Pª Vera
Cristina Weissheimer
Um
dos primeiros pastores luteranos que vieram ao Brasil para trabalhar
com os imigrantes alemães chamava-se Jacob Zink. Ele nasceu
em 20 de agosto de 1844 na pequena localidade de Württenberg,
Alemanha, e chegou ao Brasil em 1869 para ser pastor dos luteranos
no interior de São Paulo. As famílias das comunidades,
na região que se estende de Rio Claro a Campinas, trabalhavam
nas fazendas de café.
Difícil era a situação dos colonos, difícil
era a situação do pastor. Para sobreviver, ele fabricava
sabão. A Constituição brasileira da época
dizia que o catolicismo era a religião oficial do Império.
As demais religiões eram apenas toleradas, e os seus praticantes
não tinham cidadania plena. Não podiam ter templos, nem
prédios que se assemelhassem a templos. Ficavam-lhes proibidos
a cruz, os sinos e outros sinais externos de identificação.
Os seus casamentos não eram válidos, e os seus mortos
não podiam ser sepultados nos cemitérios das localidades.
Mas na localidade de Jerônimo, relata o pastor e historiador
Martin Dreher, o pastor Jacob Zink conseguiu construir com os colonos
uma casa simples que servia de capela, e na frente dela colocou uma
cruz de madeira. O delegado de polícia mandou tirar a cruz,
pois a Constituição determinava que os protestantes deveriam
ter seus cultos “em casas para tanto destinadas, sem qualquer
forma exterior de templo”.
O que fazer? O pastor tomou pedacinhos de madeira, uniu com eles os
quatro cantos da cruz e disse: agora é uma pipa (pandorga),
não é mais uma cruz! E a pipa ficou na parte frontal
da casinha de madeira. O delegado, quando foi dar uma olhada, não
teve argumentos, mas deve ter achado muito do maluco aquele pastor
com a sua pipa.
Como os primeiros cristãos, que secretamente usavam o peixe
como símbolo para se mostrarem uns aos outros, aquela comunidade
via no centro da pipa a cruz e reconhecia a sua igreja. E o delegado
deixou que a pipa ficasse.
Sem dúvida uma história de fé e coragem. Coragem
de se assumir como Igreja num mundo e numa época muito difíceis.
Um mundo onde fazer parte de uma igreja protestante podia virar caso
de polícia. Levar a cruz a sério significava assumir
riscos. Se nossos tempos nos parecem difíceis, imagine então
os tempos do pastor Zink.
Atualmente, as igrejas já não podem mais contar só com
a tradição familiar para se manter. Nas grandes cidades,
nem sempre – ou, melhor dizendo, quase nunca – os filhos
seguem a religião dos pais.
Falar de Igreja hoje é falar de uma profunda paixão.
Dificilmente alguém filia-se a uma Igreja por motivos racionais – pode
até acontecer, mas a maioria filia-se mesmo por paixão.
Depois, e se desejar, encontrará alguma racionalidade para a
sua paixão. Sem essa paixão não há filiação.
E, paixão, meu amigo e minha amiga, não se ensina. Paixão
se vive. Paixão contagia, seduz.
A fé precisa nascer a cada geração. Se os filhos
não forem chamados de forma individual pela Igreja, não
experimentarão a religião dos pais. E não basta
que os filhos simplesmente reproduzam a religião da família. É necessário
que experimentem com intensidade a sua vivência com Deus.
Somos Igreja e às vezes temos vontade de voltar atrás,
porque a tarefa é grande. O profeta Jeremias, em meio a seu
cansaço de tanto trabalhar (20.7ss), responde a Deus: “Me
seduziste, ó Senhor, e eu me deixei seduzir. Foste mais forte
do que eu e venceste.” Como o profeta, não é possível
voltar atrás, apesar do cansaço e do desânimo.
A situação do profeta nos mostra que a lamentação
e a angústia também fazem parte da vida de fé.
Haverá aqueles dias em que desejaríamos nunca ter ouvido
falar de Deus, porque isso nos tiraria dos ombros o peso do trabalho
que temos pela frente. Mas Deus é mais forte, a sua paixão
por nós é mais forte. É uma paixão que
nos seduz e inflama. Deixar-se seduzir é sonhar com possibilidades.
Ser Igreja é arriscar ser a Igreja da pipa e da esperança
em meio ao asfalto, ao pó, aos barracos, aos prédios
monumentais.
Ser Igreja é amassar a uva juntos para poder festejar o vinho
depois.
Muitas vezes nos cansamos, porque vemos que as pessoas querem somente
a pipa, o papel colorido, as facilidades, a alegria, a possibilidade
de voar alto. Encarar a cruz não é fácil. Encará-la
nos faz ver que ela está vazia. E aí nos vem a boa nova:
Jesus já morreu por nós. Então descobrimos que,
por mais que estejamos carregando pesada cruz, não precisamos
morrer com ela ou por ela: Cristo já o fez, por mim e por ti.
Encarar a cruz por detrás da pipa é isso: é denunciar, é abrir
os olhos para as chagas da humanidade. Ser Igreja de verdade não é fácil,
principalmente porque nos compromete com o outro.
A Igreja precisa ser esse lugar onde nossas esperanças ganham
asas, onde nossos lamentos possam ser deixados, onde possamos voar
alto, mas sempre presos ao fio de linha conduzido por mão forte
do “valente guerreiro que está ao nosso lado” (Jeremias
20.11). Nós somos também a Igreja da pipa, sem perder
de vista a cruz que a sustenta e a faz voar.