Hoje
acordei com aquela sensação que de vez em quando bate à porta
de nossa humana existência para soprar aos nossos ouvidos que
somos mortais. Mas ao contrário do que alguns poderiam pensar,
esta não foi uma sensação triste, foi antes
como se uma espiral de nova vitalidade percorresse o meu corpo e
com voz suave e firme me chamasse para singularidade de cada dia
vivido e de cada experiência sentida. Fui tomada pela sensação
de descortinar-me, ou seja, de deixar a vida em toda a sua força
pulsar dentro deste meu ser que por ser templo do espírito
também é sagrado. Levantei-me da cama e fui contemplar
o dia, não como quem espia sorrateiramente por detrás
da janela, mas como quem percebe que o mundo a sua volta é tão
seu quanto da mais pequenina borboleta que entre uma flor e outra
busca o néctar para nutrir a sua existência e que sem
perceber se torna portadora de vida para outras tantas flores que
desabrocham por terem sido polinizadas pelo toque suave de suas pequeninas
e ágeis patinhas.
Acordei sedenta e tranqüila. Sedenta por degustar a vida como
um presente divino que só pode ser recebido. Tranqüila
por saber que para viver não se precisa ter pressa, somente
profundidade.
Acordei livre e alegre. Livre porque quem tem olhos para contemplar
o invisível percebe no visível, no corriqueiro, no
humano, na natureza expressões magníficas da ternura
e da compaixão do nosso Criador. Alegre porque descobri há tempo
que uma existência feliz não é aquela onde se
encontrou todas as respostas, mas sim aquela que faz da pergunta
o estímulo para a descoberta e que compreendeu que a vida
sem o mistério seria como um quebra cabeças sem as
suas peças mais coloridas.
Hoje acordei com a expectativa renovada de redescobrir o valor de
cada palavra, sensibilizada para sentir o mundo à minha volta.
Encorajada para expressar o meu carinho por cada pessoa de minha
família...(mesmo que morem à uma porção
de quilômetros longe de mim e ainda que eu os veja muito raramente),
por cada ser humano que passe pelo meu caminho.
Acordei com gratidão pelos dias idos...e o rio que corre
diante da minha janela sempre de novo me ensina que a vida segue
sempre adiante. Algumas vezes mais depressa, quando a chuva que rega
a terra faz inchar o volume das águas e as margens se tornam
estreitas demais...outras vezes, mais lentamente, quando o turbilhão
cessa, o volume das águas diminui e ao rio resta a leveza
de uma tranqüila, tênue e contínua corrente a caminho
do mar.
Acordei com o desejo de simplicidade. Com a esperança refeita
e com a certeza de que a vida só tem sentido quando centrada
no amor e no desejo mais profundo de recobrar a fé na humanidade.
Ou você acha que Deus não sabia o que estava fazendo
quando nos trouxe a vida ou que Ele havia perdido a razão
ao perceber após cada dia da criação que tudo,
tudo o que Ele havia criado era muito, muito bom?
“Vital é redescobrirmos os laços humanos que
nos tornam a todos uma grande e mesma família.” Amém!