Talvez nos decepcionemos tanto porque depositamos em algo ou
alguém uma confiança excessiva, esquecendo as limitações
próprias a tudo o que é humano.
Com
muita freqüência tenho ouvido e lido sobre um sentimento
que parece se instalar e alastrar em muitos níveis de nossa
existência: o sentimento de desconfiança, em geral acompanhado
pelo sentimento de desolação e desesperança.
Os acontecimentos na política nacional, os fenômenos
da natureza, como os furacões e enchentes no sul dos Estados
Unidos, o tsunami na Ásia, entre outros episódios de
menor repercussão pública, têm sido apontados
como razão desse sentimento de desconfiança e desesperança.
Algumas personalidades afirmam que estes fatos reforçam o
sentimento de desolação e “desmapeamento” que
caracteriza o ser humano contemporâneo. Não existem
mais grandes certezas, nem utopias...
É muito complicado viver sem poder confiar. É muito
bom poder confiar em alguém. Isso nos dá contenção,
nos permite relaxar e usar nossa criatividade para sonhar e planejar.
Para viver, necessariamente, precisamos ter uma confiança
em algo ou alguém, senão nos desesperamos.
Porém,
por isso mesmo, muitas vezes sofremos muito. Pessoas ou instituições
sobre as quais depositamos nossa confiança podem nos decepcionar.
Isso também é inevitável. Geralmente esquecemos
disso, ou não queremos sabêlo. Penso que talvez nos
decepcionemos tanto porque confiamos demais. Depositamos em algo
ou alguém uma confiança excessiva, esquecendo as limitações
que são próprias a tudo o que é humano. E isso é uma
projeção, uma fantasia que ninguém pode, nem
precisa, sustentar.
Vejo com freqüência que quando algo errado acontece e
nos decepcionamos, nos sentimos vítimas: as coisas não
dão certo porque o outro falhou! E disso o ser humano gosta:
queixar-se do outro, como o grande responsável pelas suas
próprias limitações e faltas. Isso é uma
atitude infantilizada. Nos eximimos de nossa própria responsabilidade.
Gostaríamos que outros fossem para nós como os pais
são para uma criança. (In)felizmente crescemos e a
vida nos mostra que nossos pais também são apenas um
homem e uma mulher. Que saudade dos tempos em que alguém prometia
nos proteger... A vontade de acreditar nisso ainda é muito
grande na maioria das pessoas.
Dietrich Bonhoeffer, o teólogo da resistência morto
pelo sistema nazista, afirmou certa vez: “Temos que viver como
se Deus estivesse morto”. Com isso queria dizer: não
adianta apenas se lamentar e esperar que outro faça o que
achamos que deve ser feito. Muitos cristãos esperam que Deus
faça aquilo que cabe a nós fazer. Confiar em Deus ou
em outra pessoa nunca deve nos dispensar de nossa própria
responsabilidade para com aquilo que nós mesmos podemos e
devemos fazer.