P. Frederico C. Ludwig e Janette B.
Ludwig *
Zé um dia ouviu falar no Natal... Não entendeu muito
bem o que era... Seu magro corpo, marcado pela fome, não ajudava
a cabeça a pensar. Morando num barraco, onde a chuva peneirada
pelo telhado ensopava o resto de colchão que era sua cama e
dos três outros irmãos. Zé não poderia mesmo
saber o que era o Natal. Além de tudo era analfabeto.
Zé saiu da favela e foi para o meio das pessoas, descobrir
o que era o Natal...
Entrou na rua das lojas, onde o alto-falante de um carro de som repetia: "os
melhores presentes de Natal, só nos irmãos Dorival".
Os olhos do Zé brilharam com as vitrinas das lojas: bonecas,
carrinhos vermelhos e... aquela bola de futebol com o nome de Pelé.
Natal deve ser PRESENTE, pensou ele.
– Se não sair o abono de Natal não sei como eu
vou fazer, exclamava uma pessoa gesticulando na rua. – Mas tem
que sair. Sem abono "neca" de Natal lá em casa, dizia
o outro.
Zé não sabia bem o que aquilo, mas a "estampa" dos "doutores" o
convenceu. Natal deve ser ABONO, pensou.
Zé espiou pela porta
do mercado bem sortido.
As mulheres discutiam: – Nossa, como estão caros os perus
este ano. E eu a precisar de tantos para este Natal. – E as passas
e as nozes, então? Chegam a arrancar os olhos da cara da gente. – Antigamente é que
se comia bem no Natal...
E o Zé pensou: Natal deve ser COMIDA...
Num outro canto do mercado Zé viu um monte de árvores
cortadas e o vendedor apregoando: – Compre aqui o seu pinheirinho
de Natal.
Duas crianças de mãos dadas com o pai, choramingavam: – Pai
compra este para a gente? – Compra aquele que é "mais
grande", pai.
E o pai carrancudo disse: – É muito caro. Depois abrindo
a carteira disse: – Não importa. Natal sem pinheirinho
não é Natal.
A confusão do Zé aumentou: – Será que errei?
Parece que Natal é PINHEIRINHO... Pobre do Zé...
Ainda
não conseguiu descobrir o que é Natal...
Ele que não recebe presentes, não entende o que é abono,
não come todos os dias e jamais verá um pinheirinho em
seu barraco... Se o Natal for só isto... pobre do Zé.
Será que o Natal é outra coisa?
Existirá Natal para o Zé?
(Elenice leite)
Esta é uma história que mostra um pouco daquilo que
muita gente vive ou já viveu, na figura do Zé.
A Paróquia Centro de
São Paulo, vive estas histórias
todas as sextas-feiras, quando vem a nossa igreja centenas
de Zé(s)** para meditar e para compartilhar seus
sonhos, suas histórias
tristes e suas preocupações.
Agora é Natal. Existirá Natal para eles?
Os sentimentos expressados pelo Zé, são os sentimentos
de muita gente sofrida que tem fome e sede e que no dia de Natal tentará encontrar
o seu caminho.
Existirá Natal para eles? A pergunta continua, ficará no
ar sem resposta?
Graças a Deus, há iniciativas que mostram que ainda
pode existir Natal.
Algum tempo atrás conhecemos uma senhora alemã que,
de visita ao Brasil, teve a oportunidade de conhecer o nosso trabalho
com o povo da rua. Ficou surpresa a maravilhada e ao mesmo tempo compadecida
com algumas histórias. Na Alemanha, ela trabalha voluntariamente
na Instituição Cruz Azul, com alcoólatras. A maioria
dos nossos Zé(s) têm problemas com o alcoolismo e tentam
sair para não se afundar ainda mais.
Ela interessou-se por um Zé, ajudou-o financeiramente, enviando
alguns euros, acompanhados de uma pequena carta estimulando-o para
que não volte a beber. Isto está ajudando-o a se fortalecer
e não voltar ao vício da bebida. Ele mesmo diz: – alguém
de tão longe se lembra de mim.
Na instituição Cruz Azul, na Alemanha, ouviram falar
desta história e do trabalho de nossa paróquia. Aqueles
alcoólatras solidarizaram-se com os problemas da nossa gente
e resolveram fazer uma coleta e enviar para nós, com a seguinte
recomendação. Dê para alguém que está tentando
sair desta como nós aqui na Alemanha. E o dinheiro chegou. Conforme
a recomendação, escolhemos dois Zé(s) que já a
algum tempo estão levando a sério uma mudança
de vida. Chamamos os dois e contamos o fato e o porquê da escolha.
Os olhos brilharam, lágrimas correram e histórias rolaram,
porque existiu Natal para eles.
Disse Jesus: "Sempre que o fizestes a um destes meus
pequeninos
irmãos, a mim o fizestes." (Mateus 25.40)