Daniel Ricardo da Costa *
“Eu
creio, Senhor! Ajuda a minha incredulidade” (Mc 9.24)
Essa frase parece uma contradição, algo absurdo, pois ou se
tem fé ou não se tem. Como alguém afirma ter fé,
no entanto pede ajuda em sua incredulidade? – dirão muitos.
Mas ao analisarmos com mais calma, vemos que isso é perfeitamente
possível.
Para compreender é muito fácil, basta
um exercício individual. Pense numa forma de falar da sua fé,
daquilo em que crê, naquilo que certamente não lhe deixa
perturbado ou inseguro. Naquilo que você crê de corpo e
alma. Ao final desse exercício, você possivelmente deverá ter
ficado com a cabeça cheia de incertezas, de dúvidas e
inseguranças, não é verdade?
Isso é muito comum. A verdadeira fé não é uma
fé tranqüila, completamente segura e simples. A fé em
Deus é algo muito mais complexo do que podemos compreender,
num primeiro momento. Quem já não teve crises de fé ao
ver uma grande injustiça, ao perder uma pessoa que amava muito,
ao ver algo que, segundo as suas convicções humanas,
Deus não poderia permitir?
Nossa fé é fraca, nossa fé, muitas
vezes, requer provas, marcas claras de que nosso Deus está conosco,
de que ele não nos abandonou ou até de que ele existe
realmente. Quem tem fé, certamente tem ou já teve dúvidas.
Aquele que se vangloria de sua muita e forte fé é o primeiro
a abandoná-la quando deparado com uma das circunstâncias
mencionadas anteriormente.
O verdadeiro crente é como aquele cobrador de
impostos, citado por Jesus em Lc 18.9-14. Ao contrário do fariseu
que se orgulhava de quanto era bom, o publicano não tinha nem
ao menos coragem de elevar o rosto e batia ao peito dizendo não
ser merecedor do amor de Deus. Aquele que se orgulha de quão
crente é pode ser comparado ao fariseu da mesma história;
esse não necessita de Deus, pois ele já é, ao
seu ver, bom o suficiente. No meio teológico, usa-se muito a
expressão: “Fé de mais não cheira bem”,
como crítica a esse tipo de discurso ou atitude. Quando alguém
diz estar completamente dono da situação, ou não
crê, ou não reflete sobre a fé que tem.
Portanto, sejamos humildes como o publicano, que entra
na sinagoga, mas não ousa dirigir-se com petulância a
Deus, ou como o homem citado em Mc 9.24, que afirma ter uma fé,
fraca e insuficiente, e que roga por Deus, pois Ele é o único
que pode fortalecê-la. Lembre-se: a “fé é irmã gêmea
da dúvida”, pois quem tem dúvida, interessa-se
pela fé que tem e pela religião que professa.