Stephen Kanitz *
"Embora o Brasil forme
administradores
públicos competentes, eles são os primeiros
a ser preteridos para os principais cargos
da administração pública"
Um país do tamanho do Brasil, com os recursos
naturais e a população que tem, não é exatamente
um país com problemas econômicos.
Somos, sim, um país muito mal administrado. Não
sabemos administrar os Estados, não sabemos administrar nossas
dívidas, não sabemos administrar nossa previdência
nem nossa segurança.
Nossos governantes e ministros normalmente não
são formados em administração nem fizeram aqueles
cursos de MBA que proliferam por aí.
A maioria dos nossos ministros nunca trabalhou numa das
500 maiores empresas do país, nem como presidente nem como diretor.
Fernando Henrique Cardoso teve como ministros muitos professores brilhantes,
que administravam sessenta obedientes alunos e de um momento para o
outro passaram a administrar mais de 5.000 funcionários públicos,
sem formação em administração, recursos
humanos, motivação, liderança nem avaliação
de desempenho. Teriam sido bons assessores, não executivos.
Embora o Brasil forme administradores públicos
competentes, eles são os primeiros a ser preteridos para os principais
cargos da administração pública. O escolhido é
amigo de campanha ou colega da época estudantil.
Os Estados Unidos são a maior potência econômica
não pela qualidade de suas teorias econômicas, mas pela
qualidade de suas teorias administrativas. Algumas são modismos,
outras funcionam.
Embora a imprensa americana sempre se refira ao governo
como administração Bush ou "the Clinton administration",
poucos jornais brasileiros usariam a expressão administração
Cardoso para descrever nosso governo. Lacan explica.
Quarenta por cento dos colunistas americanos são
gurus de administração, como Peter Drucker, Tom Peters
e Michael Porter, que disseminam diariamente o mantra da eficiência,
competência e boa administração. No Brasil, eles
são substituídos por ex-ministros que escrevem justificando
seus erros no governo e sobre como se deveria "administrar"
o estrago que deixaram.
Em pleno século XXI, temos pouquíssimos
administradores com uma coluna fixa na grande imprensa brasileira. Todo
jornal brasileiro tem seu caderno de economia. Por que não criar
os cadernos de engenharia, de sistemas, de advocacia ou de administração
para poder ouvir as outras profissões que têm contribuições
a dar sobre os problemas do país?
No rol dos alunos famosos da Harvard Business School
há dezenas de ministros que serviram ao governo. George W. Bush
foi meu calouro em Harvard, onde ele aprendeu a defender a indústria
americana como ninguém, algo que Fernando Henrique Cardoso obviamente
não aprendeu em seu curso de sociologia. O problema de Bush é
que Harvard não nos ensina a fazer guerra, matéria em
que Saddam Hussein e Osama bin Laden são professores. Ele poderia,
confesso, ter tido algumas aulas de relações exteriores.
Nunca
tivemos no Brasil um presidente formado em administração
nem que tenha sido presidente de uma das 500 maiores empresas privadas
antes de dirigir todo um país. Criticaram Lula, mas ele poderá
ser o primeiro presidente a ter pelo menos trabalhado numa das 500 maiores
empresas privadas do Brasil, as Indústrias Villares.**. Vamos
manter essa inovação em 2006.
O presidente Vicente Fox, do México, por ter sido
presidente da Coca-Cola, aprendeu a negociar duro com os americanos.
Muitos de seus ministros foram escolhidos de forma profissional, por
uma empresa de headhunting, a Korn/Ferry International, que vasculhou
o país à procura dos mais competentes executivos mexicanos.
Em dois anos, o PIB do México já ultrapassou o do Brasil,
embora não somente por essa razão.
Vamos torcer para que o próximo presidente e os
próximos governadores não se atenham somente a seus amigos
de campanha ou a pessoas sem experiência nem formação
em administrar enormes organizações.
Vamos rezar para que sejam escolhidos para o primeiro
escalão do governo executivos de primeira e ministros com experiência
administrativa, que tomem decisões não por critérios
políticos, mas por critérios de custos e eficiência.
**Tivemos dois presidentes que trabalharam em estatais.
*
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1772, ano 35, nº 31, 9 de outubro de 2002.