Walter L. Berner *
(Sl 78, 1-8a) História da ingratidão de Israel Poema
didático de Asaf. "Escuta minha doutrina, povo meu, presta
ouvido às palavras de minha boca! Vou abrir a boca para um provérbio
e enunciar enigmas de tempos idos. O que ouvimos e aprendemos, o que
os pais nos contaram, não o ocultaremos aos filhos, mas o transmitiremos
à geração seguinte: os feitos gloriosos do Senhor,
seu poder e as maravilhas que operou. Estabeleceu um estatuto em Jacó
e deu uma lei a Israel. Mandou a nossos pais que o ensinassem aos filhos,
para que a geração seguinte o aprendesse, e os filhos
que haviam de nascer, quando crescidos, o transmitissem a seus filhos,
para que pusessem em Deus sua confiança e não se esquecessem
dos feitos de Deus, mas guardassem seus mandamentos..."
Esta, entre muitas passagens, mesmo sendo um Saltério, quer
em suas "entrelinhas" narrar e exemplificar a grande experiência
na libertação de Israel da escravidão no Egito,
assim como encontramos várias manifestações ao
longo da Bíblia em que as gerações foram instruídas
e admoestadas com base no passado para a vida no presente, remetendo
ensinamentos para o futuro.
Este
texto é citado por Mateus, quando revela:
Mt 13, 34-35: Jesus ensina em parábolas. "Tudo isso Jesus
falou à multidão em parábolas e nada lhes falava
sem parábolas, para que se cumprisse o que foi dito pelo profeta:
Começarei a falar em parábolas,e anunciarei as coisas
ocultas desde a criação do mundo.
Ao refletir sobre estas duas passagens bíblicas, e a "estratégia
pedagógica e didática" de Jesus, através das
parábolas, podemos imaginar com facilidade, como a imaginação
humana é fértil para compor uma imagem, mesmo que "virtual",
facilitando o entendimento da mensagem pretendida. Os eloqüentes
oradores e especialistas em retórica, sabem perfeitamente que
a mensagem que se pretende veicular, não está na eficiência
de quem a transmite, mas no quanto o ouvinte consegue assimilar, o que,
obviamente e conseqüentemente, atinge ao público de diferentes
maneiras.
As Artes visuais e sensoriais trazem consigo a eficácia da
transmissão dos dados, não em forma linear (literal, verbal),
mas em "bloco", isto é: transmite sua "mensagem"
de forma global e não analítica. Betty Edwards, esclarece
quando nos fala dos dois hemisférios cerebrais: "...O seu
cérebro direito é não-verbal, intuitivo; ele pensa
em padrões e imagens compostas de 'coisas inteiras'..."
Assim somos, quando permitirmos que a criatividade, o devaneio, o
êxtase, e mais quantos sentidos que nos envolvem, nos transporte
para a compreensão de fatos, carecemos da estimulação
do cérebro situado no hemisfério direito, isto é,
deixamos a razão (a matemática), e aceitamos ou assumimos
a sensibilidade sensorial da imagem panorâmica total. Daí
a importância da mensagem transmitida através do visual
pleno: A Obra de Arte (pintura, escultura, arquitetura...).
Mas, ... O que nos "falam" os músicos? Como pode
em sã "racionalidade matemática" um Músico
interpretar um grande Mestre como Bach, Beethoven, Händel, Schubert,
Vivaldi, e outros tantos?
Estes Músicos e suas complexas partituras não poderiam
inserir harmonia, cor, sensibilidade, sem que fizessem suas "leituras"
em plena sintonia com o hemisfério direito do cérebro...
E quando foi que a Música tomou uma posição mais
destacada nas Artes Sacras?
As Artes Sacras através da Música. Buscando
informações nesta área, encontrei o seguinte: "Dario
Pires de Araújo, é pastor e professor, tendo exercido
seu ministério e magistério já por 37 anos em diversas
instituições e igrejas. Concluiu Teologia em 1957, em
1962 o curso de Educação Musical na "Caetano de Campos"
e, no ano seguinte, o curso de Violino no Conservatório Dramático
e Musical de São Paulo".
Este temente a Deus, define com grade propriedade a "música
sacra", quando diz:
"A Bíblia é a Sagrada Escritura que veio de um Deus
santo através de "homens santos de Deus" que "falaram
inspirados pelo Espírito Santo" (II Pd.1,21); assim também
a música sacra provém de um Deus santo e é um instrumento
de salvação no mundo. Os homens e mulheres que a compõem
e executam, se forem mordomos cristãos, reconhecerão que
ela é legitimamente usada quando não for objeto de exploração
comercial com vistas a lucros e enriquecimento próprios, e sim,
usada na grande causa divina de salvação".
Carecemos de retornar à história e perceber que exatamente
no séc. XVI, isto é, no auge da Reforma, a manifestação
de Louvor a Deus vem tomar destaque no ceio das famílias e no
Culto, exatamente pela cisão da Igreja Cristã, como vimos
anteriormente, e que se projeta aos idos de 1050.
Sim, Lutero foi a seu tempo o principal protagonista do Louvor a Deus
(também) através da Música. Não creio ser
necessário remontar aos hinos de Louvor evidentes nos Salmos
e em outros momentos, tanto no Antigo Testamento, como no Novo Testamento.
Basta que façamos uma conferência especial no Salmo 150,
que certificaremos a importância da música no louvor divino.
Ou ainda uma profunda análise do "Magnificat", ou "Cântico
de Maria" (Lc 1,46-56), belissimamente interpretado pelos grandes
Compositores.
Carece no entanto, atenção redobrada para o que nos
esclarece Pastor Dario Araújo, supra citado, de que a Música
Sacra, a exemplo de nosso grifo inicial nas Artes Plásticas,
precisam estar isentas de qualquer especulação comercial.
Com relação ainda à música, e diante das
extensas matérias e depoimentos a respeito, abro a "terceira
reflexão" após esta inserção abaixo:
O protestantismo no incentivo ou na contenção
de movimentos artísticos
(Paulo Victorino 08/2004)
... Isto posto, vamos ao assunto proposto, qual seja, o protestantismo
no incentivo ou na contenção de movimentos artísticos.
Busquei em vão achar manifestações artísticas
válidas nos países ou agrupamentos de formação
protestante. Elas simplesmente não existiram, ou ficaram restritas
à música e à literatura, ainda assim quando se
prestavam aos propósitos de preservação e propagação
do sistema doutrinário vigente em cada denominação
evangélica. A dança sempre foi proibida como manifestação
carnal; a pintura e a escultura lembravam a veneração
à imagem, por extensão, à idolatria.
Muito ao contrário, a igreja católica, e a ortodoxa
também, usaram a imagem como um instrumento para incrementar
proselitismo e a devoção. Isso fez toda a diferença.
No romanismo e no gótico, Deus era tudo e o homem apenas um servo,
então, a arte era exercida de forma quase anônima. O pintor
ou escultor executada a obra encomendada como um marceneiro faz um armário
ou o pedreiro uma casa. Ao final, recebia o pagamento e se desvinculava
do trabalho, que não mais lhe pertencia e do qual não
recebera qualquer crédito moral.
O Renascimento veio restaurar a dignidade humana tão presente
no período clássico (greco-romano). O homem voltara a
ser o centro, com sua dignidade restaurada e todo trabalho artístico,
liberto do anonimato, passou a ser vinculado ao seu autor, o que acontece
até os dias de hoje. Mas, como o grande mecenas era a igreja,
ou o poder político ligado a ela, a arte, embora individualizada
pelo artista, continuou sendo predominantemente religiosa e proselitista.
Serviu para marcar o poderio católico na Renascença, assim
como se tornou instrumento da contra-reforma no Barroco.
Acabaria fazendo outra monografia se me estendesse mais neste assunto,
mas acho que deixei clara minha convicção de que o catolicismo
soube aproveitar-se melhor do valor da comunicação proporcionado
pelas artes plásticas, enquanto o protestantismo se fechava em
uma visão iconoclasta. Assim, o catolicismo deixou rastro, criou
uma história da arte, uma linha do tempo que possibilita ter
a visão social, política e intelectual de cada época:
o românico, o gótico, o renascentismo, o maneirismo, o
barroco, o rococó, o romantismo, o neo-clássico e por
aí afora. O protestantismo ficou nos devendo esse registro e
nunca mais poderá fazê-lo, porque o tempo é passado
e não volta mais.
Foi um prazer discorrer, ainda que de leve, sobre assunto tão
interessante. No Brasil, o protestantismo, que se instalou ainda por
volta da década 1820, com a vida da imperatriz Leopoldina, somente
começou a se desenvolver no final do Século 19, com a
liberdade e tolerância de D. Pedro II, um dos maiores estadistas
e conciliadores que o Brasil já conheceu. Foi nesse final de
século que as várias denominações religiosas
começaram a chegar e, em São Paulo, se instalaram aqui
à minha volta. O Mackenzie College iniciou suas atividades na
Praça Princesa Isabel, onde hoje está o Caxias de Brecheret
(bem em frente à minha janela). A 1ª Igreja Batista (1899)
está na mesma praça, também visível por
mim. Assim como é visível a catedral da Igreja Presbiteriana
Unida, na rua Helvétia. A [catedral] da Igreja Luterana, como
já lhe falei, se acha na avenida Rio Branco, que corta a praça
citada. E manifestações católicas, idem: O Colégio
N. S. do Loreto, vizinho ao apartamento. O Liceu Coração
de Jesus, com 20 mil metros quadrados de terreno tem 110 anos e fica
a um quarteirão. Com tudo isso contribuiu a presença do
Palácio dos Campos Elíseos (antigo palácio do governo
do Estado), bem aqui em frente. O lugar onde moro respira história...
* Veja currículo de Walter
L. Berner...
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