Pª Drª Anete Roese *
Jonas é aquele
que prefere ficar no seu lugar, no mesmo lugar, prefere o lugar da
passividade, prefere não ser convocado a nenhuma missão,
a nenhuma anunciação. O chamado de Deus o incomoda e
ele resiste. Ele não quer a provocação do chamado: “levanta-te
e anda”. Ele prefere a fuga, o isolamento, a negação.
Ele prefere ficar a levantar-se e ir. O deslocamento para outro lugar,
para um outro modo de ser, para o encontro com um lugar diferente,
estranho, “inimigo” (Nínive - a cidade inimiga),
com outro ser humano deixa Jonas deslocado, inquieto, ansioso e com
medo. Ele prefere fugir deste enfrentamento; prefere não saber
se deste encontro pode resultar algo melhor. Não há confiança
dele nem na sua capacidade, nem em Deus.
Jonas recebe um chamado. Este chamado implica em levantar-se e deslocar-se
para outro lugar. Sair do lugar comum, do lugar conhecido, do lugar
onde ele está. Trata-se de colocar-se de pé, numa postura
de abertura e aceitação de algo novo. O colocar-se de
pé é uma postura fundamental para a qual ser humano é chamado.
No caso de Jonas, colocar-se de pé é uma postura interna
de decisão em favor de si e do outro, e é uma forma de
abertura à transcendência, à Palavra maior que
coloca o ser humano no seu caminho verdadeiro.
Mas, Jonas foge daquilo que ele mesmo pode ser, daquilo que ele é chamado
a ser. Ele foge para Társis, foge do confronto, foge do conflito
que Nínive representa. Quando convocado, ele foge. Embarca no
navio, dorme, enfrenta uma tempestade. Em meio à tempestade
ele é interrogado: de onde vens? Qual é a tua ocupação?
Qual é a tua terra? Qual é o teu povo? (Jn 1.8). Todas
estas perguntas se dão no confronto e no encontro de Jonas com
os marinheiros. Diante do desespero, diante do desconhecido, Jonas
lança-se ao mar e é tragado pelo peixe, pelo monstro
do mar.
Todo este processo não é à toa. Jonas é pressionado
a amadurecer seu ser, sua pessoa. É neste barco, neste navio,
no encontro com o outro ser humano, que ele enfrenta a tempestade mais
forte e é lançado ao abismo, para a profundidade do mar,
do peixe, de si. E é somente neste momento que Jonas consegue
reencontrar-se com Deus, com a sua espiritualidade. O momento mais íntimo é o
momento em que ele se reencontra com a sua fé, - quando é capaz
de fazer uma oração. Esta oração é momento
central da vida de Jonas. É o momento em que se dá o
encontro de Jonas com Deus, o divino, - que está à sua
espera. Neste momento de síntese, de encontro com Deus, Jonas é devolvido à terra.
Então, “levantou-se, pois, Jonas, e foi a Nínive,
segundo a palavra do Senhor”. (Jn 3.3)
A partir deste instante, Jonas assume a sua responsabilidade, já não
tem medo, e vai a Nínive profetizar. Para surpresa de Jonas,
o povo se arrependeu e se converteu; Deus se arrependeu do mal que
se lhes havia anunciado, e teve compaixão do povo. Mas Jonas
desgostou-se de Deus, pois esperava a destruição do povo
e não a clemência, a misericórdia, a benignidade
e o arrependimento de Deus.
Sair do mundo fechado do eu, sair de si mesmo e enfrentar o encontro
com o mundo do outro ser humano, do desconhecido, do que é inimigo
e descobrir neste processo arrependimento, perdão, bondade,
o divino, o mistério do amor de Deus, este é o processo
que se dá a partir de um chamado a sair de si, de ir ao encontro
de outro povo, outro ser humano. É um processo de transformação
de si mesmo, que para Jonas continua ainda depois da libertação
do povo de Nínive. (LELOUP, Caminhos da realização)
O texto de Jonas é uma história de cura, de salvação, é uma
parte de um processo que nos ajuda a ver como Deus cuida, como o encontro
com outro ser humano pode ser transformador, e como Deus participa
desta transformação, desta conversão, desta ressurreição. É neste
encontro que Deus se realiza e se revela. É neste encontro de
Jonas com Nínive que o povo se humilha, volta a si, volta a
ser imagem de Deus.
Com Jonas acontece um processo que significa um caminho de ressurreição,
um caminho para a cura. Trata-se de um caminho para a integridade do
seu ser; um encontro e um conhecimento mais profundo de si, do próximo
e de Deus.