Stephen Kanitz *
Uma
das frases mais infelizes proferidas por Peter Drucker, o badalado guru
internacional de administração, é: "Marketing
é tudo aquilo que se faz numa empresa para tornar vendas desnecessárias".
Provavelmente, Drucker se referia ao esforço de pré-venda,
mas levaram sua idéia ao extremo.
Ninguém acha mais necessário vender à
moda antiga, mostrando os detalhes do produto, suas funções
e qualidades, ou respondendo às perguntas dos clientes. Para
quê? Segundo a lógica vigente, com um bom diretor de marketing
a empresa contratará uma brilhante agência de propaganda,
que elaborará uma fantástica campanha de televisão,
que por sua vez fará a cabeça dos consumidores, que arrombarão
as portas dos supermercados, pegarão o produto direto da prateleira
e o levarão sem questionamento ao caixa para o devido pagamento.
Não há mais necessidade de vendedor. E a próxima
etapa da estratégia já está em curso: eliminar
até o supermercado ou o "ponto-de-venda" e passar a
"vender" tudo pela internet. Nem o contato com o cliente será
mais necessário.
Noventa e nove por cento dos sites de comércio eletrônico
nem foto de seus produtos oferece – no máximo uma 3 por
4, feita de um lado só. Eles não têm telefone para
tirar dúvidas antes da compra. É de propósito,
pois não querem lhe vender nada, só querem que você
compre tudo. Quando existe o telefone, não existe a telefonista.
Em seu lugar, computadores, que mandam você apertar 1, 2, 3, 4
ou 5 para falar com ninguém. Mesmo as lojas especializadas, que
vendem todos os produtos de um segmento específico, simplesmente
disponibilizam uma enorme variedade de alternativas concorrentes, mas
a maioria dos vendedores não tem a menor idéia das diferenças
entre elas. Eles torcem para que "vendas sejam desnecessárias"
e para que você não faça nenhuma pergunta complicada.
As empresas se esqueceram de como vender seus produtos e muitas delegaram
essa função a uma empresa terceirizada de CRM (ou seja,
de relacionamento com clientes). Rebaixaram o diretor de vendas ao nível
de subgerente, confiaram nas promessas do marketing científico
e da propaganda.
Estamos no caminho errado. Precisamos voltar a valorizar as equipes
de vendas como se fazia no passado, voltar a contratar pessoas que saibam
vender e não somente tirar pedidos.
Talvez essa seja a razão da queda da publicidade na maioria
dos jornais e na televisão. Nem nossos comerciais sabem mais
vender o produto, só sabem criar emoções, sensações
positivas, marcas "amigas" ou "socialmente responsáveis".
Vender o produto é hoje considerado démodé. A impressão
que o consumidor tem é a de que todo produto é exatamente
igual, o que muda são as "emoções" escondidas
nos anúncios. Vende-se um estilo de viver, uma atitude perante
a vida, mas o produto em si, nem pensar. Eu já ouvi, de um famoso
publicitário, que empresas não deveriam mais vender o
seu produto, mas sim a sua responsabilidade social. "Tem muito
mais emoção", disse ele. A que ponto chegamos!
Por isso tem tanto consumidor confuso por aí, por isso há
tanta gente postergando consumo, sem saber que produto comprar, como
decidir entre as dezenas de alternativas, sem a informação
necessária para avaliar.
Sempre recomendo aos filhos dos meus amigos que façam um curso
de técnicas de vendas, qualquer que seja a profissão que
pretendam seguir. Aqueles cursos bem pé-no-chão, dados
antigamente a vendedores de enciclopédias. Recomendo também
que façam um estágio numa loja de varejo para sentir o
que é colocar a barriga num balcão. Saber vender e se
vender é absolutamente essencial na vida. Costumo dizer que tímidos
são aqueles que não aprenderam a se vender. Chatos são
aqueles que se vendem demais. Se você é tímido,
não se preocupe, um bom curso de técnicas de vendas resolverá
o problema. Se você é um chato, não há solução.
Se a sua empresa não está crescendo, talvez o problema
não seja a política econômica do ministro Palocci,
a taxa de juros ou o câmbio. Provavelmente você é
mais um daqueles que se esqueceram de que vendas é tudo aquilo
que é preciso fazer para que uma venda seja concretizada.
*
Stephen Kanitz é administrador por Harvard (www.kanitz.com.br)
Artigo Publicado na Revista Veja,
edição 1902, ano 38, nº 17, 27 de abril de 2005,
página 18.