Walter L. Berner *
Ex
20, 4: “Não farás para ti imagem esculpida, nem
figura alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na
terra, nem nas águas debaixo da terra”.
Lv 26,1-2: “Não façais para vós falsos
deuses. Não levanteis para vós ídolos ou colunas
sagradas. Não coloqueis em vosso país nenhuma pedra esculpida
para vos prostrardes diante dela, porque eu sou o Senhor vosso Deus.
Guardai meus sábados e respeitai o meu santuário. Eu sou
o Senhor”.
E ainda: Do Catecismo de Lutero: Primeiro Mandamento Eu sou o Senhor,
seu Deus. Você não deve ter outros deuses além de
mim.Que significa isto? Devemos temer e amar a Deus e confiar nele acima
de tudo. Segundo Mandamento Não abuse do nome do Senhor, seu
Deus, porque o Senhor não considerará inocente quem abusar
do seu nome. Que significa isto? Devemos temer e amar a Deus e, por
isso, em seu nome não amaldiçoar, jurar, praticar a magia,
mentir ou enganar;mas devemos pedir a sua ajuda em todas as necessidades,
orar, louvar e agradecer.
Diante destas verdades, é patente que qualquer “manifestação
para fins venerativos” de imagens ou ícones, certamente
estaria incorrendo numa “idolatria” inconteste, e provocando
a ira de Deus. (Confira Dt 27,15).
Contudo, buscando um pouco das origens, da história enfim,
o ser humano sempre se expressou por imagens, símbolos, e traços,
antes mesmo de criar um alfabeto (símbolos para os sons vocais),
e isto remonta a 35.000 anos nas recém descobertas arqueológicas,
aqui no Brasil, e em outras áreas, nas famosas grutas de Lascaux
e Altamira, a 17.000 anos antes de Cristo.
Estas imagens, lá gravadas com pigmentos naturais são
até hoje, registro de indiscutível valor artístico,
mas acima de tudo o único documento histórico que “não
carece de tradução literal” dos hábitos,
costumes e vida daqueles habitantes “homo”. Poderíamos
“caminhar” um pouco mais através destas belíssimas
histórias das artes visuais (quem, quando, onde, porque e para
que...) mas nosso espaço remete a uma reflexão mais contemporânea,
mais próxima da Renascença, e o Barroco.
Enfim, podemos propor uma retrospectiva pouco antes da época
da Reforma:
Lá pelos idos de 1055 houve uma das “cisões”
da Igreja. Instalam-se duas vertentes: A Igreja Católica Latina,
ou Romana (Ocidental), e a Igreja Católica Bizantina ou Ortodoxa
(Oriental).
Neste momento, a Igreja Romana dispensa, por assim dizer, os cânones
da “arte Sacra”, e os artistas de então (idade média...
Renascença), até as atuais manifestações
(Impressionismo, Iluminismo, Contemporâneos), têm a relativa
“liberdade de expressão”, promovendo-se largamente
a reconhecida “arte religiosa”, na qual prevalece a qualidade
profissional do Artista e sua contratação “a preço”,
em detrimento de sua espiritualidade e envolvimento na “causa
missionária da mensagem divina”.
Isto, como dito, toma uma envergadura bastante relevante, principalmente
na Renascença (e no Barroco), nos séculos XIV a XVII,
mais precisamente quando se instaura a Reforma Protestante (que prefiro
sintetizar em “reforma da Igreja Mãe”, ou como bem
dizia Lutero: “Assim Deus seja louvado, pode-se reconhecer de
novo a forma de uma igreja cristã”. (WA 30/III,15 = “M
Lutero, pág 296). Nesta oportunidade, bem o sabemos, entre as
muitas questões envolvidas, destacam-se as suntuosas arrecadações
(Indulgências) para financiar as gigantescas obras da Igreja Romana,
mas não só dela, como as Igrejas de outros Condados, Feudos,
e Cortes.
Estamos novamente diante de uma questão bastante polêmica.
O que se denota desta caminhada, é que passa-se a ter duas
vertentes de manifestação visual, como anteriormente citado:
A Arte Sacra, e a Arte Religiosa.
A Arte Sacra remonta aos idos anteriores a Idade Média, quando
a expressão desta Arte se fazia principalmente para registrar
fatos e episódios, ou histórias, bíblicas, em que
o Artista, ciente de sua fé (ou não), interpretava tais
temas à luz da Mensagem. Ou então, para Veneração
ao Único Senhor, Deus o Criador. Isto é, sintetizando
em duas maneiras de me expressar:
1. Arte é o caminho mais curto e mais sublime de aproximar
os homens de Deus.
2. Arte é compreensão, comunhão com Deus e a Natureza.
Refletindo nestas duas frases, complemento que “Arte Sacra é
o ‘religar’ (“religare”), ou seja: A Religião
que expressa toda interação, toda comunhão da criatura,
com o Criador, através da linguagem visual plástica e
sensorial”.
A Arte Religiosa nos transporta para a renascença, mais precisamente
naquela época da dita “reforma protestante”, e um
pouco antes, quando a Igreja Romana contrata grandes Artistas (só
para citar alguns: Leonardo Da Vinci; Michelangelo; ............), para
que em diversas áreas como na música, na arquitetura e
nas artes plásticas, possam, devidamente remunerados, expressar
seus conhecimentos técnicos e artísticos em prol do “antropocentrismo”
extravagante. Como disse Pastro: “De alguma forma o homem construía
o ‘seu céu’”.
Residiu (e reside até hoje) aí uma das grandes polêmicas
nas comunicações artísticas (ouso dizer, em todas
elas): A criatura quer ser mais que o Criador.
Esta é novamente uma linha de discussão...
As comunicações artísticas englobam vertentes
mais expressivas: A música, as Letras, a expressão corporal,
as artes plásticas, enfim, diria:
A comunicação Visual e Sensorial. Neste sentido, a Arte
enquanto Sacra, carece de uma conscientização de seu(s)
autor(es), de que está a serviço do Criador, e não
da criatura, como elo de aproximação através de
imagens, gestos e sons que facilitam a outras criatura de conhecerem
mais facilmente e mais universalmente a Palavra em sua essência
e transparência:
A Palavra é essencialmente uma experiência de vida que
nos é trazida como um espelho, no qual nos vemos sempre “virtualmente”,
para que entendamos o nosso verdadeiro “ser” em verdade.
Sim, através desta “comunicação visual
e sensorial” cada pessoa (temente a Deus ou ateu) tem mais uma
oportunidade ímpar, e sem igual, de se aproximar da Palavra de
Deus.
As histórias e depoimentos, não poucas vezes, revelam
como as imagens e registros visuais podem transcender a mil palavras.
Disse Papa Gregório Magno (sec. VI d.C) “a pintura pode
fazer pelo analfabeto o que a escrita pode fazer pelos que sabem ler”.
(Entenda-se “analfabeto” o desconhecimento de determinada
língua).
Na reflexão proposta “A ARTE SACRA NO CONTEXTO LUTERANO”
não se precisa ter preocupação portanto com conceitos
fundamentalistas ou apologéticos de “idolatria”,
mas como um importante veículo de comunicação a
seu dispor. Não apenas no sentido da “panfletaria”,
ou ilustração literária, ou mera “decoração”,
mas como parte integrante do acervo eclesial, especialmente no litúrgico.
Relembro as citadas palavras de Lutero:
“...Isto seria uma Oba cristã... As imagens
são uma pregação para os olhos”
({ WA 18, 83} in Marc Lienhard, pág.128).
Aparte disto tudo, lembro de duas “Portas quebra-vento”
na entrada da Igreja Luterana em Petrópolis. São dois
singelos Vitrôs. Muitos passaram durante “anos” por
estas portas, e jamais “se tocaram” do quão belo
e expressivo elas são: O Vitrô da direita é uma
imagem do Apóstolo Paulo sustentando uma Bíblia; o da
esquerda é a imagem de Moisés com a Tábua. Quanta
estória e quanta história, podemos contar e refletir “apenas”
com estas duas magníficas Obras produzidas (interpretadas) por
Carlos Oswald, um dos maiores Artistas de Arte Sacra e Gravurista do
séc XX, com curta passagem por esta cidade: Um é o mensageiro
das leis mosaicas; o outro... a mensagem viva de Cristo. Ambos representam
a Palavra Divina... Contemple a foto. (foto W.L.Berner 2001) . Lembra-nos
Augusto Cury, em seu livro “Mestre da Vida”, (pág.
182) ao referir-se a Jesus: “Sinto-me limitado para descrever
a grandeza e os mistérios que cercam a mente de Jesus Cristo.
De cada frase que proferiu poderíamos escrever um livro. De cada
silêncio, uma poesia. De cada controle da emoção,
um princípio de vida. Sinceramente, os recursos lingüísticos
para descrevê-lo são restritos”.
Sim, “os recursos lingüísticos para descrevê-lo
são restritos”. Sem dúvidas, principalmente se for
desejado “universalizar” a Palavra e a vida de Cristo, não
existiriam páginas suficientes para descrever este “MESTRE”
a quem se refere Dr Cury, a quem nos revela a Bíblia. No entanto,
quer sejam Obras Religiosas ou Obras Sacras, estas sintetizam toda a
Mensagem sobre uma única Tela, ou sobre uma única Escultura:
Confira “A volta do Filho Pródigo” de Rembrandt (séc
XVII) ou “a Pietá” de Michelangelo (séc XVI).
Além de tudo, a criatividade do Artista quando interpreta um
tema, ciente de sua responsabilidade frente à comunicação,
e a importância que ele exerce no espectador, transcende a toda
e qualquer palavra, em qualquer idioma, e permite a este espectador
o devaneio da imaginação.
Diz-nos o Psicanalista Dr Cury, em seu livro “Inteligência
Multifocal” (pág 31): “...quando procuramos contemplar
e compreender o espetáculo da construção dos pensamentos,
não podemos deixar de nos encantar com a obra-prima da mente
humana”.
... E complemento esta primeira reflexão:
1. “O mundo das artes é o devaneio da criatividade proveniente
do Criador Supremo, de Deus”.
2. “Comunicar-se através da arte é um privilégio
daquele que se encoraja na prática e na vontade de externar seus
sentimentos para que seja visto, ouvido, e até sentido”.
Através das Artes visuais e sensoriais, quer sejam nos vitrôs;
nos hinos sacros; nas interpretações teatrais e de dança
litúrgica; nos paramentos; nos elementos do Altar, nos símbolos
do Calendário Litúrgico, (como árvore da Páscoa;
coroa de Advento; árvore de Natal...); nas arquiteturas de Templos
e suas Torres, já se está veiculando a Palavra, mas carece
que cada representação desta tenha a devida e correta
correlação.
É de se salientar ainda que através destas manifestações
sacras se propõe uma perpetualização, ou no mínimo
uma sustentação (enquanto dure), da pura e verdadeira
Mensagem.
Bibliografia:
Lienhard, Marc / Martim Lutero - Tempo, Vida
e Mensagem / Sinodal – IEPG; 1998.
Bíblia RA / SBB.
Bíblia Vozes / CD Seafox.
Lutero, Martinho - trad. Schüler, Arnaldo / Os Catecismos / Concórdia
e Sinodal 1983.
Pastro, Cláudio / Arte Sacra / Paulinas 2001.
Cury, Augusto / Análise da Inteligência de Cristo - O Mestre
da Vida / Cia da Inteligência 2003.
Cury, Augusto / Inteligência Multifocal / Cia de Inteligência
2003.
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