P. Zulmir Ernesto
Penno,
P. Rodrigo Portella
e Presbitério da Comunidade de Juiz de
Fora
Nos
tem preocupado, na IECLB e,
também por vezes em nossa Comunidade, uma certa tensão
existente entre pessoas ou grupos que defendem uma renovação
da Igreja, principalmente em seus cultos, e ainda em demais atividades,
e pessoas que não admitem nenhuma renovação na
Igreja. Como pastores da Comunidade e como Presbitério, na responsabilidade
de oferecer uma orientação pastoral sobre o assunto,
queremos partilhar nossa reflexão. Ela não é a única
possível e aceitável, mas quer ser uma contribuição
para o amadurecimento desta questão.
Vivemos numa sociedade plural. Isto significa que temos que conviver
- e cremos que isto é bom - com diferentes maneiras de interpretar
o mundo, de viver a vida e organizar a sociedade. E na Igreja não é diferente.
Nela também, desde seu início e por toda sua história,
houve maneiras diversas de se viver a fé, interpretar as Escrituras,
organizar comunidade. E esta pluralidade é algo que deve enriquecer
a Igreja através do diálogo entre tendências e
posicionamentos teológicos, litúrgicos e espirituais
diferentes. O contrário disso seria uma ditadura de estilo e
interpretação, que abafaria e suprimiria o diferente.
Porém, a própria Bíblia mostra diferentes formas
teológicas e espirituais em seu interior, testemunhando que
Deus é maior que nossos horizontes de interpretação
e que Ele não se esgota ou deixa aprisionar em apenas este ou
aquele modelo deste ou daquele grupo.
O cristão, portanto, é o sujeito que, movido pelo Espírito
Santo, está aberto ao diálogo com o diferente, antes
de tudo em sua própria comunidade. Agostinho, teólogo
da Igreja, dizia: "no essencial, unidade; no secundário,
diálogo e tolerância; e em tudo amor". Sem essa postura
a paz se torna impossível, pois é forçoso o viver
em meio à pluralidade, às diferenças. Quem não
souber dialogar, aprender que o outro, o "diferente", também
tem coisas positivas e algo a ensinar, acabará nas trilhas da
intolerância fanática, que demoniza o outro, o que, aliás,
cada vez mais tem feito vítimas nas Igrejas, inclusive na IECLB.
Há Igrejas
- e são, infelizmente, muitas no meio evangélico - que
têm desprezado e esquecido grandes riquezas da tradição
cristã. Não oram mais o Pai Nosso, não professam
publicamente os Credos, não dão importância a símbolos,
arte, músicas, liturgias e gestos litúrgicos (até os
condenam), etc. Páscoa, Natal, Quaresma, Advento, tudo isso
faz parte da tradição celebrativa do mistério
de Cristo. Mas o rolo compressor de abolir tradições
faz com que muitas Igrejas já não celebrem tais tempos
litúrgicos de espiritualidade. Isso tudo significa um empobrecimento
das expressões de fé, da espiritualidade e da doutrina,
em nome de se exorcizar as tradições e querer fazer tudo "novo".
Esquecem, porém, que o novo, em termos de fé, espiritualidade
e doutrina, não se faz com o abandono e o desprezo da tradição. É justamente
esse desprezo da tradição que tem produzido formas doutrinárias
e cúlticas suspeitas ou estranhas em muitas Igrejas que, cada
vez mais, se assemelham a seitas. E mesmo interior de Igrejas podem
se constituir grupos com perfil de seita [1].
Nós não podemos cair na tentação de dizer
não à tradição em nome da renovação.
Enterrar a tradição é levar ao esquecimento
todos os cristãos que vieram antes de nós e que, com
sangue e fidelidade, foram edificando a Igreja cristã, dando
forma à teologia, à doutrina, à espiritualidade.
Parece haver um mal estar geral com tudo que tenha aspecto de tradição.
Os prejuízos são enormes. No lugar da tradição
se colocam, por vezes, teologias que vêm e vão conforme
os ventos de modismos cúlticos, geralmente com fortes apelos às
emoções e êxtases, acompanhados, quase sempre,
por um cristianismo fundamentalista [2] e
puritano [3], que, embora respeitemos,
constatamos que pouco ou nada têm de afinidade com a teologia
e espiritualidade luteranas, pelas quais optamos enquanto membros da
IECLB.
Cremos que negar a tradição é negar a própria
Bíblia, que é fruto da tradição de séculos
e de gerações que, entre si, transmitiram a fé dos
patriarcas e as maravilhas de Deus. A Bíblia é obra da
tradição, assim como a Igreja cristã se mantém
há 2000 anos também devido às tradições
cúlticas (como os sacramentos e suas formas de oração,
pregação, ensino), doutrinárias e espirituais
que passaram de geração à geração.
E nisso tudo há o toque de Deus a sustentar a Igreja. Por outro
lado, Igreja também experimenta renovação. A Bíblia
também é fruto de amadurecimento de fé e teologia
em meio às gerações, que foram lapidando, cada
uma ao seu tempo e circunstâncias, e com o auxílio do
Espírito de Deus, as formas de perceber a Deus e de se relacionar
com Ele. O que importa em tudo isso, portanto, não é o
antagonismo entre renovação e tradição,
mas a circularidade destes elementos, a complementação,
a dialética convivência entre preservação
e inovação.
Esta convivência pacífica entre renovação
e tradição nem sempre é fácil, como também
nem sempre é fácil o diálogo entre gerações
no seio de uma família. Mas é uma convivência complementar
necessária e que deve ser buscada no espírito de diálogo
em humildade. Igreja não se deve edificar "no grito" do
mais forte, ou do majoritário, ou no oportunismo de se querer
mudar tudo na primeira fresta aberta. Nada disso edifica. Igreja é fruto
de mutirão dialogal entre diferentes e entre renovação
e tradição.
Quem
não consegue ver sinais de Deus na tradição não
tem olhos para enxergar todo sustento que Deus deu à Igreja
através de séculos. É como se Deus só estivesse
presente e atuante agora, nas inovações. Todo o resto é negado
como pouco espiritual, como ultrapassado ou como "religiosidade",
dito assim de forma negativa. Em outras palavras: nega-se a ação
do Espírito Santo naquelas formas de piedade, culto, espiritualidade
e teologia que não estão de acordo com as novidades ou
com jeitos de ser cristão modernos ou pós-modernos. Formas
de julgamento - e condenação - de pessoas que são
rotuladas como menos espirituais por terem uma vivência de fé diferente
da nossa podem ser, contudo, um ato de prepotência espiritual
que não cabe ao cristão. Neste sentido temos dificuldade
quando se distingue um culto como "avivado" e outro como "não
avivado". Cremos que, conforme a palavra do Senhor, onde dois
ou três estão reunidos em Seu nome, Ele está presente,
dando vida, bênção, orientação e
santificação. Esta promessa é dele e não
depende do estilo de culto que se faça, de quais músicas
se toquem ou de que tipo de orações e de emoções
- ou falta delas - se tenha. Portanto todo culto feito em Seu nome,
seja de que estilo for, é avivado por seu Espírito Santo. É promessa
dele. Não é a nossa percepção sensorial
que faz um culto ser abençoado, mas o crer na promessa da presença
de Jesus.
Por outro lado os que pretendem sufocar novas maneiras de se viver a experiência
de fé e de se celebrar o louvor a Deus também podem estar se
fazendo surdos e cegos aos sinais de Deus para uma Igreja que fale a linguagem
dos contextos atuais. O que hoje é tradição também
foi novo um dia. As tradições não surgem do nada, não
são eternas. Elas também nascem em contextos específicos.
Queremos terminar dizendo da nossa apreensão com os rumos
da IECLB, que experimenta um cisma lamentável. Tememos os que
não conseguem dialogar desarmados, sejam adultos ou jovens;
os que se fecham em uma única e determinada interpretação
da Bíblia (fundamentalismo bíblico, o que não é e
nunca foi teologia de nossa Igreja), numa única forma de missão,
de culto e de fé como sendo válidos e, neste fechamento,
como donos da única interpretação verdadeira,
se tornam intolerantes ou olham para os que vivem e pensam sua fé de
forma diferente como se fossem menos evoluídos ou menos instruídos
espiritualmente na fé, ou pior, como se lhes faltasse o Espírito
Santo que, é claro, os que se julgam donos da verdade pensam
possuir em maior abundância. Temos receio daqueles que vêem
no diferente um inimigo a ser combatido ou convertido, e não
um companheiro de caminhada que pode acrescentar coisas positivas.
Cada vez mais estamos convictos que a grande graça que Deus
deve conceder a nós, cristãos, é a da humildade
que leva ao diálogo com o diferente, dentro e fora da comunidade.
Intolerâncias e senhorios sobre a verdade sempre causam prejuízos.
Infelizmente, pessoas e grupos na IECLB têm experimentado esse
tipo de "espírito" que, cremos, não é de
Deus, embora possa ter aparência de piedade e zelo.
Não deveria haver uma rivalidade entre renovação
e tradição, mas uma complementaridade. A concepção,
muito difundida no meio evangélico brasileiro, de se combater
as tradições da Igreja leva, tantas vezes, ao sepultamento
de belas, relevantes e necessárias expressões de fé,
espiritualidade e culto, inspiradas por Deus. E a intransigência
em relação às renovações, à formas
novas de expressão de espiritualidade, pode engessar a Igreja
que não se beneficia de novos ares que respondem a contextos
atuais. Renovações, acentue-se, que estejam de acordo
com a espiritualidade e teologia luteranas. Afinal, é nessa
Igreja que decidimos ser membros ou fomos chamados a servir. Que Deus
conceda a todos sabedoria, discernimento e humildade espiritual e dialogal
para a edificação de Sua Igreja.