P. Dr. Rolf Schünemann *
Senhor,
estou atordoado. Não suporto mais tanta poluição.
O ar está empesteado e sinto o peito pesado. As chaminés,
os canos de descarga, a poeira suspensa no ar - tudo me deixa cansado
e sem vontade para nada. O barulho ensurdece. Não consigo mais
ouvir o silêncio. O meu nariz já não agüenta
o cheiro podre do esgoto doméstico e industrial. E, ainda por
cima, quando chove demais, vêm as enchentes...
A correria está tão grande que não tenho tempo
para minha família, meus amigos, para ti. Às vezes a
multidão de pessoas me incomoda. Não tenho privacidade.
Os assaltos e a violência me envolvem e tomam conta do meu inconsciente.
Começo a suspeitar de todos que estão em minha volta.
Como posso me livrar deste pesadelo? Devo fugir daqui? Mas para onde
irei? Aqui estou e não tenho muitas opções. A
minha vida e a de milhares de outros passa por aqui. Não quero
imitar a Jonas e me mandar daqui para os sítios e chácaras
tranqüilas. Não quero uma religião só de
consolo em que eu pudesse me desligar de tudo e de todos.
Tu és o Deus da vida, da amizade, da justiça e do amor.
Por isso desejo apenas forças para lutar. Forças para
manter viva a esperança e vislumbrar alguma luz no fim do túnel.
Senhor, não compreendo porque é tão difícil
mudar as coisas. Gostaria tanto que as pessoas sofressem menos no trânsito
e no transporte coletivo...; que a agressividade fosse menor...; que
a gente não precisasse se preocupar com as cotoveladas dos outros...;
que as injustiças que separam as pessoas não fossem tão
grandes...; que houvesse casa e comida, trabalho e educação
para todos...; que houvesse nas praças e ruas uma sombra natural
para descansar e meditar...; que houvesse mais transparência
na política e as pessoas participassem mais da vida pública.
Sim, Senhor, está muito difícil! Tu dizes em tua palavra: “Céus,
gotejem lá de cima, e as nuvens chovam a justiça; que
a terra se abra e produza a salvação, e junto com ela
brote a justiça.” (Isaías 45.8)
Ajude-me a abrir os olhos para ver os sinais da tua justiça
e da tua salvação. Sei que a fé é a certeza
das coisas que se esperam e a convicção dos fatos que
não se vêem e por isso te imploro: Fortaleça a
minha pequena fé, firma os meus pés e fortaleça
os braços cansados. Quero ser participante da tua criação
e a cidade em que vivo é parte dela. Não deixe este teu
filho na mão! É só isso que eu peço neste
lamento. Amém.
* Rolf
Schünemann é pastor sinodal do Sínodo Sudeste,
e 2º vice-presidente da IECLB
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