é um dom de Deus. Partamos, então,
deste dado como sendo pacífico a todos, ou ao menos aos cristãos
ou religiosos de outras tradições. Se a vida é um
dom de Deus, o que devemos nos perguntar é se uma vida humana
condenada ao sofrimento e à dor constantes, dor desumana, é ainda
um dom de Deus. Que tipo de vida é um dom de Deus? Simplesmente
a vida entendida como funcionamento biológico do corpo, ainda
que de modo inconsciente, sem percepção do mundo, da
própria vida, ou em meio a dores insuportáveis e incuráveis?
De que vida se fala quando se diz que ela é um dom de Deus?
Se vida, entendida como dom de Deus, pode ser diminuída ao mínimo
das funções biológicas básicas que fazem
com que uma pessoa esteja, minimamente, presente biologicamente neste
mundo, a despeito de inconsciência irreversível ou sofrimentos
medicinalmente incuráveis, então ela, a vida, de forma
alguma pode ser cancelada por qualquer decisão humana. Mas se
vida, como dom de Deus, não se identifica simplesmente com um
funcionamento mínimo automático ou induzido do corpo
humano, mas se identifica com bem-estar, condições para
se viver ou se tentar viver com dignidade, sem dores insuportáveis
e irreversíveis e com alguma possibilidade de consciência,
convivência e integração humanas, então
a questão muda de sentido. E, nesse caso, seria preciso perguntar
se a eutanásia, em alguns casos, não constituiria um
ato de dignidade diante de uma vida que já não é mais
identificada como dom de Deus, mas que se tornou a manifestação
de um “anti-dom”, ou seja, de uma violação
ao dom de Deus, uma vida que apenas se constitui em alguns elementos
biológicos, mas sem a aura do dom divino, sem ser reconhecida
como um sinal de dignidade em existir, em ser dom.
Outra questão, anexa a essa, é: se Deus é o
dono da vida (partamos deste princípio), quem é o dono
depois de Deus, a medicina e o Estado ou o enfermo, a pessoa em questão?
Deve permanecer com maior força o direito da medicina (e do
Estado) em prolongar uma vida humana que se encontra na irreversibilidade
de sua dignidade enquanto vida para além de somente o funcionamento,
induzido ou não, de mínimas condições biológicas
de existência, ou deve prevalecer o direito do doente em decidir
se quer continuar vivendo sob condições que, por ele,
já não são consideradas como vida enquanto dom
de Deus, ou seja, vida digna a partir de um ponto de vista extremo?
Então, no plano das necessárias decisões cruciais
humanas, quando não se é possível consultar um
oráculo, mas em que a decisão está entre a ciência
médica de prolongamento de vida e a própria pessoa que é alvo
deste possível prolongamento de vida, quem tem o direito da
decisão final? Depois de Deus, a quem pertence a vida e as decisões
sobre ela, à medicina ou à pessoa humana, em sua consciência
individual?
Aqui chegamos ao último ponto desta reflexão. Em último
(ou primeiro) caso é preciso perguntar: a vida, o vivê-la, é um
direito que compete ao ser humano ou uma obrigação que
se lhe impõe o ato biológico de funcionamento do corpo,
ainda que em meio a dores irreversíveis ou inconsciência
sem volta? Ora, se o ato de viver for uma obrigação,
independente de qualquer outro fator, ou seja, se o estar vivo biologicamente
implica na obrigação de que eu conserve minha vida a
priori, simplesmente por estar de alguma forma biologicamente vivo,
então, mais uma vez, a eutanásia não se justifica.
Porém, se viver não se constitui numa obrigação
que me é imposta por Deus ou pela sociedade, mas num direito
que cabe a mim; ou, em outras palavras, se a vida é um dom,
presente dado, e se com aquilo que me é dado eu posso fazer
o que quiser, então a questão toma outro sentido. Ora,
não é verdade que tantas pessoas sabem que o fumo, as
drogas químicas, a ingestão exagerada de gordura e de
bebidas alcoólicas são prejudiciais à saúde,
isto é, à vida, e que proporcionam seu enfraquecimento,
o surgimento de doenças e a possibilidade de uma morte induzida
pela ingestão destes produtos? E não é verdade,
também, que a despeito desta consciência, tantas pessoas
continuam a usar tais produtos, ou seja, a cometerem um “suicídio
lento” em suas vidas? E por que assim fazem? Por que consideram-se
donas de suas vidas e com o direito de decidir sobre elas, sobre como
preservá-las ou como prejudicá-las, ainda que por alegadas
razões de prazer pessoal. Enfim, se este direito de dispormos
sobre nossa vida, beneficiando-a ou prejudicando-a, no caso de prejudicando-a
num “lento suicídio”, vale para nossa vida enquanto
estamos sãos e plenamente conscientes, por que este direito
não valeria, também, para uma decisão quanto à questão
da nossa continuidade ou não de vida biológica num momento
extremo de possibilidades de vida enquanto dom e dignidade já não
possíveis, situações irreversíveis?
Enfim, a eutanásia, o sim ou não a ela, se mostra como
uma questão de opções prévias de nosso
olhar e de nossos conceitos sobre a vida. Envolve nossos pontos de
vista em relação à questão do que é vida
enquanto dom de Deus, a quem pertence a vida em situações
concretas e dramáticas de decisões que temos que tomar,
e se viver é um direito ou obrigação, em qualquer
circunstância, que nos compete. Dependendo das respostas a estas
e a outras questões poderemos nos posicionar frente ao problema.
Mas, mesmo assim, ainda quero lembrar: quando se trata da vida, de
seus sofrimentos e de suas esperanças, ninguém, creio
eu, poderia ditar normas e regras universais de procedimento. Sendo,
em última análise, questões muito pessoais, no
fim das contas, somente quem vive tais situações extremas
sabe os paradoxos dramáticos que elas encerram.