P. Guilherme Lieven *
O Canto é Santo
(G.Lieven)
Consigo ser
Consigo ver o sol raiar
Consigo fazer você cantar
E você nem percebeu como isso é tão bom.
O canto é santo ele cura o pranto
Com ele a vida pode pulsar
O triste consegue assobiar
O canto é santo desperta a paz
Com ele e Deus a vida é muito mais
O canto é santo, é como
o sol da manhã. Inspira os sons e as melodias
Que fazem a vida brilhar.
Consigo ser
Consigo ver você cantar
Consigo fazer você brilhar
E você já percebeu como isso é tão bom
O canto é santo desperta
a fé
Com ele e Deus a vida é cheia de paz
1.) Introdução - Música: instrumento e
conteúdo de evangelização.
Mostrem a sua alegria. Toquem músicas nas harpas, cornetas
e trombetas (Sl 98). Toquem com harpas, flautas e liras, com pratos
sonoros, pandeiros e danças (Sl 150). Cantem a respeito do amor
e da justiça (Sl 101).
Há milênios, a música tem feito parte das experiências
e vivências do povo de Deus, desde os tempos de Abraão,
Jacó, Mirian, Débora, Raquel, Ana. Mais tarde foi levada
para o Templo e depois fez parte do cotidiano daqueles e daquelas que
participaram da formação das primeiras comunidades da
Igreja de Jesus Cristo.
A música sempre está presente nos encontros com a vida
e com Deus. A música com conteúdo de fé tem uma
longa história. Ela tem o poder de ensinar, congregar, sintonizar,
acalmar, animar; também de facilitar o diálogo para além
da razão, para além do objetivo e do óbvio. Ela
é simples e matemática, mas, simultaneamente, complexa,
múltipla; transcende aos horizontes possíveis das melodias,
ritmos, culturas e regras fixas. A música é amiga da pluralidade
e da beleza, do amor e do poder de Deus. Certamente, por isso ela é
serviço, instrumento, motivação e conteúdo
de evangelização.
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Platão disse:
"A música é uma lei moral. Dá alma ao
universo, asas ao pensamento, saída à imaginação,
encanto à tristeza, alegria e vida a todas as coisas. Ela
é a essência da ordem e eleva em direção
a tudo o que é bom, justo e belo, e do qual ela é
a forma invisível mas, no entanto, deslumbrante, apaixonada,
eterna." |
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Na nossa história luterana, os hinos que surgiram a partir da
Reforma sustentaram a fé de famílias migrantes isoladas
em povoados e colônias; as melodias e os conteúdos acalmaram
a saudade e tomaram forma de culto a Deus na ausência da igreja.
Ainda hoje, nos momentos de louvor e adoração, também
de luta e sofrimento, os hinos com seus ritmos e melodias marcam ritmos
e tons, passos e gestos; organizam os gritos e murmúrios e colhem
o suor e as lágrimas. Nas casas, em salões, nas igrejas,
nos palcos, nos meios de comunicação de massa e no cotidiano,
entre muitas melodias e sons, os hinos com conteúdo de fé
comunicam a presença de Deus.
Estou certo de que a música, entre todas as coisas de Deus,
é muito especial. Recebemos dons e possibilidades para, com ela,
proclamarmos o Cristo que morreu e ressuscitou para vencer a nossa escravidão
e doar a liberdade. Em meio a tantos impulsos de ódio e de morte,
a música com conteúdos de fé impulsiona o testemunho
da vida abundante, as práticas e os gestos da vida que ressuscita.
2.) Um Pouco da História Antiga da Música
Nenhuma hipótese diz com exatidão o momento em que os
primitivos começaram a fazer arte com os sons. Suspeita-se que
já as pessoas das cavernas brincavam com os sons e davam à
sua música um sentido religioso. Consideravam um presente dos
deuses, davam a ela um caráter ritualístico, com ela reverenciavam
o sagrado, agradecendo-lhe a abundância da caça, a fertilidade
da terra e das pessoas humanas, as vitórias na guerra e as novas
descobertas. Ritmavam suas danças com pancadas na madeira. Imitavam
os barulhos e os sons da natureza, o sopro do vento, o ruído
das águas, o canto dos pássaros. Por fim misturavam palmas
e roncos, pulos e uivos, batidas e berros. Certamente assim nasceu a
música, a partir da organização de muitos sons.
Chama a atenção, no entanto, o fato de que a origem da
música esteve ligada com a experiência humana com Deus,
com o sagrado.
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A
palavra música nasceu na Grécia,
onde "Mousikê" significava "A Arte das Musas",
abrangendo também a poesia e a dança. |
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Os povos de origem semita (Ásia Ocidental) cultivavam a expressão
musical, tornando-a bastante elaborada. Os que habitavam a Arábia,
principalmente, distinguiram-se pela criatividade. Possuíam uma
ampla variedade de instrumentos e dominavam diferentes escalas. Tocavam
sobretudo para dançar.
Na China, o peculiar era a própria música. Ela era monumental.
Utilizavam 84 escalas. já por volta do ano 2255 a.C. o domínio
dos chineses sobre a expressão musical estendeu-se por todo o
Oriente, moldando a música do Japão, da Birmânia,
da Tailândia e de Java.
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Os Hinos e Cânticos já
muito cedo inspiravam-se nos Salmos da Bíblia. Solo e Coro,
ou Coros alternados, dialogavam nas orações musicadas.
Aos poucos, formaram-se artistas profissionais que aperfeiçoaram
o canto das melodias. A princípio, dividiram o texto em sílabas,
atribuindo apenas um som a cada uma delas (canto silábico).
Mais tarde, por influência da música oriental, as sílabas
já reuniam vários sons.
Os grandes centros da Igreja - Bizâncio, Roma, Antioquia e
Jerusalém - eram também os grandes centros da música,
cada qual com sua liturgia musical particular. No século
IV, em Milão, Santo Ambrósio criou um estilo que tomou
o seu nome - ambrosiano. Na mesma época, Santo Hilário
compunha na França uma música de características
diferentes, o chamado estilo galicano. E três séculos
depois, na Espanha, Santo Isidoro criou o estilo moçárabe.
Contudo, foi em Roma que se estabeleceu os padrões que deram
ao canto litúrgico da Igreja Romana uma forma fixa. Quem
os organizou foi o Papa Gregório Magno - o que explica o
nome de Canto Gregoriano com o qual se tomou conhecido esse gênero
musical. Caracterizava-se por uma melodia linear e plana - o "cantus
planus". Por isso chamaram-no também, mais tarde, de
cantochão. |
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Mas foram os gregos que estabeleceram as bases para a cultura musical
do Ocidente. Como os demais povos antigos, os gregos atribuíam
aos deuses sua música, definindo-a como um meio de alcançar
a perfeição. Seu sistema musical apoiava-se numa escala
elementar de quatro sons - o Tetracorde. Da união de dois tetracordes
formaram-se escalas de oito notas, cuja riqueza sonora já permitia
traçar linhas melódicas.
Os romanos quase nada acrescentaram ao progresso musical. Inventaram
a Tíbia (uma espécie de gaita-de-foles), a Tuba (precursora
do trombone) e um órgão primitivo. Entretanto, alguns
pesquisadores afirmam que um egípcio chamado Ctesíbio
já havia criado o órgão dois ou três séculos
antes da era cristã.
3.) Na Bíblia: O Povo de Deus Cantava
A Bíblia mostra que, centenas de anos antes de Cristo, o povo
tinha a música como hábito. Conforme os registros em Êxodo
15.1ss Moisés já cantou as maravilhosas obras de Deus.
Antes do reinado e da construção do Templo a música
era um dom desenvolvido principalmente pelas mulheres. Elas cantavam
e dançavam ao celebrarem os eventos especiais do povo. Miriam
conduziu um grupo de mulheres cantando e dançando para festejar
a derrota dos egípcios (Êxodo 15:19-21). Débora
é convidada a cantar. As distribuidoras de água cantam
os atos de justiça do Senhor, da justiça em prol de suas
aldeias em Israel (Juízes 5.11-12).
As mulheres tocaram e dançaram pela conquista de Davi (I Samuel
18:6-7). A filha de Jefté foi ao encontro de seu pai com adufes
e com danças após seu retorno da batalha (Juízes
11:34). Ana orou e cantou a Deus a sua alegria por ser mãe (1
Samuel 2.1ss).
A partir do reinado de Davi (1000 anos antes de Cristo), a música
das mulheres foi levada para a capital Jerusalém. Passou a fazer
parte das liturgias e das festas do Reinado de Israel e mais tarde incorporou
os rituais do Templo. O Reinado e o Templo incorporaram a musicalidade
do povo de Deus, a canção das mulheres, das pastoras e
pastores de ovelhas, das lideranças e do povo que depois formaram
o Reinado de Israel.
As tradições e poderes do Reinado e do Templo aos poucos
transferiram para os homens as tarefas da música.
"Davi disse aos chefes dos levitas que estabelecessem seus irmãos
como cantores com instrumentos de música, cítaras, harpas
e címbalos, para que os sons vibrantes e alegres se fizessem
ouvir" (1Cr 15,16).
Os homens (os levitas) agora passaram a cuidar das canções
que animavam o povo nas procissões em que a arca da aliança
era transportada e festejada:
"Todo o Israel, ao fazer subir a arca da aliança do Senhor,
soltava brados de júbilo, ressoando trombetas, trompas e címbalos,
retinindo cítaras e harpas" (1Cr 15,28).
Apesar da polêmica apropriação por parte do Reinado
e do Templo da musicalidade das mulheres e do canto do povo, a memória
musical litúrgica da Bíblia é uma obra grandiosa.
Os Salmos são a marca maior deste acervo de testemunho e fé
musicado. Jesus cantou e citou os Salmos várias vezes. Eles foram
citados no Novo Testamento mais de cem vezes.
Quando Jesus nasceu, já não se cantava da mesma maneira.
O povo de Israel viva na diáspora, a música litúrgica
havia entrado em decadência. Mas isso não impediu que o
Povo de Deus cantasse nas sinagogas e nas grandes cerimônias e
festas do Templo. Maria cantou a sua alegria, fé e esperança
como a mãe do menino Jesus (Lucas 1.46ss) O próprio Jesus
cantou os salmos na última ceia antes de ir para o Jardim das
Oliveiras (Mt 26.30; Mc 14.26). A música sempre acompanhou a
revelação de Deus. Os anjos cantaram ao anunciarem o nascimento
de Jesus, o Messias, o Deus Salvador (Lucas 2.13).
As primeiras comunidades cristãs foram além das tradições
do Templo. Agora a música cantada pelos grupos que formaram as
primeiras comunidades cristãs recebeu a influência da música
de origem grega. Outras melodias e poesias surgiram (Ap 5.9; Fl 2.6-11)
Dessa maneira, a liturgia cristã passou a misturar as culturas
musicais vigente. Os cristãos começaram a cantar os salmos
de Davi ao "modo" das melodias gregas em língua latina.
A música das comunidades cristãs passou a mesclar as diversas
culturas daquela época, passou por um processo de contextualização.
4.) A Música Na Época da Reforma
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Animem uns aos
outros com salmos, hinos e canções sagradas. Cantem
hinos e salmos ao Senhor, com gratidão nos seus corações.
(Ef 5.19)
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A partir da Reforma do século XVI surgiu em algumas comunidades
cristãs uma musicalidade nova. Com uma nova teologia, com uma
nova proposta comunitária de fé, nasceu também
novas formas cantadas e musicadas de adoração e louvor
a Deus. A música passou a ser um importante instrumento de divulgação
e vivência dos ideais da Reforma. Lutero percebeu que poderia
usar a música como suporte para a proclamação do
Evangelho e da nova proposta teológica, comunitária e
eclesiástica. Ele substituiu vários coros em latim e compôs
hinos em alemão para serem cantados por toda a comunidade. Incorporou
músicas novas e melodias populares, ajudando na popularização
dos conteúdos e propostas da Reforma.
Em carta escrita a Spalatinus, secretário de Frederick I, Lutero
escreveu:
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A música gospel
O termo Gospel (junção de God e
spell) pode ser traduzido como palavra de Deus. É música
de origem negra, nascida no final do século dezenove
nas igrejas evangélicas do sul dos Estados Unidos. Em
sua forma original era geralmente interpretada por um solista,
acompanhado de um coro e um pequeno conjunto instrumental. Grandes
intérpretes da música norte-americana começaram
assim, como cantores de gospel nas igrejas. É o caso
de Mahalia Jackson, Bessie Smith e Aretha Franklin, além
de Ray Charles. O gospel ajudou a moldar toda a música
negra dos Estados Unidos no século passado: ragtime,
blues e jazz. E foi também influenciado por ela. É
o caso dos quartetos gospel, surgidos após a segunda
Guerra Mundial, com suas música gritada, sua dança
cheia de sacolejos e roupas extravagantes. Nesta fonte foi beber
o rock dos anos 50, desde Bill Halley e seus cometas, ate Elvis
Presley passando por Jerry Lee Lewis. Comercialmente e na forma
que tem atualmente, o gospel estourou nos Estados Unidos a partir
dos anos 70. O rock passa a ser o carro chefe da música
gospel. Mas outros ritmos como o funk e o reggae também
são por ela adotados.
Hoje o prêmio Grammy, considerado o Oscar da música,
inclui a categoria gospel e grupos como o Take 6 cobram cachês
milionários por apresentação. No Brasil,
além do rock, a música gospel assimilou outros
ritmos como samba, pagode, frevo e baião.
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"(Nosso) plano é seguir o exemplo dos Profetas e os Pais
antigos da Igreja e compor salmos para as pessoas no vernáculo...
de forma que a Palavra de Deus também possa estar entre as pessoas
em forma de música".
As primeiras raízes musicais de Lutero cresceram já
na sua infância. Ao ingressar na vida monástica, teve a
oportunidade de conhecer a música dos mestres contemporâneos
e de aprender o canto gregoriano. Ele expressou em carta de outubro
de 1530 a Ludwig Senfl, a convicção de que a música
poderia, ao lado da teologia, fornecer paz e alegria à alma humana:
"Pois sabemos que os demônios odeiam e não suportam
a música. Dou minha opinião bem franca e não hesito
em afirmar que, depois da teologia, é a música que consegue
uma coisa que no mais só a teologia proporciona: um coração
tranqüilo e alegre. Uma prova muito clara disto é que o
diabo, o causador de tristes preocupações e de tumultos
perturbadores, foge do som da música quase tanto como da palavra
da teologia."
Calvino também usou a música como meio para anunciar
o Evangelho. Ele não permitia o uso de instrumentos musicais
e nem qualquer música no culto. Porém, ele defendia o
uso da música para ensinar as pessoas a recitarem a coletânea
de salmos.
Nos séculos XVI e XVII surgiram as novas tendências e
estilos musicais. Os maiores representantes desta época foram
J. S. Bach pela igreja luterana e G. F. Haendel pela anglicana.
Até hoje a música sacra tradicional segue critérios
dos séculos passados, marcada pelas tradições e
parâmetros herdados do tempo da Reforma.
5.) A Música a Serviço de Teologias e da Missão
Nos círculos evangélicos, principalmente nas igrejas
"não-litúrgicas", na década de 20, iniciou-se
nos Estados Unidos da América a era do gospel song no rádio
e, 25 anos depois, na televisão. Esse tipo especial de canção,
não comunitária, pois era principalmente para solos, duetos,
trios, quartetos e pequenos conjuntos, foi transplantada para os países
evangelizados pelos americanos, tal como o Brasil. Na década
de 40, o evangelismo nessas igrejas, nos encontros de avivamento esteve
principalmente relacionado a Youth for Christ (YFC) e a tradição
gospel.
A era do evangelista Billy Graham iniciou também sob os auspícios
da YFC e do antigo gospel no ano de 1949, tendo como diretor musical
Cliff Barrows, que utilizou repertório da tradição
de avivamento do século anterior, comprovadamente eficaz para
esse propósito.
Nas décadas de 50 e 60, sob a influência dos Rock, despontaram
compositores e grupos do chamado gospel folk (regionalistas), ou gospel
rock na Inglaterra. Muitos hinários da década de 60 publicaram
música nesse estilo, que acabou por revolucionar a música
vigente nas igrejas evangélicas, contextualizando uma linguagem
que estava sendo disseminada rapidamente nos círculos não-eclesiásticos,
graças à moderna tecnologia de comunicação.
A música é arte, e arte é instrumento é
serviço. Quando a música se destina a servir a vocação
da Igreja de Jesus Cristo.
"a arte sacra é algo feito do ser da Igreja e se põe
a serviço da Igreja. A função da arte sacra é
testemunhar Jesus Cristo. Ela também é educativa."
(Caludio Pastro)
Em alguns segmentos evangélicos, caracterizados por teologias
e propostas de missão distintas, é possível perceber
variantes na função da música e, também,
na sua identidade cultural e rítmica. Vejamos:
a) As igrejas pentecostais dão destaque às improvisações
individuais durante seus cultos. Nessas igrejas e em outras evangélicas
sem um rígido padrão litúrgico, a forma de apresentação
da música sacra contemporânea mais usual é a que
imita os grupos musicais denominados seculares, os quais se colocam
no palco à frente da platéia com um líder para
o canto. As melodias não são quadradas, isto é,
não serve como veículo da métrica ditada pelo texto
que, via de regra, foge das rimas antigas. Mas a música segue
padrões novos e modernos e, desta forma, quer servir ao momento
de culto. Busca envolver a todos e todas, emociona e faz dançar.
Os pregadores se beneficiam do momento, criado pela música, e
perseguem seus objetivos pastorais e missionários ancorados a
ela. O conteúdo das músicas cantadas esta afinado com
a teologia e com as propostas missionárias desenvolvidas nessas
igrejas. A música tem a função de criar um ambiente
espiritual e emocional para os pregadores. Nestas igrejas, com grande
participação popular que aglutina as diversas culturas
musicais do Brasil, há uma tendência clara de abraçar
os ritmos autóctones: samba, baião, sertanejo e bossa
nova.
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Paulo ensina: "cantarei com o espírito, mas também
cantarei com o entendimento"
(1 Co 14:15)
"Tem-se caído no extremo de consi-derar que um
culto em que não há êxtase emocional é
um culto morto, que não tem valor. De certa forma tem-se
perdido o rumo dei-xando de lado o aspecto racional e adotando
o outro ex-tremo, o subjetivo, emocionalista, e com um toque
especial de mistério."
(Miguel Ângelo Darino)
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b) Nas Igrejas Neopentecostais a música é um show. O
público não precisa cantar. Ele precisa, assistir, ouvir
e se emocionar. O altar tem a forma de um grande palco, equipado com
as novas tecnologias de luz, som e outros meios de comunicação.
Ela tem as características de um produto exposto para ser consumido
e comprado. Co-existe com a teologia e com as propostas destas Igrejas.
Tem a mesma identidade e função. Assim como Deus é
pregado como um poder absoluto que está longe e que precisa ser
adquirido, um bem de troca para obter benefícios, assim também
a música assume esta característica: um bem enorme que
tem o poder de gerar benefícios sagrados, afastado da grande
comunidade, que precisa ser adquirido. Nestas Igrejas a música
tem uma roupagem comercial explícita, seguindo padrões
internacionais.
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Vamos sempre em cultos missionários, tristes
ao meu ver, quando se canta "Yes, God is good", "Sim
Deus é bom"... com uma alegria burra, crendo que
o grande propósito de Deus para o universo humano é
formar na terra uma imensa e uniforme igreja evangélica.
...Infelizmente nosso "Jesus" fala
inglês... como um fariseu coloca-se sempre à parte
da cultura, acima dela, despre-zando-a completamente em vez
de restaurá-la, redimi-la, comu-nicando-se com ela. Este
"Jesus", fariseu-evangélico ora pelas praças
usando shofares, proclamando-se santo e desprezando tudo e todos
ao seu redor.
... Deus é amor, Não é fariseu, exclusivista,
preconceituoso, racista.
(Bráulia Ribeiro é missionária
em Porto Velho)
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c) Em outras denominações históricas e litúrgicas,
o lugar da música nos cultos e celebrações está
melhor definido e, por isso, limitado. Da mesma forma é um grande
serviço. Porém, agora mais litúrgico, mesmo que
não menos teológico. Pois a palavra e a racionalidade
ocupam um espaço de destaque. A música é da comunidade
que canta e, que indiretamente, define o repertório ao manifestar
suas preferências e gostos musicais. Nestas igrejas a música
não é um show e nem um produto. Mesmo sendo uma peça
secundária no contexto de culto recebe atenção
especial e sofre policiamento na área de conteúdo, ritmo,
melodia, etc. A hinologia destas Igrejas é composta e marcada
por canções centenárias. A contextualização
musical é lenta e cuidadosa. Neste caso é importante observar
que a contextualização da teologia, dos conteúdos
de fé e dos projetos de missão acontecem com maior rapidez
do que a atualização e contextualização
da música. A dinâmica da contextualização
musical nestas Igrejas tem um ritmo mais lento, na proporção
do seu espaço e lugar nas celebrações, cultos e
encontros. Já os movimentos e grandes encontros destas mesmas
igrejas conseguem atualizar as canções e contextualizá-las
numa velocidade muito maior, porque a música nestes eventos ocupa
um espaço expressivo e o seu serviço é considerado
prioritário. Nestes casos a música anima, reúne,
congrega e fala sobre a mensagem de forma mais direta.
6.) A Adoração Contextualizada
A contextualização e a atualização das
canções e hinos de uma Igreja acompanham o conteúdo
das teologias pregadas, dos projetos de missão encaminhados.
Por exemplo, na década de 70 e 80, nas denominações
e nos movimentos que tiveram como base a Teologia da Libertação,
os cantos, os hinos, falavam de luta em favor dos pobres e oprimidos
e convocava os cristãos a se engajarem nesta luta contra a injustiça,
a desigualdade e a opressão dos mais fortes. Os textos dos hinos
(cantados até hoje) tinham um conteúdo marcado pelos parâmetros
do ecumenismo porque vários movimentos e denominações
atuavam na mesma proposta e a maioria das causas era comum. Neste caso
a adoração proposta pelas canções passava
por uma contextualização exigida pela teologia e pelo
projeto missionário específico.
Outro exemplo é a preocupação das lideranças
musicais e dos dirigentes de louvor das Igrejas Evangélicas com
a educação espiritual dos jovens. Ao buscarem a conversão
espiritual e a evangelização dos jovens apóiam
e investem nas músicas sacras com as características da
música "pop". Defendem o canto como um veículo
poderoso para o ensino e crescimento espiritual da juventude. Para atingir
os seus objetivos adotam o mesmo conteúdo e a mesma linguagem
que circula nas rádios, televisões e demais veículos
de comunicação, sem priorizar a coerência doutrinária
e teológica. Neste caso a música é contextualizada
para servir às propostas de evangelização do jovens.
O fenômeno da contextualização da música
com conteúdo religioso se fez presente nas várias etapas
históricas. Davi se apropriou das músicas e do ministério
musical das mulheres e organizou os homens, os levitas, para cuidarem
da musicalidade das festas e do Templo. A música passou a servir
ao Templo e às suas festas.
No tempo de Jesus, sob o Império Romano e sob a influência
cultural grega, a música do povo de Deus sofreu novas influências.
Ela adequou-se ao novo momento da fé, quando Jesus, o Messias,
tirou do Templo alguns poderes sagrados e levou para as vilas e povoados
a presença viva de Deus, ao encarnar pessoalmente o amor e o
poder de Deus. Jesus iniciou um novo tempo. Com a vinda do Espírito
Santo, nasceram comunidades que cantavam, partilhavam os sacramentos
e adoravam a Deus em pequenos grupos, em espaços alternativos,
fora das Sinagogas e do Templo. A música, os hinos, os conteúdos,
assumiram uma nova forma e colocaram-se a serviço de um novo
momento da vivência e da experiência de fé das primeiras
comunidades cristãs.
A Igreja Antiga também atualizou a musica e a contextualizou
para servir aos seus propósitos e demandas.
Na época da Reforma, no século XVI, Lutero e os outros
reformadores adotaram a música como um meio importante para a
divulgação dos conteúdos da fé das novas
comunidades e Igrejas. A música foi contextualizada para servir
ao louvor e à adoração a Deus vestida com os novos
conteúdos e propostas.
Hoje com a pluralidade e a diversidade religiosa e crista, a música,
atrelada a este fenômeno, assumiu formas também múltiplas,
estilos e ritmos diversos, novas linguagens e formas de conteúdo.
7.) Conclusão: Ritmos e Barulhos, Caminhos da Adoração
Quais os barulhos e ritmos que conhecemos? O que é um barulho
para nós? O que é um ritmo e uma linda melodia para nós?
Valsa, vanerão, samba, rock, pop, sertanejo, baião, bossa
nova, reage? Existem para nós instrumentos santos e profanos?
Com facilidade constatamos que a variedade de gostos e de opções
musicais estão diretamente associados à cultura, origem
e história das pessoas, comunidades e povos.
Por conta disso, a adoração e o louvor seguem por vários
trilhos. Em cada trilho tem um trem. Em cada trem vários vagões.
Os trilhos representam a variedade e pluralidade da música com
conteúdo de fé. Os vários trens são os serviços
prestados para cada segmento e/ou denominação religosa/cristã.
Por sua vez cada vagão dos trens representam os diferentes ritmos,
atrelados às diferentes culturas e tradições. Todo
o sistema, os trens e os vagões estão a serviço
da teologia, dos projetos comunitários e missionários.
Geralmente nas Igrejas e, especialmente, na nossa Igreja (IECLB) a
música não é a vanguarda. Ela não define,
ela é definida. Como arte e serviço ela vem depois. Ela
nasce e se coloca dentro de um contexto maior de culto, adoração
e de vida comunitária de fé. Surge dele e serve a ele.
O louvor e a adoração são definidos por quem está
louvando e adorando ou por quem estão dirigindo (mandando) a
Igreja, a teologia, as propostas comunitárias e missionárias,
os movimentos. Podem ser definidos também por projetos individuais.
Nas comunidades da IECLB já existe uma pluralidade musical a
serviço do louvor e adoração porque já temos
uma diversidade de interesses, estamos organizados em regiões
geográficas com culturas diferentes e já existe grupos,
organizações e movimentos com propostas missionárias
e conteúdos teológicos variantes e ênfases diferentes.
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Muitas pessoas
canalizam o medo provocado pela realidade insegura e violenta,
pelas novidades do mundo pós-moderno para a construção
de defesas, e se agarram aos bens subjetivos e emocionais experimen-tados
e vivenciados no passado. A música é um destes tesouros.
Logo os novos instrumentos, melodias e ritmos passam a integrar
o leque das ameaças e soam como barulhos inexprimíveis.
Para aqueles e aquelas que não conhecem as heranças
do passado, os seus ritmos, tradições e valores,
toda esta bagagem, são sem valor e têm uma linguagem
incompreensível. |
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A música sempre é contextualizada. Todos os povos e culturas
tem a sua tradição e a sua linguagem musical. Estamos
falando da diversidade. A nível de Brasil isso se traduz assim:
o povo do sul, o povo do norte, o povo do nordeste, o povo de São
Paulo, o povo do Rio de Janeiro, os jovens com a influência americana,
os jovens com a influência da cultura rural. Somos várias
tribos, somos resultado da influência de várias linguagens
e culturas. Neste contexto a música acontece, ela nasce e ocupa
o seu lugar.
Os povos com culturas e tradições diferentes desenvolveram
valores e bens subjetivos culturais e religiosos também diferentes.
Por exemplo, quem nasceu ouvindo samba ou timbalada não entenderá,
sem nenhuma iniciação e convivência, a linguagem
do órgão ou dos sons marcados pelos códigos musicais
antigos, também aqueles definidos como clássicos.
O que são doces ritmos e melodias para uns podem ser barulhos
para outros. Esta é a conseqüência da diversidade
e da pluralidade. Geralmente não há unanimidade. Uns adoram
e se emocionam com o samba, com o rock, com o pop, com o ritmo e a sonoridade
sertaneja. Outros adoram ouvir e vibram com a música acompanhada
pelo órgão (de preferência órgão de
tubos). Já outros não conseguem entender e nem ouvir este
instrumento, para eles e elas, tão arcaico.
Não dá certo orar o Pai Nosso em português para
quem aprendeu a oração de Jesus na língua alemã.
O contrário é a mesma coisa. Não é sensato
ensinar um cânone com os códigos musicais europeus para
os povos indígenas... Não é fácil evangelizar
as comunidades luteranas com hinos ritmados com o Reage.
Precisamos, no entanto, cultivar um dos dons e tesouros de todos e
todas que estão diretamente envolvidos com a música, compositores,
coralistas e músicos: a sensibilidade.
Antes e depois da sensibilidade a Palavra de Deus é a fonte
de orientação e de luz para o serviço da música
de adoração e louvor. Ao final se faz necessário
apontar alguns aspectos bíblicos desta dimensão ética
de todas e todos que se dispõem a servir a Deus a partir da música.
a) Crer: Marcos 16.16; João 3.16; Romanos 5.1ss
b) Nascer de novo: João 3.3; 2 Coríntios 5.16-18
c) Cultivar a união e a paz: Efésios 4.2-6(7)
d) Orar uns pelos outros pedindo o amor de Cristo: Efésios 3.16-19
e) Ser racional, tornar-se compreensível: 1 Co 14.14-15.
f) Amar uns aos outros: 1 João 4.7-10; João 13.34-35
g) Ser humilde e servir: João 13.12-17; Mateus 20.25-28
h) Ser livre, alegre, sem preconceitos: Gálatas 5.1; Lucas 18.15-17;
João 10.10;Gálatas 3.26-29.