Stephen Kanitz *
Ambição
é tudo o que você pretende fazer na vida. São seus
objetivos, seus sonhos, suas resoluções para o novo milênio.
As pessoas costumam ter como ambição ganhar muito dinheiro,
casar com uma moça ou um moço bonito ou viajar pelo mundo
afora. A mais pobre das ambições é querer ganhar
muito dinheiro, porque dinheiro por si só não é
objetivo: é um meio para alcançar sua verdadeira ambição,
como viajar pelo mundo. No fim da viagem você estará de
volta à estaca zero quanto ao dinheiro, mas terá cumprido
sua ambição.
As pessoas mais infelizes que eu conheço são as mais
ricas. Quanto mais rico, mais infeliz. Nunca me esqueço de um
comentário de uma copeira, na casa de um empresário arquimilionário,
que cochichava para a cozinheira: "Todas as festas de rico são
tão chatas como esta?" "Sim, todas, sem exceção",
foi a resposta da cozinheira.
De fato, ninguém estava cantando em volta de um violão.
Os homens estavam em pé numa roda falando de dinheiro, e as mulheres
numa outra roda conversavam sobre não sei o que, porque eu sempre
fico preso na roda dos homens falando de dinheiro.
Não há nada de errado em ser ambicioso na vida, muito
menos em ter "grandes" ambições. As pessoas
mais ambiciosas que conheço não são os pontocom
que querem fazer um IPO (sigla de oferta pública inicial de ações)
em Nova York. São os líderes de entidades beneficentes
do Brasil, que querem "acabar com a pobreza do mundo" ou "eliminar
a corrupção do Brasil". Esses, sim, são projetos
ambiciosos.
Já ética são os limites que você se impõe
na busca de sua ambição. É tudo que você
não quer fazer na luta para conseguir realizar seus objetivos.
Como não roubar, mentir ou pisar nos outros para atingir sua
ambição. A maioria dos pais se preocupa bastante quando
os filhos não mostram ambição, mas nem todos se
preocupam quando os filhos quebram a ética. Se o filho colou
na prova, não importa, desde que tenha passado de ano, o objetivo
maior.
Algumas escolas estão ensinando a nossos filhos que ética
é ajudar os outros. Isso, porém, não é ética,
é ambição. Ajudar os outros deveria ser um objetivo
de vida, a ambição de todos, ou pelo menos da maioria.
Aprendemos a não falar em sala de aula, a não perturbar
a classe, mas pouco sobre ética. Não conheço ninguém
que tenha sido expulso da faculdade por ter colado do colega. "Ajudar"
os outros, e nossos colegas, faz parte de nossa "ética".
Não colar dos outros, infelizmente, não faz.
O problema do mundo é que normalmente decidimos nossa ambição
antes de nossa ética, quando o certo seria o contrário.
Por quê? Dependendo da ambição, torna-se difícil
impor uma ética que frustrará nossos objetivos. Quando
percebemos que não conseguiremos alcançar nossos objetivos,
a tendência é reduzir o rigor ético, e não
reduzir a ambição. Monica Levinski, uma insignificante
estagiária na Casa Branca, colocou a ambição na
frente da ética, e tirou o Partido Democrata do poder, numa eleição
praticamente ganha, pelo enorme sucesso da economia na sua gestão.
Definir cedo o comportamento ético pode ser a tarefa mais importante
da vida, especialmente se você pretende ser um estagiário.
Nunca me esqueço de um almoço, há 25 anos, com
um importante empresário do setor eletrônico. Ele começou
a chorar no meio do almoço, algo incomum entre empresários,
e eu não conseguia imaginar o que eu havia dito de errado. O
caso, na realidade, era pessoal: sua filha se casaria no dia seguinte,
e ele se dera conta de que não a conhecia, praticamente. Aquele
choro me marcou profundamente e se tornou logo cedo parte da ética
na minha vida: nunca colocar minha ambição na frente da
minha família.
Defina sua ética quanto antes possível. A ambição
não pode antecedê-la, é ela que tem de preceder
à sua ambição.
*
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1684, ano 34, nº 03, 24 de janeiro de 2001.