A palavra de Jesus, que é lema para nosso mês, nos ajuda a refletir
sobre nossa condição de luteranos e aristocratas.
Somos luteranos quando assuntos como abundância
de recursos e avareza, nos remetem de volta à justificação por fé e
graça. No nosso contexto sócio-cultural, se cultua a eficácia e os
resultados, em que contam a capacidade profissional, o lucro e o êxito,
tornando a sociedade fria e exigente. O ser humano para ser alguém,
para alcançar sua identidade, deve se submeter a uma disciplina rígida
que escraviza e desumaniza, fazendo-nos escravos da produção, do
trabalho, do sucesso e da competição. Quem experimenta existencialmente
a justificação está liberto desse peso infernal. Sabe que, apesar
de suas limitações e deficiências, é aceito e amado por Deus, seu
trabalho tem valor e não se sente coagido a justificar-se diante
dos outros.
Diante das crises financeiras, presbitérios e paróquias devem saber
que as dificuldades que atravessam não resultam da preguiça de seus
pastores/as (há quem viaja centenas de km/mês, sofre atraso na subsistência
e ouve críticas, mesmo com a agenda cheia), nem da falta de criatividade
de presbíteros/as para criar programas atraentes e achar fontes de
recursos, nem do paradoxo condição financeira X expectativa,
no qual esta cresce à medida que aquela diminui. Devem saber que
o que fazem, bem e com amor, lhes vem de Deus. Isso é a graça!
Somos aristocratas, não por ser intelectuais e
elitistas, preconceito de quem desconhece o significado da palavra.
Pastores/as e presbíteros/as foram responsabilizados pela comunidade,
pela eleição e imposição das mãos, para o exercício de sua função.
Ao levar isso a sério, sentem-se obrigados pelo
que não obriga aos demais. A chamada Noblesse oblige, que
os compromete com os perigos inerentes a esta obrigação suplementar, é o
que os separa dos demais. Operários sabem que seus colegas do sindicato
assumem responsabilidades que os distinguem porque arriscam mais,
e isto os coloca à parte. A compensação pelo risco que correm para
defender os interesses dos colegas é a solidariedade deles, que logo
se mostra no calor do conflito.
Presbíteros/as e pastores/as têm certa autonomia no exercício de
suas funções para melhor realizar esse serviço ao bem comum da comunidade.
Daí o perigo que correm de serem cooptados por uma minoria "aristocrática" que,
por causa de um afastamento da comunidade, tende a esquecer o aspecto
serviço e a acentuar o aspecto privilégio, até se desvincularem da
função que o originou.
Toda
responsabilidade constitui uma aristocracia, primeiro em seu sentido
próprio, e também em sua potencialidade pejorativa: a de desviar
em proveito próprio as facilidades essenciais da sua função: condições
de trabalho, tempo de reflexão, cultura, prestígio, poder... Numa
prédica, Martin Luther King Jr disse que "toda forma de poder corrompe
e, toda forma de poder absoluto corrompe absolutamente". Esta é uma
lei humana e as igrejas não estão isentas dela.
Comunidade cristã luterana é aristocrática porque foi chamada desde
o princípio por Cristo a assumir uma responsabilidade difícil. E
a dificuldade das diretorias é esta: liderar sem esquecer de que é povo
também, que não representa a si mesma e que a medida de seu bom trabalho é ter
coragem diante dos riscos da tarefa, sem esquecer que representa
a comunidade e sem deixar de pensar e agir no atendimento dos interesses
conjuntos dela. Amém.