Walter L. Berner *
ÍDOLOS E IDOLATRIA; O QUE
É PROFANO E O QUE É SANTO...
“Profano ou Santo?”
Desde as primeiras linhas destas reflexões, tenho me preocupado
com o conteúdo sacro de tudo o que se coloca no ambiente de Deus
aqui entre nós humanos. Parece paradoxal dizer que “Deus
carece de um montão de coisas” para seu louvor... Claro
que Deus precisa apenas de “você” (João, Maria,
Pedro, Marta, Lúcia, Manoel... e de mim também), e nos
quer pelo “primeiro nome”, sem substantivos, sem adjetivos,
ou seja: sem adereços ou adornos, sem acessórios e agregados,
principalmente aqueles “pronomes” ou aqueles “bens
materiais”. Assim como Deus não carece de intermediação
entre Ele e suas criaturas. Basta Seu Filho Jesus como nosso “Advogado
junto ao Pai” (cf. Lutero). Isto inclui também não
esquecer os comportamentos exibicionistas e egocentristas, o dito antropocentrismo...
O uso dos meios de comunicação como “palco”
para expressar seus interesses pessoais, filosóficos ou ideológicos,
“em nome de Deus”.
Exatamente este pensamento quer servir de “pano de fundo”
para que possamos entender as questões relativas às expressões
visuais, plásticas e também no âmbito de hinos e
canções quer sejam sacras ou profanas.
No âmbito dos hinos e canções encontradas nos hinários
(no caso luteranos), solicitei ao Pastor Leonhard Creutzberg que nos
colocasse em algumas palavras “este delta” entre música
sacra e religiosa, com base em seu belo estudo sobre os Hinários
(“Estou pronto para cantar”/ Ed. Sinodal). Mesmo que este
depoimento se encaixe melhor na temática “música”,
mas considerando o enfoque central de nosso debate, transcrevo aqui
as palavras do Pastor:
A respeito dos hinos - eu temia uma avaliação de todos
os hinos, e quis fugir disso, pois vai dar um trabalho de alguns anos.
E eu não me sinto capacitado para uma avaliação
deste quilate. Posso tentar dar um breve resumo:
O Deutsches Evangelisches Gesangbuch, (que é a base para nossos
hinários da IECLB e que desde 1915 até hoje vem sendo
usado nos cultos em língua alemã) separa nitidamente os
"Hinos da Igreja" (Kirchenlieder, N.º 1-342) das "Canções
Religiosas Populares" (Geistliche Volkslieder, N.º 343-387),
ou seja: hinos sacros distintos das canções religiosas.
Já o primeiro hinário oficial em português da IECLB,
(editado em 1963, e que em sua grande maioria oferece as traduções
dos hinos do Deutsches Evangelisches Gesangbuch,) não faz mais
esta distinção, mas mistura hinos e canções.
A comissão que selecionou os hinos do hinário "Hinos
do Povo de Deus, Vol. I" se propôs (a) conservar boa parte
dos hinos antigos (traduzidos do alemão), por representarem uma
herança espiritual. (b) Na escolha de hinos de outras denominações,
cuidar do conteúdo. Dar preferência a hinos mais simples
e de fácil aprendizagem. (c) Incluir hinos novos, surgidos em
nosso meio, já em uso em grupos de JE e OASE, usando como critério:
conteúdo bíblico claro, originalidade e qualidade na forma,
além de simplicidade e cantabilidade. No entanto, este empenho
por simplicidade e cantabilidade fez com que entraram algumas canções
um tanto distantes da mensagem bíblica.
O que norteou a comissão que escolheu os hinos para o "Hinos
do Povo de Deus, Vol.II" foi: hinos provenientes do contexto latino-americano,
aprovados pelo uso, de qualidade artística e que sejam expressão
dos conteúdos centrais de nossa fé evangélico-luterana,
acrescidos de temas que faltam no Volume I do HPD. Traduções
de negro-espírituals, canções de Taizé ou
outras, que o tempo já tenha selecionado, não devem ser
desconsiderados.
Em acréscimo a estas esclarecedoras palavras, transcrevo aqui
a síntese de uma palestra que preparei sobre “o Órgão”,
este nobre instrumento musical, em cujo escopo também fica bastante
patente, este diferencial:
A
palavra “Organon”, em sua origem grega, quer dizer “instrumento-ferramenta”,
mas também significa “gerador de música”.
Foi inventado pelo grego Ctesíbios, um engenheiro de Alexandria
que gostava de inventar brinquedos úteis. Isto por volta do séc.
III aC. Nesta época, ainda era um instrumento de propulsão
hidráulica (figura ao lado o “hydraulus”). ...Não
era usado em ambientes fechados, exatamente por causa deste inconveniente,
e do barulho que os propulsores faziam. Era um instrumento profano a
ser tocado em praças públicas e arenas ou festas. Durante
a invasão do Império Romano, entre os séculos V
e VI, o Órgão cai no esquecimento, e reaparece depois
do século VIII dC. no ocidente. Graças ao Padre José
de Veneza, e ao empenho fundamental dos Monges, verdadeiros artífices
de época, o Órgão passa para os salões de
música, apenas para estudo e para compor partituras, não
merecendo ainda seu lugar nos Templos. É debaixo de muita polêmica
que no século X ele toma lugar gradualmente na Liturgia, de onde
não sai mais. Mas é somente entre os séculos XII
e XV que sua construção passa a ter uma configuração
como a conhecemos até hoje. Só então este instrumento
integra-se aos nobres instrumentos para o Louvor a Deus, sendo considerado
entre todos, “o mais nobre”, quando sua construção
para tal é projetada.
Dizia Guilh Berner, organeiro da década de 30: “Os órgãos
para Igrejas obedecem a regras especiais, ditadas e santificadas por
tradição multissecular, regras essas que se referem a
sua expressão tonal ou registração”...O Órgão
com relevância sacra desde sua concepção.
Esta preocupação se projeta igualmente neste conceito
a que “perseguimos” do que seja “profano ou sacro”,
porquanto há de se tomar especial cuidado e atenção
quando da escolha de instrumentos e de hinos ou canções
que se propõem como próprias “para o louvor a Deus”.
Esclareço: Quantas canções ou “hinos”
são “interpretados” e até inseridos em hinários
e que em suas linhas ou “entrelinhas” falam de manifestações
antropocêntricas e até sutilmente de propostas ideológicas
ou filosófico-sociais? Quantos instrumentos que com uso inadequado
agridem a audição, em verdadeira poluição
sonora e visual, e conseqüentemente corrompem a espiritualidade
e serenidade, necessários ao vero Louvor?
Não se trata de um “fundamentalismo tradicionalista”,
mas uma reflexão que nos conduz a repensar nas muitas manifestações
verbais, corporais e musicais que em nada encerram uma “sacralidade”
verdadeira, mas tão somente uma exarcebada demonstração
ou promoção do “eu”, sem a preocupação
do louvor a Deus: “Culto espetáculo?”.
Lembremos de dois Salmos (entre outros muitos):
Sl 71,8;22-24a:
“Os meus lábios estão cheios do teu louvor, e da
tua glória continuamente... Por isso, ao som da harpa, te darei
graças, meu Deus, por tua fidelidade; cantarei para ti ao som
da cítara, ó Santo de Israel. Ao cantar em tua honra exultarão
de alegria meus lábios e minha alma, que resgataste; todos os
dias, minha língua proclamará tua justiça”.
Sl 115,1
“Não a nós, Senhor, não a nós, mas
ao teu nome dá glória por teu amor e tua fidelidade!”
Assim, confere refletir com mais acuidade a quem de fato se haverá
de louvar e com que ênfase.
Em continuidade a este último Salmo destacado, lemos: (Sl 115,4-18).
“Os ídolos são prata e ouro, obra de mãos
humanas: têm boca e não falam, têm olhos e não
lêem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e
não têm olfato, têm mãos e não apalpam,
têm pés e não andam; não emitem sons com
a garganta. Fiquem iguais a eles os que os fabricam e todos os que neles
confiam! Confie Israel no Senhor, seu socorro e seu escudo! Confie a
casa de Aarão no Senhor, seu socorro e seu escudo! Os que temem
o Senhor confiem no Senhor, seu socorro e seu escudo! Lembrado de nós,
o Senhor abençoe: abençoe a casa de Israel, abençoe
a casa de Aarão, abençoe os que temem o Senhor, pequenos
a grandes! Que o Senhor vos multiplique a vós e a vossos filhos!
Sede benditos do Senhor, que fez o céu e a terra! Os céus
são os céus do Senhor, mas a terra ele deu aos filhos
dos homens. Não são os mortos que louvam o Senhor, nem
os que descem ao silêncio; somos nós que bendizemos o Senhor,
desde agora e para sempre. Aleluia!”
Esta passagem Bíblica nos conduz, por extensão, às
questões fundamentais do segundo contexto desta reflexão:
ÍDOLOS E IDOLATRIA.
Louvar,
venerar, e porque não dizer: adorar cabe somente, e tão
somente, a Deus. Bem nos mostra este gesto a obra de Dürer (séc.
XVI) abaixo “As mãos orantes”.
Ap 7,11-12 E todos os anjos estavam de pé ao redor do trono
e dos anciãos e dos quatro seres vivos, e caíram sobre
os rostos diante do trono e adoraram a Deus, dizendo: “Amém.
Bênção, glória, sabedoria, ação
de graças, honra, poder e fortaleza a nosso Deus pelos séculos
dos séculos. Amém”.
Desta forma, esta temática carece de examinar em primeiro momento
a Confissão de Augsburgo, em seu “artigo 21 - Do culto
aos Santos”.
Do culto aos santos ensinam que se pode lembrar a memória dos
santos, a fim de lhes imitarmos a fé e as obras de acordo com
a vocação, assim como o Imperador pode imitar o exemplo
de Davi em fazer guerra, para impedir que os turcos invadam a pátria.
Pois um e outro são reis. A Escritura, porém, não
ensina que invoquemos os santos ou peçamos auxílio deles,
porque nos propõe um só, Cristo, como mediador, propiciador,
sumo sacerdote e intercessor. É a ele que se deve invocar, e
ele prometeu que haveria de ouvir as nossas preces. E esse culto aprova-o
muitíssimo, a saber, que seja invocado em todas as aflições.
1João 2 (v. 1): "Se alguém pecar, temos Advogado
junto a Deus," etc. Esta é, mais ou menos, a suma da doutrina
entre nós. Pode-se ver que nela nada existe que divirja das Escrituras,
ou da igreja católica, ou da Igreja Romana, até onde nos
é conhecida dos escritores. Assim sendo, julgam duramente os
que requerem sejam os nossos tidos por hereges. A dissensão toda
diz respeito a alguns poucos abusos, que se infiltraram nas igrejas
sem autoridade certa. E mesmo nessas coisas, suposto haja alguma discrepância,
convinha, todavia, tivessem os bispos clemência bastante para
tolerar os nossos em virtude da confissão que agora apresentamos.
Porque nem mesmo os cânones são tão duros, a ponto
de exigirem que os ritos sejam os mesmos em toda a parte. E jamais foram
similares os ritos de todas as igrejas, ainda que entre nós os
ritos antigos em grande parte são diligentemente observados.
Pois é falso e calúnia isso de que todas as cerimônias,
todas as instituições antigas sejam abolidas em nossas
igrejas. Mas houve queixa pública de que certos abusos inseriam
aos ritos populares. Esses, porque não podiam ser aprovados de
boa consciência, foram corrigidos em certa medida.
O ser humano de uma maneira geral, sempre busca em seu meio um “ídolo”
no qual se projeta e se espelha. A criança em seu pai ou em sua
mãe; o aluno em seu professor preferido; o jovem em geral, busca
na TV ou no cinema o “seu ídolo” pelo que este ator
ou atriz consegue expressar de ideal de vida que ele (o jovem) almeja.
Os adultos por sua vez, também vão “atrás
de seus ídolos”, quer sejam estes os próprios filhos,
líderes sociais e/ou políticos, ou até imagens
que representam para a pessoa um sustentáculo de vida. E até
idólatras do seu trabalho ou sua profissão...
Sustentáculo de vida? O que isto quer dizer?
O ser humano, independentemente de sua idade, procura sempre um ancoradouro
no qual supostamente consegue encontrar segurança e projetar
de certa forma sua própria vida.
Alguns “buscam” este sustentáculo, este apoio, em
pessoas ou “representações” lamentavelmente
inadequadas para o que ousamos dizer “padrão ideal para
a vida”. Basta que olhemos ao nosso redor para ver com muita evidência,
como as pessoas se “agarram” a vícios, drogas, ídolos
humanos, com seus símbolos como tatuagens, fotos, amuletos, roupas
características, penteados, modismos e tantos outros produtos
de consumo...
Por outro lado, há também nos meios cristãos aqueles
que, pelas tradições doutrinárias ou familiares,
encontram nos Santos, seus ídolos aos quais chegam a consagrar-se
em vida e plenitude.
Certo é que a fé, neste caso tem papel fundamental e
exerce grande influência na pessoa que, como dito, se sustenta
no “ídolo” de sua preferência. Esta pessoa
“deposita em seu ídolo” toda a sua fé, consciente
de que por este meio sua personalidade está assegurada e identificada.
Há de se respeitar a fé de cada pessoa, a individualidade
da fé, por vez que não poucas as vezes, esta fé,
mesmo que inadequada aparentemente, estrutura a auto-estima e traça
um perfil pessoal.
Observar a definição da palavra “Ídolo”,
que diz: “figura que representa uma divindade e que é objeto
de culto; pessoa a quem se tributa grande respeito ou excessivo afeto”,
é o que sugere especial atenção, bem como de certa
forma, cautela.
Tendo como enfoque as imagens nos Templos, convém lembrar que
a imagem que representam Santos, não podem “ser vistos”
como “figura que representa uma divindade” porquanto são
obras das mãos humanas como nos adverte o Salmo 115,4 acima destacado.
Todavia, as Imagens podem e devem ser vistas como “obras de arte”
de fonte sacra, religiosa, ou até profana, que nos lembra a vida
e obra daquele personagem santo que o Artista interpretou, e como bem
o coloca Lutero em sua Confissão de Augsburgo, no “artigo
21 - Do culto aos Santos”, acima citado.
Apenas como exemplo: Não é a bela estátua esculpida
em madeira que deve “decidir a fé” do crente, mas
o exemplo de vida que aquela imagem nos faz lembrar...
Certamente há controvérsias neste pensamento. Respeitá-las
é no mínimo um exercício de cidadania, e de consideração
à diversidade, prerrogativa básica de “ser pessoa”,
de diálogo sem discurso apologético, e sem fundamentalismo.
A idolatria é uma prática diria “extremista”
de se expressar esta veneração e adoração
sem limites ao “seu ídolo” preferido. Não
é mérito de nossa discussão central, mas é
bom lembrar os versos contidos no Salmo 115, bem como conferir nossa
solidez na fé, certo de que somente a Deus cabe a verdadeira
veneração e adoração, sem precedentes, e
que nesta relação “Criador versus criatura”
são indispensáveis a presença do Espírito
Santo (através do qual vem a fé e os dons), e Jesus (que
se deu por nós). A relação divina fica patente
nesta “tríade”: A Santíssima Trindade.
Não consigo entender como professar o “Credo Apostólico”,
e carecer de agregar ídolos...
Tudo o mais, que nos seja para enriquecer nossa fé e clarear
as pessoas para o bom entendimento da Palavra, através de exemplos
de vida e de interpretações humanas pelos citados meios
de comunicação (visuais, musicais, escritas).
Que Deus nos permita caminhar nestas reflexões.