P. Dr. Rolf Schünemann*
“Cria em
mim, ó Deus, um coração puro, e renova dentro
de mim um espírito inabalável”
( Salmo 51.10)
Todos
os anos, no dia 31 de dezembro, promove-se em São Paulo a tradicional
corrida de São Silvestre. Para ela preparam-se milhares de atletas
durante o ano todo.Essa corrida se notabilizou muito nas últimas
décadas em função de um modismo bastante salutar
que se disseminou amplamente em toda a sociedade – o cuidado
do corpo. Tudo começou com a corrida de “cooper”.
Depois vieram as caminhadas, acompanhadas pelas mais diversas academias.
Homens e mulheres de todas as faixas etárias procuram se exercitar
fisicamente para queimar suas toxinas. Na corrida de “cooper” prioriza-se
a resistência física mediante um maior aproveitamento
de oxigênio durante a respiração, poupando, assim,
o coração. Ter resistência é sinônimo
de bom fôlego e coração forte.
Os antigos hebreus já faziam uma relação muito íntima
entre coração e pulmão. Viam neles os centros
vitais do organismo humano. Quando o salmista usa a palavra coração,
ele quer referir-se aquilo que ocupa o centro da vida. Tudo aquilo
que designa a vontade, os valores que direcionam a vida, enfim, o caráter
do ser humano. Já “espírito inabalável” significa
respiração firme. Nós diríamos: ter fôlego,
ter persistência.
Assim, este verso desta oração profunda, que é o
Salmo 51, representa o que há de mais importante em nossa vida.
Ao entrarmos em um novo ano, lembramos que no ano que findou o coração
não pulsou conforme os desígnios de Deus e, conseqüentemente,
toda a vida sofreu com isto. Muitas toxinas se acumularam e elas precisam
ser queimadas. Ao lermos este salmo, procuramos da parte de Deus uma
clara orientação na vida para o ano que começa.
Desejamos que o coração seja puro, ou seja, que a nossa
perspectiva de vida seja pautada por aquilo que a Palavra de Deus nos
coloca como diretriz.
Agora, para que isto aconteça é necessário aquele “espírito
inabalável” da persistência. O fôlego que
supera o desânimo. A coragem que enfrenta problemas e dificuldades.
Essa força vital nós pedimos a Deus, pois bem sabemos
o quão facilmente caímos em desalento quando confiamos
exclusivamente em nós mesmos.
Sempre é bom lembrar que isso exige de nós uma disciplina
de atleta. Um atleta não pode relaxar nos treinos. Precisa até abrir
mão de determinados prazeres que em si não representam
mal algum. A renúncia acontece em função de um
propósito, de uma meta. Ela ocorre em função de
uma opção de vida. A pessoa que procura viver a sua fé em
fidelidade aos propósitos de Deus também renuncia a programas
e atividades que em si não apresentam mal algum, mas que somados
comprometem a sua performance.
Lembremo-nos que as nossas capacidades, a nossa maior ou menor formação
cultural não são decisivas ou referências centrais
para Deus. Para Ele é decisiva a maneira pela qual nós
usamos toda a nossa estrutura pessoal. Quase sempre os/as vencedores/as
das maratonas não são os mais musculosos. O que conta
e é decisivo mesmo é muito empenho no exercício.
No início de 2006 façamos desta oração
a nossa corrida de “cooper” diária para queimar
as toxinas da nossa vida e, ao mesmo tempo, nos fortalecer para os
embates da vida.