Walter L. Berner *
(Sl 150) Sinfonia universal Aleluia! Louvai a Deus em seu santuário,
louvai-o no seu majestoso firmamento! Louvai-o por seus grandes feitos,
louvai-o por sua imensa grandeza! Louvai-o ao som de trombeta, louvai-o
com harpa e cítara! Louvai-o com pandeiro e dança, louvai-o
com instrumentos de corda e flautas! Louvai-o com címbalos sonoros,
louvai-o com címbalos vibrantes! Tudo que respira louve o Senhor!
Aleluia!
Ao caminhar das observações anteriores, e rebuscando
fundamentos para a continuidade do tema "música", não
poderia ser diferente do que me lembrar deste Salmo tão expressivo
e de conteúdo tão atual no que tange às "manifestações"
sacras através da música. Creio que, por analogia, entendemos
em síntese a fundamental diferença ente "a coisa
sacra" e "a coisa religiosa".
Assim é também na música e nas suas muitas manifestações,
tal como o aproveitar a expressão vocal e sonora, para o louvor,
(ou para exibição pessoal?).
Não obstante muitas considerações cabe observar
mesmo que superficialmente, o quanto a música tem influência
sobre o emocional e sobre o "arquivo imanente", interferindo
de forma perene na personalidade e sensibilidade emocional de cada pessoa,
agindo inclusive, e como dito, permanentemente, sobre a formação
do caráter de cada um. Como nos orienta A. Cury (op.citado):
"o RAM= registro automático na [da] memória".
Se esta afirmação é de tamanha complexidade e responsabilidade,
cabe dar-se especial atenção a este veículo de
comunicação, em especial quando dele se faz uso para o
louvor e missão.
Destaco aqui a preocupação a que se deve estar atento
quanto aos aspectos de melodia, rítimo, intensidade sonora, vibrações
e poluições ambientais, forma de apresentação
e poluição visual. Somado a isto, as questões da
comunicação verbal (versos e mensagens), que complementam
quando do canto. Neste sentido, haveremos de dedicar um capítulo,
uma reflexão, mais aprofundada diante da envergadura e importância
ao que o tema sugere.
Na música em si, formulamos três diretrizes que entendemos
como de destaque neste momento, quais sejam: Música Sacra erudita;
a Música Sacra contemporânea; e Música para a missão.
Música Sacra Erudita, ou Secular.
A EVOLUÇÃO DA MÚSICA SACRA APÓS A REFORMA
(Tiago Tavares da Silva / Organista da Comunidade Luterana de Petrópolis.)
"Lutero [também compositor] é o único dos
reformadores do séc. XVI a enfatizar e usar a música como
um dom excelente de Deus para a Proclamação da Palavra".
Calvino permitiu a música com relutância, enquanto Zwiling
a baniu.
[Destacam-se como] compositores de época de Lutero, Joaquim
dês Prez e Ludovico Senf, [assim como] Joldann Walter foi [quem
compôs] o primeiro "chantré" luterano; e George
Rhau (chantre de St Thomas de Leiptzig) foi o mais importante editor
de música do movimento reformador.
Paradigmas de Lutero para a música:
"Música como criação e dom de Deus; como proclamação
e louvor; como continuidade de toda a igreja, entre outros...".
Lutero não descartou a herança musical sacra enquanto
que Zwiling e Calvino queriam enfatizar suas diferenças com a
igreja Católica."
Se verificarmos os grandes clássicos, lembramos de mestres como
Bach, Schubert, e tantos outros, que se aqui colocados fariam uma lista
de se admirar.
Mas o destaque está para aquelas músicas de cunho Sacro,
isto é, que contêm em seu escopo uma mensagem de profunda
espiritualidade e que por sua secularização ganham um
aspecto de "música dos anjos". A lista não é
pequena, mas compete exemplificar, as muitas interpretações
clássicas por grandes mestres inclusive contemporâneos,
do "Magnificat", o louvor de Maria, ou como também
é conhecida: "o Cântico de Maria" (Lc 1, 46-55),
ou ainda "Missa Solemnis, Op.123" de Beethoven.
No Hinário Luterano HPD1, entre tantos, salta aos olhos, quase
como "hino confessional", o 174 "por Tua mão me
guia" remetendo ao belíssimo Salmo 23; 233 - "Até
aqui me trouxe Deus", profunda reflexão para I Samuel 7,12;
e 194 - "Como tu queres, Senhor sou Teu", sobre Isaías
64,8. Isto apenas para exemplificar sem contudo omitir qualquer destes
cânticos e hinos que remetem até o Séc XVI.
Nestes hinos vejo, tamanha espiritualidade que para muitos filhos tementes
a Deus, passam a ser hinos que os sustentam e dão sentido às
suas vidas. Basta refletir sobre o citado HPD1,194, e sua mensagem Is
64,8.
Pessoalmente continuo muito sensibilizado com este hino, e sua fonte
bíblica, o que me levou a compor esta tela, através da
qual podemos "ver e entender" como Deus age em cada pessoa,
buscando modelar cada um com seus "tiques e ites", e até
"ornatos". Esta obra já me valeu muitas, não
poucas, oportunidades de através dela e da citada mensagem bíblica
ser, um pouquinho que seja, protagonista da Palavra, e poder entoar
aquele hino, com consciência de fé. Tenho convicção
de que o autor deste hino o fez com a mesma espiritualidade e desprovido
de interesses pessoais, tal como também procurei ser isento nesta
interpretação plástica.
Arte Sacra? Discussão aparte. Mas o que esta oração
de Isaías consegue "reciclar nos nossos pensamentos",
e o hino de Geo Stebbins contribui, nos faz crer que a Sacralidade se
faz presente nos muitos frutos que advêm de Deus através
de seus filhos amados. Arte Sacra, aqui se faz não pela "peça
em si", mas pelo que se consegue contribuir e sensibilizar no sentido
existencial da vida.
Um pouco de história da Música Sacra (contribuição
de Thiago T da Silva, com grifo meu)
A origem da música sacra remonta aos princípios da Civilização.
Na Bíblia o primeiro registro encontra-se em Ex 15, com o cântico
de Moisés e uma "antifond" entoada pela profetisa Miriã.
É também neste texto, vs.20, a primeira referência
de instrumento: um tamborim. Mas o "grande sol" da música
vem a ser os Salmos, sabidamente de Asafe, dos filhos de Core e principalmente
de Davi, ainda hoje inspiradores para muitos músicos. Lembremos
também do livro "Cântico dos Cânticos"
de Salomão. Um dueto com coro.
No Novo Testamento, encontramos em Mt 26,30, Jesus e seus discípulos
empenhados no cântico.
Ao longo das muitas "estradas musicais", surgem os cânticos
litúrgicos das igrejas orientais, da liturgia "galicana"
(extinta); da ambrosiana, visigótica, destacando-se contudo as
liturgias católicas, o canto gregoriano (Papa Gregório
I, 873dC).
Destaque especial e merecido para Guilherme de Machaut (1310-1377),
que organizou o Kyirie, o Glória, Credo e Sanctus e o Agnus Dei,
esquema este atualmente ainda praticado.
Com a Reforma Luterana, séc. XVI, Lutero dá ênfase
ao canto da Comunidade, traduzindo, em parte e compondo novos hinos,
para que todos pudessem cantar e participar mais conscientemente do
louvor através da música.
A Música Sacra, como tal, teve grandes mudanças em favor
de sua espiritualidade, e mais autores de expressão, sensíveis
a proposta da reforma, passam a surgir, como H. Schütz (1585-1672);
J. Pachelbel (1653-1706); Bach (1685-1750). Não excluindo, como
disse muitos compositores de valor.
Música Sacra contemporânea.
Também hoje, e não apenas "de hoje", a música
de louvor tem sua espiritualidade e função santa bastante
evidente, aparte das muitas "peças show", cujo tema
dissertarei mais adiante, como acima já aventado.
Quantos hinos, cânticos e interpretações musicais
surgiram ao longo das últimas décadas! Certamente não
poucos. Complexas ou simples, mas sempre com grande conteúdo
de espiritualidade, sem maiores delongas, e não por último,
basta folhear o HPD 2 luterano, e conferir. Só para citar...
hino 382 de L.F.Creutzberg 1997, que belo e singela forma de "releitura"
e canto do Salmo 1.
A arte sacra e o louvor hoje, (Grupo Glorificai /
Petrópolis / 25/08/04)
Vemos a música como uma forma de louvor universal, atingindo
as mais diferentes classes sociais, independente do grau de cultura.
A música transpõe os limites físicos do templo
e alcança corações e mentes até mesmo daquelas
pessoas que estão fora do convívio da comunidade. Como
a música possui várias faces, todas as pessoas conseguem
se identificar. E com isso, recebem a mensagem e louvam a Deus dentro
do estilo que melhor lhe convêm. O Glorificai, em particular,
procura através da música, evangelizar e promover a comunhão
entre os irmãos. Procuramos manter a coesão entre a mensagem
e as músicas representadas, acreditando que assim as pessoas
assimilarão mais facilmente o conteúdo da palavra. Para
nós é muito gratificante e edificante, poder usar a música
como uma forma de louvor e fortalecimento da fé.
Este depoimento de substancial importância sintetiza claramente
a essência do louvor (sacro) quando afirma que: "procura
através da música, evangelizar e promover a comunhão
entre os irmãos", conquanto neles não há a
menor intenção promocional ou de "causa própria".
Neste grupo, reina muita fé e espiritualidade, assim podem afirmar:
"Para nós é muito gratificante e edificante, poder
usar a música como uma forma de louvor e fortalecimento da fé".
Por semelhante modo, contribui Cecília com um texto de sua autoria,
que nos faz refletir profundamente o quanto é importante levar
a sério o mandamento "amar ao próximo", e como
a música e a comunhão fraterna contribuem para o bem comum:
Recompensa secreta (Cecília Vertamatti agosto
2004)
(Por Cecília Vertamatti, Hospital Albert Einstein - SP, em 1998)
Certa manhã, como acompanhante de um menino amigo, vi entrar
no quarto do hospital os "doutores da alegria". Coloridos,
bem ao gosto da infância, colhiam gostosas gargalhadas das crianças
que visitavam.
Conforme começaram sua apresentação ao pequeno
Lucas, devem ter percebido o motivo da internação dele:
alheio e desatento, com o olhar perdido não se sabe onde, por
nada se interessava, a nada reagia... Mesmo sabendo que daquele paciente
não teriam retorno algum, nem riso e nem aplauso, prosseguiram
amorosamente no seu show. Fiquei comovida com essa permanência
desapegada de qualquer sucesso. Os "doutores" cuidavam do
doente com o carinho da sua presença. Falavam e cantavam com
translúcida espiritualidade, no puro respeito com que se reconhece
um ser humano pela sua essência. Aposto que eles acreditavam que
a alma do Lucas captava aquele gesto de ternura e doavam o seu tempo
e o seu talento como uma homenagem a um filho de Deus. E na beleza das
canções infantis e das bolhas de sabão, naquele
quarto, eu vi uma beleza maior - Deus Justo exercendo seu amor imparcial
e incondicional a um menino.
Quando os "doutores" saíram, li impressa nos seus
aventais a sua crença: "A alegria é o melhor remédio".
A emoção não me permitiu agradecer naquela hora
àqueles anjos vestidos de palhaços. Se eu conseguisse
falar, faria também uma pergunta: -Doutor, então o mundo
tem cura?
Sim, Cecília, sim, Lucas, cabe também a nós ao
refletirmos sobre toda esta conjuntura de vida, sobre os intentos bem
definidos do Grupo Glorificai, que este mundo tem cura, na medida em
que passarmos a ser "doutores da alegria", a buscar através
de nossas artes visuais, musicais, verbais, corporais, a transcendência
plena e incondicional.
Amar e manifestar este amor mesmo diante das atrocidades mais duras
da vida.
Aqui, tendo este exemplo que Lucas pode assistir, mesmo em sua introversão,
passarei a outra reflexão, sem contudo considerar esgotado tudo
o que já verificamos até agora. Passo a passo, vamos em
frente...
* Veja currículo de Walter
L. Berner...
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