P. Dr. Adilson Schultz *
Quando
nasce uma criança, dizem que o pai e a mãe ficam como
que bobos. Acham que seu bebê é o mais lindo do mundo;
fazem planos para que ele seja o mais humilde ou o mais inteligente;
se enchem de alegria, e todas as exigências e o trabalho que
vêm junto com a criança são minimizados.
A mesma coisa parece acontecer com Deus no Natal: só assim é possível
entender o que Ele espera do seu menino que vai nascer: pela boca do
profeta, Deus diz para nós que o cordeiro e o leão vão
se deitar juntos e não se ferirão (Isaías 11).
Pela boca de Maria, Deus diz que os poderosos serão derrubados
dos seus tronos e os pobres vão assumir seu lugar. (Lucas 1)
Como levar a sério tamanho exagero? No Natal Deus parece bobo
de alegria; as exigências e a realidade são como que suspensas;
aí tudo vira ao contrário; o mundo fica de cabeça
para baixo.
O Natal é um profundo exercício de disciplina da fé,
quando todas as pretensões de grandeza são suspensas
e concentradas na humilde cena da estrebaria. O grande, o poderoso, é substituído
pelo humilde e pequeno. Aquilo que era, não vale mais; tudo
vai começar de novo. O mundo renasce no menino que nasce. A
fé reaprende: precisa adorar um Deus pequeno, frágil
- e que dá muito trabalho!
O psicanalista Carl Jung arrisca dizer que o Natal celebra o renascimento
de Deus. Somos confrontados e agraciados com uma grande mudança:
nada mais de exércitos, não mais altos céus, nada
mais de matanças exemplares, não mais força e
poder pelas pragas ou castigos. No Natal Deus descobre o jeito definitivo
e universal de tocar o mundo e as pessoas, através de um menino
humilde. Deus nasce e o mundo inteiro começa de novo.
Os sábios do Oriente são símbolo dessa surpreendente
virada de Deus. No seu testemunho está a mais profunda exigência
da nova pedagogia da fé que o Deus inaugura: quando eles chegam
a Belém vindos do Oriente, depois de uma longa jornada seguindo
a estrela, montados em belos dromedários, ornados com finas
roupas, trazendo ricos presentes, encontram apenas um humilde bebê e
se dão por satisfeitos... Eles vinham atrás do Messias,
e encontraram um menino numa estrebaria. Olharam, adoraram, presentearam
e depois foram embora, satisfeitos.
Alguns países conservam uma antiga tradição que
fixa o dia dos presentes de Natal para o 06 de janeiro, o dia dos reis
magos - afinal, são eles que levam presentes para Jesus, e não
o papai noel. Nesse dia as crianças preparam pratos de capim
e potes com água e deixam na frente da porta; só assim
os dromedários interrompem sua viagem e param nas casas para
comer e beber. Em agradecimento, os magos deixam presentes.
Gracioso e exigente Natal... Deus visita a humildade, gosta, e resolve
morar aí.