Stephen Kanikz *
Antigamente, a solução para se aposentar
com dignidade era ter muitos filhos, o que trouxe explosão demográfica,
pobreza e miséria. Por isso, a maioria dos países criou
um sistema de aposentadoria e proteção social chamado
Sistema por Repartição Social. Nele, todos os jovens contribuem
igualitariamente para que todos os velhos possam se aposentar com dignidade.
É um sistema coletivo, que segue o princípio social de
"cada um de acordo com sua capacidade contributiva, para cada um
de acordo com sua necessidade social". Quem ganha mais contribui
mais, mas não recebe mais na aposentadoria, como seria num sistema
capitalista. Muitos brasileiros acham que estão contribuindo
para sua própria aposentadoria e por isso teriam um direito adquirido
de se aposentar, mas esse não é o espírito do sistema.
As contribuições são para pagar os atuais aposentados,
e não para criar um fundo para a própria aposentadoria,
tanto é que o governo nunca o criou. Nesse sistema, o que entra
sai, não há acumulação capitalista. Os que
contribuem hoje simplesmente torcem para que a nova geração
seja tão generosa quanto nós fomos e que contribua para
que possamos nos aposentar. Esse sistema foi instituído quando
havia 33 jovens contribuindo para cada aposentado, mas hoje são
três jovens para cada aposentado, razão do déficit
e da preocupação do ministro da Previdência.
Alguns intelectuais marxistas estão agora argumentando que só
se tem direitos adquiridos sobre bens, não sobre seres humanos.
Argumentam que ninguém pode ser obrigado a pagar a aposentadoria
de outro. Segundo Friedrich Hegel, o grande mentor de Marx, só
se tem direitos adquiridos sobre a casa que se construiu, o dinheiro
que se poupou, mas ninguém tem direitos adquiridos sobre a renda
de futuras gerações. Rui Barbosa, que era liberal, defendeu
a mesma tese com relação aos negros quando a classe escrava
queria indenização: "Não há direito
adquirido sobre seres humanos". Citam também a lei romana
Poetelia Papiria, de mais de 2.400 anos, que proíbe escravizar
pessoas por dívidas.
Por outro lado, muitos funcionários públicos, juízes
e professores universitários, como eu, aceitaram os salários
mais baixos do serviço público pela perspectiva de uma
aposentadoria integral. Fizemos um contrato social com a futura nova
geração, ela não pode agora nos deixar morrer de
fome.
O outro sistema muito usado no mundo, seja no setor público,
seja no privado, é o Sistema por Provisão Solidária.
Cada geração poupa coletivamente ao longo dos anos para
prover os gastos inevitáveis na velhice, sem ter de depender
das contribuições futuras dos jovens. É um sistema
cooperativo em que cada geração gera e guarda os recursos
necessários para sua velhice. É eminentemente solidário
porque, se, por azar, você morrer um ano antes de se aposentar,
seu capital não volta para sua família, como voltaria
num sistema capitalista e individualista. Seu dinheiro é mantido
solidariamente para custear os companheiros mais longevos, segundo um
cálculo atuarial.
Os recursos são administrados por uma cooperativa de poupança,
também chamada de fundo de pensão, em que todos são
donos, ou então pelo Estado segundo os critérios estipulados
pelo artigo 201 da Constituição, que ninguém lê.
O dinheiro fica investido normalmente por trinta anos, em grandes projetos
sociais de infra-estrutura de longa duração. Esses investimentos
geram empregos para a nova geração, sem precisar de capital
estrangeiro, dívidas externas, FMI, crises cambiais, fontes de
vários de nossos problemas.
Na Provisão Solidária, os direitos adquiridos são
sempre assegurados, o direito de reaver os investimentos na forma de
um pagamento mensal, embora o valor exato dependa da gestão da
cooperativa ou do gestor público.
Um problema na discussão atual é que muitos brasileiros
influentes querem mudar o sistema, mas nem sabem qual é o sistema
que adotamos. Repartição Social e Provisão Solidária
são duas filosofias de prática social e políticas
públicas distintas, dois conceitos de solidariedade e sociedade
bem diferentes, que geram resultados sociais e econômicos bem
diversos. Ambos têm leais defensores, e um grande problema. A
nova geração não consegue contribuir para os dois
sistemas ao mesmo tempo, como querem alguns.
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Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1790, ano 36 nº 31, 19 de fevereiro de 2003.