P. Zulmir Ernesto Penno *
O mundo gosta de espetáculo; o povo corre atrás de shows. O famoso
Império Romano, da antigüidade, para crescer e se manter politicamente,
bem sabia que precisava providenciar "pão e

circo" para
o povo. O povo quer comida e espetáculo. Mas este Império Romano, que
fez a vontade do povo, ruiu, apodreceu. Hoje estamos rodeados de Igrejas
(denominações cristãs) que aderiram ao espetáculo, ao show! Dão a entender
que estão aí para propiciar cultos espetaculares ao povo, coisas que
fascinam e fazem subir a adrenalina. Isso tudo até que é bem interessante.
Mas, até quando tais Igrejas-espetáculo vão ficar de pé? Algumas até que
estão crescendo bastante, em número é bem verdade; ou quem sabe, estão "inchando".
Até quando? Será que o
REINO DE DEUS cresce, se desenvolve
mediante espetáculos e shows? Uma igreja pode não estar a serviço
do Reino de Cristo! E cabe o auto-questionamento: Será que a
Igreja Luterana (IECLB) está a serviço do Reino de Deus?
Vejamos o que Jesus nos quer ajudar a perceber a esse respeito,
através das duas parábolas de Marcos 4.26-32: a da semente e
a do grão de mostarda. Duas parábolas agrícolas, do
mundo natural. E aqui faço um parênteses: Estive lendo o livro "O Desenvolvimento
Natural da Igreja - Guia prático para cristãos e igrejas que se decepcionaram
com receitas mirabolantes de crescimento". É do teólogo alemão
Christian Schwarz , editora Evangélica Esperança, Curitiba/PR. Vale
a pena ler!
O REINO DE DEUS CRESCE SOZINHO! Jesus conta mais esta parábola (Mc
4.26-29) para ilustrar que o Reino de Deus cresce sozinho. O Reino
de Deus é como se um homem lançasse a semente à terra e depois,
dia após dia, dormindo e trabalhando e cultivando, espera que ela germine,
cresça e produza frutos, nem sabendo ele como. Quando a semente é lançada à terra,
ela mesma dá de si os frutos, e quando estes estão maduros, na época
própria, são colhidos. É desse modo que Jesus fala do seu Reino, do
Reino dos Céus aqui na terra.
Interpretando: Não somos nós que criamos o Reino de Deus. Jesus
o trouxe até nós, veio implementá-lo por aqui. E Jesus colocou as sementes
desse seu Reino em nossas mãos e nos deu a tarefa de semear e cultivar.
Cabe a nós semear esta semente que traz dentro de si, a exemplo de
outras tantas sementes, o milagre da vida. Não nos
compete criar a semente, a vida. A ciência até que já conseguiu evoluir
na direção de modificar geneticamente sementes, plantas, animais. Mas
criar vida... este continua um segredo de Deus! E
toda semente, que carrega dentro dela o gérmen, o potencial da vida,
uma vez semeada, ela nasce, cresce e produz por si mesma. Assim é com
o Reino de Deus, diz Jesus. Ele confiou à Igreja, ao povo de Deus esta
semente da salvação, em Palavras e Sacramentos - estes são os meios
da graça, por excelência. A semente que Jesus trouxe foi produzida
pelo Deus Eterno, e ela traz a marca de seu Reino, e vem com a propriedade
de ser cultivada no solo dos corações humanos, e com o objetivo de
produzir uma colheita abundante. Nesta confiança cabe a nós continuar
semeando; e os frutos aparecerão a seu tempo.
O REINO DE DEUS INDEPENDE DAS APARÊNCIAS! Para
ilustrar esta verdade, relativa ao seu Reino, Jesus conta a parábola
do grão de mostarda (Mc 4.30-32). A sementinha de mostarda é tão pequena
mas, uma vez germinando, transforma-se num razoável arbusto, onde até passarinhos
podem se abrigar. Com esta ilustração Jesus quer mostrar a ação
poderosa do Reino de Deus entre nós.
Deus vem, em Jesus, como criança indefesa. Como mestre, Jesus anda
pelos caminhos empoeirados da Galiléia. Seus seguidores eram pessoas
simples: mulheres, idosos, doentes e pessoas marginalizadas como publicanos
e pecadores. Mesmo assim, o Reino de Deus está presente na vida e obra
de Jesus. Mesmo Jesus morrendo, tornou-se ele o nosso Senhor ressurreto.
A Reforma da Igreja no século 16, por Martim Lutero, iniciou igualmente
com um simples monge angustiado num convento. Iniciou pequena, mas
com tão grandes desdobramentos. (Veja: Lutero - o filme!)
Concluindo, trago à reflexão esta bonita imagem: o passaredo se
aninhando à sombra e entre os galhos do arbusto da mostarda! Qual ou
quais significados podemos extrair daí para a Igreja? A Igreja - principal
instrumento para tornar visível o Reino de Deus aqui na terra - é qual
sombra gostosa de aconchego, de acolhimento. Nela encontram lugar as
mais diferentes opiniões e teologias, e nela encontram abrigo e acolhida
todas as raças e nações. Quero ilustrar isso com uma história
interessante:

Conta-se
que uma comunidade religiosa, em certa ocasião, resolveu construir um templo
novo. E atrás do altar resolveram colocar um vitral de cores bem vivas. A
comissão de construção procurou por algum tempo uma frase para escrever neste
vitral multi-colorido. Um dia decidiram-se pela frase de um hino: "
Ao
redor do trono celestial do Pai cantam milhares de seus filhos e filhas". Em
seguida decidiram contratar um artista famoso para desenhar um modelo, do
qual seria copiado o vitral. O artista se pôs a trabalhar e quando terminou
ficou encantado com a obra que tinha conseguido criar, em cima daquela frase.
E, já tarde da noite, dando o trabalho por concluído, ele foi descansar.
Durante a noite lhe parecia estar escutando ruídos estranhos; e ele foi até o
seu ateliê verificar o que se passava. Ali se deparou com um homem, que,
de pincel e tintas nas mãos, estava a retocar o quadro. - Alto lá! Você está querendo
estragar a minha obra, gritou o artista. E o estranho intruso lhe respondeu:
Acho que você já a estragou ontem à noite. - Como assim? Retrucou o artista.
- Pois bem, veja, em seu estoque de tintas você tem muitas cores, mas você só usou
uma delas para pintar os rostos destas crianças. Quem lhe ensinou que no
céu, no Reino de Deus só tem crianças de rosto branco? - Bem, eu não tinha
pensado nisso, disse então o artista, um tanto envergonhado. E o estranho
visitante lhe disse: Olha aqui, eu vou pintar alguns destes rostos de amarelo,
outros de castanho, outros de negro e outros de ruivo; pois todos estes estão
lá no meu Reino, uma vez que tem atendido ao meu chamado. - Ao seu chamado?
Quem é você, afinal? Indagou o artista, agora um tanto quanto assustado.
- Uma vez, há muito tempo, continuou o estranho sorrindo, eu disse: "Deixai
vir a mim os pequeninos, não os impeçais, porque deles é o Reino dos Céus",
e ainda continuo anunciando isso, concluiu o visitante noturno. E foi aí que
o artista se deu conta que era o próprio Jesus quem estava falando com ele.
E nesse mesmo instante Jesus sumiu. E agora o quadro estava mais bonito,
com alguns pequenos rostos negrinhos, outros rostos de crianças orientais
de olhinho puxado, alguns rostos de crianças indígenas e outras orientais
de pele queimada... E também alguns rostinhos de cor branca.
De manhã , quando o artista despertou do seu pesado sono, correu
ao estúdio para ver a sua obra. Estava lá, tal qual a tinha deixado
na noite anterior. O encontro com o Mestre Jesus, de madrugada, havia
sido um sonho; mais que um sonho: uma visão!
E ele, imediatamente, antes que a comissão viesse avaliar a obra
encomendada, pegou as tintas e o pincel e freneticamente se pôs a pintar
os rostinhos das crianças das mais diversas cores, representando todas
as raças que há no mundo. E quando, dali há pouco, a comissão da Igreja
chegou, acharam que a obra tinha ficado maravilhosa. E o chefe da comissão
exclamou: "Esta é a grande família de Deus com seu Pai".
Certamente a Igreja é a grande família de Deus. E esta Igreja começou
na Palestina, pequena como uma semente de mostarda, mas foi crescendo
para oferecer lugar suficiente de acolhida para todas as nações e raças
da terra. Há lugar para todos à sombra desta arvorezinha chamada Igreja
de Jesus Cristo. Você está convidado a ocupar o seu! Se achar oportuno,
venha visitar uma Comunidade Luterana. Você será muito bem-vindo!