Gottfried Brakemeier
Preliminares
“Quo
vadis, ecclesia?” Para onde vais, Igreja? A pergunta é feita
em muitas partes do mundo e na maioria das instituições
eclesiásticas. As incertezas que oneram o futuro da humanidade
têm reflexos também na Igreja de Jesus Cristo. Relativismo
de um lado e fundamentalismo de outro, ambos acompanhando a multiculturalidade
da sociedade global, a perplexidade ética frente às conquistas
tecnológicas, o absoluto regime de mercado, corroendo as perspectivas
de um mundo mais humano, a simultaneidade paradoxal de entusiasmo religioso
e agnosticismo, são esses apenas alguns dos fatores que respondem
pelas incertezas a que nos referimos e que produzem angústia.
O futuro parece estar bloqueado. Para onde vai o planeta, o país,
a sociedade? Falta sustentabilidade. Seja economia, meio ambiente,
política demográfica, distribuição de poder
e recursos, não há proposta realmente promissora. As
receitas para curar as enfermidades, se existem, são contraditórias.
Em vez de produzir consensos, por demais vezes polarizam grupos e partidos
e conduzem a novos conflitos. Nada mais urgente, pois, do que buscar
rumos alternativos para contornar as catástrofes que se anunciam
e que em parte já hoje são vividas, a exemplo da violência..
O objeto deste estudo é a IECLB (Igreja
Evangélica de Confissão Luterana no Brasil). Ela participa da sociedade, compartilha seu bem
estar e suas dores e tem
uma dívida
evangélica
para com ela.Terá condições de subsistir? A promessa
de as portas do inferno não prevalecerem contra a Igreja de
Jesus Cristo (Mt 16.18), não desincumbem da responsabilidade
humana. Igreja deve aperceber-se dos processos sociais em andamento,
planejar seu futuro, eliminar o que lhe obstaculiza a missão.
Tratar de garantir a sobrevivência às instituições
eclesiásticas é pecado nenhum, desde que o preço
não seja a traição ao evangelho. Pelo contrário,
a missão cristã exige a edificação de comunidade.
Pois esta é a portadora daquela. Sem Igreja não há missão.
O zelo pela fidelidade ao evangelho e a preocupação com
o bem da Igreja, pois, devem andar de mãos dadas. A auto-manutenção
da instituição eclesiástica certamente não é um
fim em si. Está a serviço do mandato recebido de Jesus
Cristo. E no entanto, o cumprimento do mesmo necessita, além
de pessoas, de estruturas que o possibilitam. Em meio aos desafios
do mundo circundante, a Igreja é chamada a definir seu caminho,
colocando marcos orientadores não somente para si mesma e seus
fiéis, como também para a sociedade em termos amplos.
Portanto, perguntamos pela “via” da IECLB e com isto pela sua “viabilidade”.
Há quem fale no “esgotamento do projeto protestante para a sociedade
brasileira”. Porventura, aplica-se o veredito também à IECLB?
Qual seria a proposta eclesiológica alternativa que a um só tempo
seria contextual, contemporânea e condizente com o evangelho?
A resposta vai depender de fatores tanto externos quanto internos,
do mercado religioso, das condições sociais, da capacidade
de adaptação, da força espiritual. De nenhuma
maneira a IECLB pode furtar-se ao diagnóstico crítico,
da avaliação conscienciosa de seu discurso e de sua práxis
frente às demandas do momento histórico. É para
tanto que as reflexões a seguir pretendem contribuir. Nasceram
da preocupação com o futuro da IECLB. Baseiam-se em sintomas
em evidência no corpo da IECLB que merecem atenção
no horizonte das mudanças sociais em andamento no Brasil e no
mundo. Procuremos detectar trilhas que prometam a esta Igreja viabilidade.
Tal tentativa faz sentido somente sob a hipótese de à IECLB
ser confiada um “talento” que está proibida de enterrar (Mt
25.14s). A metáfora do talento acusa a um só tempo modéstia
e orgulho. Na parábola de Jesus, nenhum dos servos recebeu tudo.
Deus distribui, em quantidades assimétricas, dons e deveres,
julgando enfim pelo critério da proporcionalidade. Também
a IECLB recebeu o seu quinhão, com o qual está comprometida
a cooperar no plantio do reino de Deus. Somente cegueira poderia negar
e usá-lo como pretexto para a resignação. Decorre
daí o imperativo de penetrar no mercado religioso, testando
as ofertas em voga e fazendo valer o vigor da confissão luterana.
A IECLB vai ser responsabilizada pela mordomia dos dons, com os quais
foi agraciada. Por isto mesmo deverá desenvolver competividade.
Nós partimos da convicção de que a IECLB faria
falta na ecumene brasileira, caso fechasse suas portas. Vale a pena,
pois, investir em sua manutenção.
Os objetivos do exame que faremos, permanecem modestos, não
obstante. São vários os motivos. O primeiro reside no
fato de a IECLB ser um mosaico de realidades que não permitem
ser niveladas. Por isto mesmo os juízos aqui emitidos costumam
referir-se não à IECLB em seu todo, e, sim, a fenômenos
ou tendências nela existentes. Cabe aos leitores e às
leitoras verificar até que ponto são procedentes em sua
respectiva área de atuação. Além disto,
faltam estudos que ajudem a entender a “conjuntura” da IECLB com maior
precisão numa série de detalhes. Quais as razões
do afastamento de muitos membros de sua Igreja, por exemplo? Em que
medida foram vencidas as barreiras étnicas? Abre-se um imenso
campo de pesquisa ainda pouco explorado. Em terceiro lugar, é óbvio
não haver receitas prontas para as mudanças que são
exigidas da Igreja de Jesus Cristo hoje. A viabilidade da IECLB é interrogante
que se coloca à totalidade dos membros e, naturalmente, com
particular pertinência às instâncias dirigentes.
Vai exigir muita reflexão conjunta. Os “apontamentos críticos” que
tomamos a liberdade de apresentar não pretendem diminuir a responsabilidade
coletiva nem interferir em competência alheia. Querem, isto sim,
estimular um debate necessário, manifestar preocupações,
provocar reações, sugerir algumas pistas. Somente isto.
Se formos injustos nos nossos juízos, pedimos perdão
e estamos dispostos a nos corrigir mediante provas cabais e convincentes.
Igreja estagnada não tem futuro. De certa forma repete-se
hoje a situação do século XVI, quando o clamor
por reformas sacudia a Europa. O exemplo histórico ensina que
a mera re-afirmação da tradição e do status
quo é perigosa. O imobilismo pode detonar em fatais conflitos. É o
que vale para a sociedade global que anseia por “vias alternativas” para
ser viável. Em escala menor isto se aplica também às
Igrejas. Comecemos, pois, “em casa”, com a IECLB. Como Igreja da Reforma
ela sabe da necessidade da permanente auto-correção.
Para dizê-lo em outros termos: Ela precisa converter-se. É da
conversão da IECLB de que tratam os capítulos que seguem.
I. Realidade estatística
Em minucioso levantamento, o ex-secretário geral Gerd U. Kliewer,
compilou e avaliou os dados estatísticos fornecidos pelas paráoquias
nos anos 1998 a 2002. Trata-se de um estudo da mais alta relevância,
entitulado “Crescimento da IECLB”, pioneiro de seu gênero. Isto
apesar de importantes antecedentes, entre os quais cabe mencionar o
censo realizado nos anos de 1987 a 1990, cujos resultados foram parcialmente
publicados no Relatório da Presidência ao Concílio
Geral da IECLB, realizado em Três de Maio, em 1990. Naturalmente
encontram-se dados estatísticos também em outros Relatórios
ou Boletins, anteriores ou posteriores. O que é novo no estudo
de Kliewer é a maneira sistemática da apuração
e interpretação das informações estatísticas.
Embora permaneça certa faixa de insegurança em razão
de critérios ainda não completamente uniformes nas paróquias,
a IECLB dispõe de elementos que lhe permitem visualizar um auto-retrato
bastante objetivo.
O levantamento confirma suspeitas há tempo alimentadas. Isto
vale em primeiro lugar para o número total de membros da IECLB
que se situa por volta de 715 mil pessoas, perfazendo nem meio percento
da população brasileira. Pelo que tudo indica, jamais
o número tem sido substancialmente maior. A uma fase de créscimento
na primeira metade do século passado em razão de reprodução
natural, a membresia da IECLB se estabilizou. De 1997 a 2002 ela cresceu
apenas 0,34%. Os evangélicos de confissão luterana têm
menos filhos do que antigamente. Seu número absoluto só não
decresceu porque nas últimas décadas aumentaram os índices
de expectativa de vida. Isto significa que seus membros são
hoje em média mais idosos. Portanto, a IECLB está envelhecendo.
Espelha-se nisto, sem dúvida alguma, uma tendência registrável
no Brasil em seu todo. Mas há um descompasso. A IECLB perde
na faixa dos jovens. Ela não acompanha o ritmo do crescimento
populacional brasileiro, cuja taxa média era de 1,5 % ao ano.
A pirâmide etária, pois, desfavorece a IECLB em comparação
com o resto do país. Em termos percentuais, a IECLB está perdendo
terreno. A estagnação numérica significa recuo.
Os últimos decênios têm agravado a situação
de minoria dos evangélicos de confissão luterana neste
país.
O alerta já havia sido manifestado no documento “IECLB no
pluralismo religioso”, expedido pela direção da Igreja
no ano de 2000, onde se dizia: “Na IECLB, embora o número de
obreiras/os esteja aumentando, não podemos registrar um crescimento
significativo do número de membros” (p 8). O número de
colaboradores cresceu e o trabalho se intensificou o que, em si, deve
ser considerado fator positivo. Um obreiro ou uma obreira tem menos
pessoas a atender do que em épocas passadas. Estranhamente,
porém, essa vantagem não conseguiu ser traduzida em crescimento
do quadro de membros. Considerando ainda que “a admissão de
pessoas de outra origem religiosa está ganhando espaço” (Kliewer),
a principal causa da estagnação reside na perda de membros.
A IECLB não consegue devidamente segurar e integrar quem a ela
pertence. As admissões não superam as demissões,
respectivamente os desligamentos ou o simples sumiço de pessoas
da vida ativa e do fichário das paróquias. O problema
já não é a conquista de novos membros, graças
a Deus, o que é sinal altamente promissor. Pois revela potencialidades
missionárias. Mas como explicar a evasão de membros,
que é particularmente forte entre os jovens?
É claro que de imediato pode-se apontar para a migração
interna, o êxodo rural e a urbanização que desestruturam
as comunidades tradicionais e as pulverizam pelo imenso território
nacional. Produzem um inchaço geográfico da IECLB, mas
não redundam em real crescimento. Conforme Kliewer, a IECLB “está perdendo
a batalha nas metrópoles e nas grandes cidades”. Aparentemente
a missão urbana ainda não achou um pardigma convincente,
colocando-se como o maior desafio à IECLB no futuro. De Igreja
de perfil rural deve transformar-se em Igreja urbana. Mas a forte perda
de fiéis não se reduz a esta única causa. Há outros
fatores a considerar. Pelo que tudo indica, a IECLB sofre sob fortes
mentalidades exclusivistas, afastando quem foge a determinado padrão.
Lembro a etnia que, em tempos passados, limitava a atuação
da IECLB a descendentes dos imigrantes germânicos. Ainda hoje
pode ser encontrada essa visão estreita, julgando que a fé luterana
não se destina a luso ou afro-brasileiros. Por sua vez, a reação
a uma “Igreja étnica” levou a neglicenciar grupos que preferiam
o alemão como língua de culto. Algo análogo vale
para os empobrecidos que na concepção eclesiológica
das comunidades tradicionais não estão previstos. Muitos
pobres já não mais enxergam espaço em sua Igreja.
Novamente em contrapartida, preconizou-se o ideal de uma Igreja de
pobres, cujo discurso, por algum tempo, marginalizou os considerados “burgueses”.
Somam-se a isto os exclusivismos teológicos que pressionam os
membros a aderir a determinado estilo de piedade. Cai fora quem nele
não se enquadra. Vale a pena, pois, verificar os exclusivismos
reinantes na IECLB para ver o quanto contribuem para a estagnação. É claro
que a Igreja de Jesus Cristo deve colocar balizas a fim identificar
o que é evangélico e o que não o é. Mas
há barreiras artificiais, ilegítimas que obstruem a construção
de comunidade.
Neste mesmo contexto é interessante observar que a orientação
teológica, sob as quais são conduzidas as comunidades,
faz pouca diferença. Ainda faltam estudos conclusivos quanto
a este aparte. Dados seguros são difíceis de obter principalmente
em razão da troca de pastores. Comunidades são “pastoreadas” ora
neste ou naquele estilo. Mesmo assim se delineia claramente serem as
paróquias de “linha tradicional” as que, no conjunto, “apresentam
o melhor desempenho em termos de crescimento” (Kliewer). É verdade
que a “linha evangelical”, ou seja o Movimento Encontrão, com
sua ênfase na evangelização e missão, melhor
soube atrair membros de outros ambientes culturais e religiosos. E
no entanto, permanece a impressão que enquanto faz entrar novos
membros pela porta da frente, “outros saem pela porta dos fundos” (ibd.).
Em termos gerais, o movimento evangelical não fez a IECLB crescer
em número de membros. Algo semelhante vale com relação à chamada “linha
sócio-política”. O quadro é oscilante. Paróquias
sob tal orientação perderam membros, outras conseguiram
um modesto aumento. Mas o balanço geral não indica significativos
avanços. Com relação ao “Movimento Carismático” ainda
faltam os dados. Certo é que costuma conduzir a sérios
conflitos comunitários. Também desta vez a conquista
de novos membros parece ter por preço o abandono e a consequente
exclusão dos antigos. Será forçoso que assim seja?
Os dissensos teológicos acabam fraccionando a IECLB, certamente
não na cúpula, e, sim, nas bases, constituindo-se em
forte obstáculo ao crescimento. A temida divisão da IECLB é um
processo em pleno andamento.
Tal constatação reforça a pergunta pelos “exclusivismos” que
trancam o desenvolvimento. Será intolerância uma característica
dos movimentos, permitindo-lhes constituir apenas grupos, facções
e não comunidade? Em que medida são capazes de admitir
legítima diversidade? A pergunta recebe reforço pelo
pluralismo da sociedade democrática, moderna. Como integrar
o diferente e onde traçar as fronteiras do permitido e do proibido?
Comunidade cristã, ela terá vez diante das opções
do mercado religioso que se rege pela lei da oferta e da procura? Também
questões estruturais deverão ser repensadas. Na IECLB
prevalece a estrutura paroquial. Isto significa que a comunidade cobre
determinado espaço geográfico, atendido por um/a só obreiro/a.
Que fazer para que essa estrutura tradicional funcione também
nos grandes centros urbanos? Por acaso, deverá ser substituída?
São muitas as perguntas. Certo é que a IECLB, para
ser viável, deve crescer. E para crescer, são necessárias
mudanças. Eis a conclusão sombria a que chega o estudo
de Kliewer: “Mantida a conjuntura atual, a IECLB não tem condições
de crescer em número de membros.” Isto significa que os dados
estatísticos redundam num atestado de inviabilidade da IECLB.
Sob as condições atuais, a IECLB não tem futuro. É claro
que isto não se aplica a todas as paróquias e a todos
os sínodos. Há que se respeitar as diferenças.
E no entanto, o prognóstico do desenvolvimento da IECLB em seu
conjunto é nada animador. Deveremos por isto resignar? De modo
algum. Pois o levantamento estatístico também mostrou
haver potencialidades. A IECLB possui talentos, sim. Mas sua mobilização
exige correção de defeitos. É nossa convicção
que os fatores inibidores do crescimento são predominantemente
de ordem interna. São produzidos “em casa” e, exatamente por
isto, suscetíveis de conserto. A pergunta é, se a IECLB
tem a energia para ser o que ela é, a saber “Igreja da Reforma.”
II. O desafio da missão
Durante mais que um século os evangélicos imigrantes
da Alemanha tinham sua identidade garantida. A germanidade assegurava
a membresia às comunidades, bem como aos posteriores Sínodos
que se formaram em solo brasileiro. Não se pretendia a missão
na nova pátria. Considerados hereges pela Igreja Católica
que gozava de oficialidade no Império, os imigrantes se contentavam
com a condição de grupos tolerados sem direito à propagação
de sua fé e de seu “rito”. Este passado gravou profundas marcas
no povo luterano. Elas não puderam ser desfeitas nem mesmo depois
da proclamação da liberdade religiosa no País,
em 1889, e da fusão dos Sínodos na “Igreja Evangélica
de Confissão Luterana no Brasil”, em 1949. É verdade
que já muito cedo se percebeu não haver futuro para uma
Igreja baseada em fundamento étnico somente. Não obstante
o despertar para a terefa missionária foi um processo longo
e penoso. Ainda não está, de modo algum, concluído.
Para tanto contribuiu uma teologia que, em decorrência de experiências
traumatizantes no passado, confundia missão com alienação
cultural, respectivamente com proselitismo. Não só no
Brasil, em todo o mundo, “missão” era fenômeno suspeito,
idéia associada ao colonialismo do século XIX. Enquanto
na esfera secular “publicidade”, “propaganda”, “divulgação” são
considerados direitos naturais, implícitos na cidadania, nas
Igrejas chamadas históricas a “tarefa missionária” se
defrontava com resistências. Claro, missão está profundamente
arraigada no ser da Igreja. Não pode ser abolida Mas que significaria?
Transformação social, presença evangélica,
conversão de indivíduos, ação diaconal?
O conflito das interpretações paralizava também
a ação da IECLB. O tema esteve em pauta pela primeira
vez no IX Concílio Geral, realizado em 1974 em Cachoeira do
Sul. O documento que produziu sob o título “A IECLB – Igreja
Missionária no Brasil”, certamente deu valiosos impulsos. Mas
ficou devendo uma definição precisa. A missão
sucumbiu na variedade dos afazeres de uma Igreja ativa, sem claro perfil
e proposta. Que missão tem algo a ver com edificação
de comunidade permaneceu aspecto marginal.
Desde então foram várias as tentativas de levar adiante
a reflexão missionária. As circunstâncias a tanto
obrigaram, entre elas o desafio da migração e a crescente
concorrência religiosa, principalmente nos centros urbanos. A
germanidade já não constitui o vínculo natural
das pessoas com a IECLB. Mais e mais ela deverá definir sua
identidade em termos rigorosamente confessionais. Que significa isto?
De um modo geral vivemos a erosão dos fundamentos da sociedade.
Fala-se em “destradicionalização”. Por isto mesmo, a
mera força da tradição não vai segurar
os membros na IECLB. Futuramente vai pertencer a ela somente quem para
ela foi conquistado, respectivamente quem a ela se filiou de modo consciente.
Quem não faz missão, vai sofrer a missão por parte
de outros. A inquietitude de muitas comunidades por sobre o avanço
agressivo de outras religiões, denominações e
novos movimentos religiosos exige não só medidas defensivas,
entre as quais merece destaque a formação teológica
da comunidade. Da mesma forma é preciso despertar para a própria
missão. O imperativo conduziu à proposta de “Recriar
e Criar Comunidades Juntos”. É este o título do “Plano
de Ação Missionária do IECLB” (PAMI), lançado
no ano de 2000. Ele representa um decisivo passo adiante. Redescobre
a comunidade como sendo, a um só tempo, agente e meta da missão.
Dizia o subtítulo: “Nenhuma comunidade sem missão - nenhuma
missão sem comunidade!” Não se nega ser missão
evangélico-luterana multidimensional. Mas ela está centrada
na comunidade, incumbida de levar o evangelho aos confins da terra.
A mobilização trouxe alguns bons frutos, a exemplo
das valiosas iniciativas do Movimento Encontrão sob o nome “Missão
Zero”. O mesmo vale para projetos de missão urbana. Uma avaliação
exata dos efeitos da arrancada missionária da IECLB está fora
de nosso alcance. Certo é que a campanha “mexeu” com as consciências,
eliminou antigos entraves, abriu perspectivas. A causa não deveria
cair novamente em esquecimento. Missão como convite em nome
de Jesus Cristo para abraçar a fé e juntar-se em comunidade
não tem nada de violento. Não nega a sabedoria dada a
outros. Mas não deixa de trabalhar com o próprio talento.
Dirige-se prioritariamente a gente “sem Igreja”, não aos membros
fiéis de Igrejas irmãs. Ecumenismo e missão não
são atividades excludentes. Queremos ao mesmo tempo a comunhão
e a comunidade. O que se pretende é uma Igreja “atrativa”, que
chama e convida nos termos do que já foi o tema da IECLB: “Aqui
você tem um lugar”.
Descontando, porém, alguns louváveis avanços,
a IECLB ainda está longe de ser uma Igreja missionária.
Por demais vezes, a mentalidade não acompanhou os projetos.
Um dos fortes sintomas para tanto são os percalços financeiros,
relativos à contribuição do membro à paróquia
e desta à IECLB. Inadimplência e pobreza certamente agravam
a situação. Mas não explicam as dificuldades.
Estas resultam antes de uma concepção “clubista” de comunidade,
de acordo com a qual o dinheiro compra o direito de sócio, e,
portanto, de ser servido. Sob tal ótica, é claro, a contribuição
deve ser igual para todos e tão baixa como possível.
Contribuição como participação na “missão
de Deus” no mundo está fora da perspectiva. Também os/as
obreiros/as estão muito conscientes de seus direitos. Eles os
cobram das comunidades, não raro em prejuízo das mesmas.
Vocação deu lugar ao professionalismo. Claro, também
aos/às obreiros/as assistem direitos. Mas quem nada puder fazer
de graça, não está apto a servir na seara do Senhor.
Da mesma forma é importante não negligenciar a competência
profissional. E no entanto, puro professionalismo pode ser altamente
frio e técnico. Vocação vai garantir o amor à causa,
sem o qual o trabalho perde crédito. Somando-se a isto os escândalos
produzidos por “mercenários” por quaisquer estúpidas
razões, comunidades são literalmente “destruídas”.
Um dos critérios de avaliação pastoral deveria
ser o crescimento numérico da comunidade. Foi positivo, foi
negativo, por que razões? Obreiros/as que causaram danos à comunidade
ou que provocaram divisão não deveriam ter a chance de
repetir o mesmo em outros lugares. São duras tais palavras.
Atingem, assim espero, apenas uma diminuta minoria. Mas são
necessárias como ajuda para não abortar o precioso projeto
missionário. Repito o que eu já disse em outro lugar:
Quem quiser encher um balde de água, deve primeiro tapar possíveis
furos. Existe uma “contra-missão” na Igreja que é preciso
evitar.
Mentalidade missionária requer a consciência de que
todo membro é importante. Sofre com qualquer desligamento. Também
não espera as pessoas chegar. Vai em busca das mesmas, convidando,
indo, procurando. Por isto mesmo o serviço da visitação é fundamental,
uma tarefa, aliás, cabível não apeans aos/as obreiros/as,
mas a eles e elas também. As pessoas precisam sentir-se valorizadas.
Da mesma forma torna-se cada vez mais importante o que chamo de “aconselhamento
diaconal”. Outras denominações atraem pessoas com promessas
de ajuda em problemas do cotidiano. Por que não as comunidades
da IECLB? É um aconselhamento algo diferente do pastoral, não
centrado apenas em assuntos de fé ou de ordem estritamente pessoal.
Por isto mesmo deveria funcionar em lugar nêutro, mas como visível
promoção da comunidade. Diaconia sempre tem sido porta
de entrada para a missão. Amor conduz à fé, assim
como este àquele. É sinal alvissareiro que a IECLB finalmente
se identifica. Igreja missionária não pode ficar escondida.
Deve procurar o mercado, o público, fazer valer a sua voz, marcar
presença. O uso da mídia é para tanto instrumento
imprescindível. A Igreja católica e os pentecostais que
nô-lo ensinem. Não se trata de imitá-los. Pois
evangelização e manipulação do povo pode
facilmente confundir-se. Mas há o que aprender. Como Igreja
luterana temos sido por demais acanhados no passado, retraídos,
invisíveis. Somos chamados a ser cidade edificada no monte,
como quis Jesus.
Ao mesmo tempo importa adotar e ensaiar o espírito da acolhida.
Não raro falta afetividade no nosso jeito de ser, um campo a
ser trabalhado. Não poucas pessoas se sentem rejeitadas pelo
luteranos. A boa acolhida inicia na secretaria paroquial, mas tem prosseguimento
nos cultos, nos ofícios, na catequese e nas demais atividades
da comunidade. Tal espírito implica a prontidão para
aceitar o diferente, pessoas de outras tradições culturais.
Comunidade cristã não é “panelinha”. Não
junta os iguais. Antes procura integrar “judeus e gregos”, os de perto
e os de longe. Certamente não se trata de crescer a qualquer
preço. A IECLB deve preservar sua identidade. Nem tudo cabe
dentro de seus muros. Como Igreja confusa não terá vez.
Precisa de clara proposta. Mas esta deve ser acessível a todos
e animar para participar. Missão evangélica certamente
deve traduzir-se em programas e iniciativas. Mas é muito mais
do que isto. É um jeito de ser.
III. A pergunta pela identidade
Na sociedade pós-moderna, a religião já não é como
era antes. Mudou de “cara”, de função, de papel. Se antes
estabelecia as normas e dava direção à vida individual
e social, hoje tornou-se opcional. Foi privatizada e convertida em
mercadoria de consumo. Deve atender expectativas subjetivas, imediatas,
concretas. Por isto ficam desestabilizadas as instituições,
tradicionais guardiães de causas coletivas. O corpo está ameaçado
de se desintegrar em mosaico de peças exóticas. Religião,
para ter vez no mercado, precisa ser eficiente, mostrar resultados,
acertar o gosto do freguês. Quais são as chances de Igreja
de confissão luterana nessas condições?
Todas as Igrejas históricas, umas mais outras menos, lutam
com esse problema. Porventura, tornaram-se caducas? Quem tira lucro
são os movimentos, as empresas religiosas e o comércio
correspondente. Ocultismo, esoterismo, mística e temas afins
oferecem “best-sellers” nas livrarias, mas sem reflexos nas Igrejas.
O mercado religioso parece privilegiar, de momento, uma religiosidade “pentecostalizante”,
festiva, exorcisante, cuja oferta se resume essencialmente no que se
entende por bênção. Ao lado da mesma pululam o
espiritismo e as propostas reencarnacionistas. É pitoresco o
quadro religioso no Brasil. O desencontro entre a oferta da Igreja
e a demanda do mercado pode conduzir a sérias frustrações
de pastores e pastoras. Veem debandar as massas para outros templos
que não os seus. Buscam desesperadamente por receitas para recuperar
a dinamicidade.
Nesse drama não adianta definir “identidade luterana” tão-somente
em termos dogmáticos, teóricos. Que significam os quatros “sola”,
por exemplo, o somente por graça, somente por fé, somente
Cristo e somente a Escritura, em termos concretos no contexto brasileiro?
O que decide sobre sucesso e fracasso no mercado é uma práxis.
As pessoas querem usufruir, entusiasmar-se, vibrar. O tradicional discurso
luterano, centrado na justificação por graça e
fé, no perdão dos pecados, na morte expiatória
de Cristo parece não atingir o público de hoje. Eis porque é forte
a sondagem de novas fontes de inspiração. Boa parte das
tensões na IECLB decorre de empréstimos tomados de fora
na esperança de re-mobilizar a própria Igreja. Se vemos
bem, tratra-se de paradigmas transdenominacionais, modernos, de indiscutível
relevânica, muito embora possam ter correspondências na
própria tradição confessional. O fenômeno
religioso se apresenta numa extraordinária gama de variantes.
Tentamos catalogar algumas das mesmas:
-Religião está a serviço da libertação
dos oprimidos, da promoção de “salvações
históricas”, da humanização da sociedade. Mesmo
após a derrocada da utopia socialista, a teologia da libertação
continua vigorosa, preconizando o “princípio misericórdia” (J.
Sobrino), a “opção preferencial pelos pobres” em prol
da luta por justiça, orientada nos valores do reino de Deus.
Certamente o evangelho não se resume em ação política,
mas não pode ser imaginado sem ela.
Religião recupera a auto-estima. Misturam-se aí “o
auto-reconhecimento, a presença de um Deus interior, a conquista
de um Eu superior, o autoaperfeiçoamento, o crescimento harmônico
interno, práticas de cultivo à subjetividade e o ideal
de um self perfeito e deificado...” Pretende-se a construção
da personalidade no anonimato da sociedade técnica e o resgate
das vítimas de às vezes histórica discriminação.
-Religião proporciona experiências místicas,
de devoção ao sagrado, de profunda emotividade. O funeral
do papa João Paulo II para tanto tem sido exemplo. A esmagadora
maioria dos fiéis católicos discorda dos ensinamentos
desse papa, mas se empolga com o fascínio de sua pessoa. Religiosidade
moderna quer a emoção, é sentimental, até mesmo
aberta para a magia. Procura espaços para a alma na fria racionalidade
de um mundo científico e funcional.
-Religião promete fortes sensações. Atende a
moderna demanda de aventura e experiências radicais. Aumenta
o nível de “adrenalina” no sangue. Em suas variantes carismáticas
promete êxtase, o elevar-se acima da rotina do cotidiano, o estar
fora de si. Chama atenção exatamente por isto. Cai em
vista, adere à “show-mania”, provoca entusiasmo.
-Religião é meio para conseguir cura divina, prosperidade,
sucesso, uma necessidade premente na competividade social, especialmente
entre a parcela carente da população. Seriam implicações
da bênção de Deus, aliás já não
entendida como dom gratuito, e sim, como prêmio a ser conquistado
mediante investimento, inclusive financeiro. A teologia da prosperidade
representa a mais consequente inserção da religião
na ideologia do mercado.
-Religião fornece as certezas existenciais, sem as quais o
ser humano sucumbe no relativismo. Afirma verdade, e o faz de modo
categórico, insofismável, indubitável. Transmite
o sentimento da segurança. Daí as tendências exclusivistas
das religiões. Em épocas de desorientação
geral, propostas fundamentalistas gozam de renovado interesse.
-Religião garante o status de pessoa eleita, salva, distinguindo-se
da massa dos incrédulos. Para tanto pode ser alegada a ortodoxia,
isto é a fé correta, ou a ortopraxia, a piedade, a ação
correta. Assim ou assim, a pessoa crente se destaca das perdidas, das
não convertidas, das que fazem parte do eixo do mal. A consciência
da eleição implica a auto-valorização da
pessoa.
A lista não é completa. O fenômeno religioso
se apresenta complexo e multifacetado. Além disto, a tipificação
possui algo de artificial. Pois os paradigmas se mesclam, podendo um
adotar características de outros. Não se trata de enquadrar
as formas da religiosidade contemporânea num esquema rígido.
O que importa é descobrir ênfases, articulações
específicas do que está sendo apregoado como “evangelho” hoje.
E é nisto que as propostas variam e até divergem. Os
paradigmas procuram, cada qual a seu modo, atender anseios humanos.
E eles o fazem com indiscutível respaldo bíblico, muito
embora o limite entre uso e abuso também desta vez seja pequeno.
Voltamos a perguntar: A “ênfase” luterana deverá ser dada
em qual das propostas acima?
É claro que, sob a perspectiva luterana, é impossível
simplesmente optar. Isto uma vez porque as prioridades da ação
pastoral são fortemente ditadas pelas emergências situacionais.
Discurso e práxis da Igreja terão que primeiro ver e
ouvir para então reagir. Ademais, seria leviano aderir a uma
das ondas religiosas somente para acompanhar as modas. Sucesso no mercado é importante,
sem dúvida, mas não será necessariamente sinal
de autenticidade evangélica. Também no mundo da religião
nem tudo o que brilha é ouro. Permanece válido o princípio
de Paulo que exorta a examinar tudo e reter o que for bom (1 Ts 5.21).
Desrecomenda-se, enfim, copiar estilo alheio. Se queremos imitar os
pentecostais, saibamos que eles fazem melhor. Pois a cópia jamais é idêntica
ao original. Para evitar mal entendidos seja sublinhado que de modo
algum negamos a necessidade da “aprendizagem ecumênica”. Outros
grupos religiosos têm muito a ensinar aos luteranos. Vale lembrar
que desde sempre a pregação do evangelho teve que fazer “concessões” às
preferências do público, teve que auscultar o mercado
e aperceber-se da justa demanda. É legítimo, por exemplo,
o apelo emocional na evangelização, é legítimo
o desejo por visualização da fé em símbolos
e retratos, é legítimo o anseio por cura. Quem não
ouve o clamor do povo não vai poder socorrê-lo. Igreja
luterana está impedida de cultuar um estéril confessionalismo
que passa ao largo dos anseios das multidões no século
XXI.
Dito isto, porém, ela deveria energicamente conscientizar-se
de seu talento. Ele consiste no que tem sido o impulso original da
Reforma, a saber o irredutível compromisso com a verdade da
fé. Na ótica de Lutero e dos demais reformadores, o problema
da época não era a falta de religiosidade. Pelo contrário,
o povo era extremamente devoto, obediente às instruções
da Igreja, ansioso por garantir sua salvação. Mas era
uma religiosidade “ignorante”, ingênua, até mesmo estúpida,
desorientada. O mesmo vale hoje: Fé e religião não
são sinônimos. Existem, isto sim, afinidades. Assim como
a religião não pode ser imaginada sem um mínimo
de “crenças”, assim a fé costuma e até mesmo precisa
usar expressões religiosas. Ainda assim, convém não
confundir. Religiosidade pode abrir mão de “confessionalidade”.
Não precisa de teologia. É emoção, comoção,
adoração, deslumbramento ou estarrecimento perante o
sagrado. Enquanto isso, a fé especifica seus conteúdos,
presta contas de suas convicções, reflete. Analisa a
religiosidade corrente para testar sua solidez, sua natureza evangélica,
sua autenticidade. A Reforma causou escândalo justamente por
isto.
Sem possibilidades de, neste contexto, aprofundar a relação
complexa entre fé e religião, chamo atenção
ao fato de que o tão falado retorno da religião num mundo
que parecia encaminhar-se à total secularidade, não conduziu
ao renascimento da fé. A religiosidade está muito viva,
mas a fé está em profunda crise. O mundo pós-moderno
não sabe o que deve e pode crer, ou seja em que confiar, em
que apostar a existência, por onde se orientar. Com isto sumiram
os parâmetros do normativo. A fé foi substituída
por religiosidade emocional, privada, opcional, ou seja por uma religiosidade “light” que,
enquanto não fanática, não incomoda nem transforma.
Por via de regra exerce função compensatória.
Entretanto, ela pode ser facilmente instrumentalizada para fins políticos,
ideológicos, étnicos e outros. O fervor religioso, então,
descamba em raiva que se descarrega em supostos culpados e cria vítimas.
Ele gosta de demonizar o diferente, desencadear guerras santas, conclamar à batalha
espiritual, na qual nós naturalmente sempre estamos no lado
certo. Ele precisa de inimigos para se auto-afirmar. Religiosidade,
por si só, costuma ser altamente irracional e por isto suscetível
de manipulação.
Não assim a fé bíblica. Jesus não dispensa
o juízo quando o assunto é fé. Através
de sua atividade pedagógica promove a capacidade de discernimento
das pessoas entre Deus e ídolos, entre realidade e ilusão,
entre o bem e o mal. Fé autêntica jamais é cega.
Sabe das razões que a sustentam. Não se deixa seduzir
por promessas falazes. Embora não tenha provas científicas
para as suas verdades, dispõe de bons argumentos. Muito de acordo
com isto, M. Lutero preconizou a comunidade adulta como modelo de comunidade
evangélica. Ela não é composta de “massas populares”,
dependentes de tutela humana. Constitui-se, muito antes, de sujeitos
conscientes, discípulos, pedras vivas. É uma implicação
do que o reformador chamou de sacerdócio geral de todos os crentes.
A Igreja luterana é herdeira desse compromisso ambicioso.
Quer a fé assumida de seus membros, não o ôba-ôba
religioso, superficial e passageiro. A proposta luterana no mercado
das religiões é a sabedoria do evangelho, mediante a
qual desafia as loucuras deste mundo (1 Co 1.18s). Insiste no bom senso
na religião, na ciência, na política, lembrando
que as maiores conquistas do ser humano a nada se reduzem, se não
estiverem acompanhadas pelo amor (1 Co 13.1s) e pelo temor a Deus (Pv
1.5). Ela fará valer a mesma insistência frente ao agnosticismo
que, ao lado da religião e em meio a ela, está ganhando
espaço na sociedade brasileira. Conforme o Sl 14.1, a negação
de Deus não é sinal de inteligência, e, sim, de
estupidez. Um mundo ateu não é de modo algum mais prudente
do que um mundo supersticioso. G. U. Kliewer, em palestra sobre o referido
estudo estatístico da IECLB, recomendou aos e às estudantes
de teologia o empenho por comunidades “interessantes”. E com efeito,
somente como Igreja interessante a IECLB terá competividade
no mercado religioso. Vale a pena, assim entendo, competir com a sabedoria
da fé nos “tsunamis” religiosos que varrem o mundo globalizado.
IV. O conflito das eclesiologias
Por enquanto, porém, não há consenso nenhum
quanto ao perfil de uma “Igreja evangélica de confissão
luterana no Brasil”. Pelo que tudo indica, a base formal da Constituição
da IECLB é insuficiente para garantir a sintonia de propósitos.
Muito à semelhança do que recentemente se constatou com
relação ao Conselho Mundial de Igrejas, reina também
na IECLB verdadeira “selva de eclesiologias”. Existem várias
Igrejas na mesma estrutura. Os movimentos possuem, cada qual, seus
devocionários, seus cancioneiros, suas editoras e mesmo alguma
administração. Realizam seus próprios encontros.
A IECLB conta com três Faculdades de Teologia, centros de formação
de obreiros/as, com referencial bibliográfico e orientação
teológica distintos. Seja repetido que variedade não é prejuízo
enquanto integrada, “puxando a mesma carroça”. Entretanto, permanece
a pergunta: Afinal de contas, que é a IECLB? Um movimento popular,
uma comunidade eclesial de base, uma sociedade cultural religiosa,
uma célula pietista, um grupo carismático, um encontrão
- ou? Todos reivindicam espaço na IECLB. Mas este está ficando
pequeno para tanta diferença. É urgente que os movimentos
especifiquem sua eclesiologia e a coloquem em discussão. A Pastoral
Popular Luterana, o Movimento Encontrão, a Missão Evangélica
União Cristã, a Comunhão Martim Lutero, a Renovação
Carismática, como imaginam Igreja luterana neste País?
Existe uma proposta viável, consensual? Esta, aliás,
deverá levar em consideração, não por último,
a eclesiologia de fato existente nas comunidades. Pois não adianta
sonhar Igreja à parte da realidade. Os sonhos terão condições
de realizar-se? Como? A IECLB sofre sob a síndrome das “eclesiologias
submersas”, presentes, mas não discutidas abertamente, uma fonte
de permanentes conflitos.
Em 1994, o Concílio Geral realizado em Cachoeira do Sul, houve
por bem resolver uma “constituinte” da IECLB. Ela redesenhou a estrutura.
Entrementes uma “constituinte teológica” atingiu o mesmo grau
de urgência. Qual poderia ser o consenso teológico que
permite à IECLB ser de fato Igreja? Consensos exigem diálogo,
trabalho teológico, intercâmbio de experiências.
Assim sendo, deve-se energicamente resistir à tentação
de resolver as divergências teológicas através
da conquista de maiorias nas instâncias decisórias. A
imposição de um grupo vai rachar de vez a IECLB, mesmo
que aconteça com o respaldo do Concílio Geral. Tais considerações
voltam a levantar a pergunta pelo papel dos movimentos na Igreja. Também
esta questão está totalmente indefinida. Movimentos são
valiosos enquanto acrescentam, são perigosos quando pretendem
substituir. No primeiro caso, os movimentos assumem o jeito de ser
da Igreja, da qual fazem parte. Inserem-se em suas ordens, usam o material
litúrgico oficial, seguem as diretrizes dos documentos normativos,
procurando enriquecer através de novas ênfases. Se, porém,
desenvolvem estruturas paralelas, promovem a ruptura. Reclamar espaço
na Igreja para desrespeitar suas ordens, é sinônimo de
preparar a cisão. Julgo importante um acerto claro entre os
movimentos e a direção da IECLB para definir expectativas
mútuas, compromissos, atividades. Aplica-se isto também à Pastoral
Popular Luterana que não se entende como movimento, e, sim,
com espaço na IECLB. A diferença me parece mínima.
Qualquer acerto deve inevitavelmente traçar limites. Não
nego ao movimento carismático potencial renovador. Mas quando
adota a prática do rebatismo, respectivamente o “batismo de
crentes”, ele ultrapassa a linha do tolerável. A concordância
com o rebatismo não só conflitaria com a tradição
luterana, ela colocaria a IECLB na contramão da história
eclesiástica, com inclusão do testemunho bíblico.
Isolaria a IECLB no mundo ecumênico. Quem rebatiza, já abandonou
a IECLB. Por isto surpreende o apoio do Movimento Encontrão
aos carismáticos, expresso no folheto expedido em 2001 sob o
tema”Que Igreja queremos?” Merece aplauso o convite à conversa,
bem como a iniciativa de discutir eclesiologia na IECLB. Mas, poderá ser
incondicional e irrestrito o apoio à Renovação
Carismática? Porventura, o Movimento Encontrão vai fazer-se
porta-voz do rebatismo? É claro que a questão dos limites
da IECLB é mais ampla. Exige uma discussão à parte.
As grandes vítimas dos dissensos na IECLB são as comunidades
e as paróquias. Sofrem sob o impacto da orientação
divergente de seus/suas pastores/as e demais obreiros que se revezam,
enquanto elas, as comunidades, não têm condições
de transferir-se. Aliás, é à “teimosia” das comunidades
locais que a IECLB deve a unidade que lhe resta. Pois, se elas tivessem
optado a favor de uma das “linhas” na IECLB, a ruptura já há tempo
estaria consumada. Não obstante, a disputa teológica
na IECLB causa danos às comunidades. Arranca-lhes fatias, cujo
tamanho depende da intransigência com que as lideranças
impõem o seu regime. A direção da IECLB tem tentado
reagir, procurando participar mais decisivamente no provimento das
vagas. Avaliações periódicas pretendem impedir
a fixação indevida de obreiros e obreiras em determinados
campos de trabalho. Mas as tentativas se mostram ineficientes sempre
que os/as obreiros/as são hábeis em consiguir o apoio
dos presbitérios e das diretorias paroquiais. Isto pode conduzir
a perigosas constelações. Pergunta-se, se nesse tocante
as atribuições dos Sínodos e da Secretaira de
Pessoal não deverão ser ampliadas para evitar que obreiros/as
e comunidades sigam rumos que os afastam da IECLB.
Ao falar nisso, convém apontar ao perigo que chamo a “privatização
da comunidade”. Ela acontece sempre que os pastores ou as pastoras
se portam como chefe do rebanho, ditam as regras de jogo em desrespeito às
normas vigentes e impõem a sua teologia. Quando um pastor decreta
a abolição do talar, por exemplo, quando por princípio
se nega a batizar crianças, quando implanta novas regras para
a celebração da santa ceia ou introduz hinários
de outras Igrejas estabelece regime autoritário e trata a comunidade
como se fosse sua propriedade particular. Ora, a comunidade evangélica é propriedade
de Jesus Cristo, santuário de Deus, cuja destruição
não passará impune (1 Co 3.17). Ela faz parte de um corpo
que se chama IECLB, cuja confessionalidade e cuja ordem foi por ela
estatutariamente abraçada. Por sua vez, a ordenação
compromete os pastores e as pastoras com exatamente estas normas. Então,
a falta de disciplina e o autoritarismo pastoral são atentados
contra a natureza da comunidade. Também pastores devem aprender
a aceitar a condição de minorias vencidas e respeitar
tradições. O mesmo autoritarismo, aliás, pode
ser encontrado em lideranças leigas. Também presbitérios
ou diretorias não estão imunes contra a tentação
de apoderar-se do rebanho de Jesus Cristo, estabelecendo seu próprio
governo sob desconsideração dos dispositivos regimentais
e de resoluções conciliares. A privatização
da comunidade, seja por quem for, acarreta prejuízos e ameaça
a unidade do corpo. É uma tentação a que se deve
resistir.
Pelo que tudo indica, ainda não temos descoberto na IECLB
o jeito como lidar com pluralidade. Isto apesar de tão substancias
manifestos como o já citado “IECLB – no pluralismo religioso” e
o texto aprovado pelo XXIV Concílio da Igreja em 2004 com o
título “Unidade: Contexto e identidade da IECLB.” As propostas
precisam traduzir-se em estratégia pastoral em nível
paroquial. Espera-se dos obreiros e das obreiras que saibam trabalhar
conflitos, que desistam de “optar” a favor do grupo de sua preferência
na comunidade, que sejam servidores e servidoras de todos. Se em governo
secular é assim, quanto mais na Igreja. Clientelismo sempre
polariza. Para atingir os diversos públicos que se encontram
também na comunidade evangélica, necessário se
faz diversificar a oferta. Necessitamos de várias propostas
litúrgicas, de opções diferentes para o trabalho
com jovens ou com pessoas provenientes de outros ambientes culturais,
bem como de cursos específicos para a formação
teológica da comunidade, para citar apenas estes exemplos. A
IECLB necessita de espaço experimental. Cabe cuidar, porém,
para que por sobre a diversidade não seja perdida a coerência
evangélica e o perfil próprio da confessionalidade luterana.
Em todas as inovações deve ser possível reconhecer
a face inconfundível da IECLB.
V. O charme luterano
Para ser viável, a IECLB precisa eliminar barreiras internas
que lhe entravam o crescimento. Deve aprender, sobretudo, o mutirão
eclesial. Por ora não consegue controlar o suficiente as forças
centrífugas nem unir-se em torno de um projeto comum. Volta
a manifestar-se, na IECLB, o tradicional “déficit eclesiológico”,
típico do luteranismo. Para muitos luteranos, Igreja não
passa de um mal necessário, uma concepção que
favorece o individualismo e o corporativismo, ambos lesivos à comunhão
dos santos. Falta auto-estima eclesiológica aos membros e grupos
na IECLB. Também no mais há muito a arrumar na casa.
Importa acentuar a dimensão mística, emocional da fé,
trabalhar mais com símbolos e fazer o evangelho visível,
sem cair refém de uma religiosidade tonta. Recomenda-se conjugar
melhor a fé e o amor, bem como o temor a Deus e a alegria que
nasce do evangelho. Sonho com comunidades celebrativas, agradecidas,
corajosas no testemunho da sabedoria de Deus. Ao mesmo tempo, porém,
me orgulho desta Igreja modesta, limitada. É Igreja séria
e honesta. Ela tira vantagem por sobre muitas outras quando se trata
de credibilidade e autenticidade. A IECLB merece uma imagem melhor
do que aquela que muitas vezes dela se transmite.
Por tudo isto quero encorajar a (re-)descobrir o encanto da confissão
luterana. Seu charme não se limita a alguns dogmas e axiomas
de fé. Diz respeito a uma maneira de ser. Residem numa hermenêutica
bíblica que sabe distinguir entre letra e espírito; num
realismo antropológico que se recusa a divinizar como também
a demonizar o ser humano; numa liberdade comprometida que se distancia
tanto do legalismo quanto da permissividade; numa estrutura eclesial
participativa que exclui hierarquia humana de qualquer tipo. A confissão
luterana me convida à fé sem proibir o raciocínio
crítico. Ela quer “crentes pensantes”, gente que sabe julgar
as coisas e que, mesmo assim, não permanece presa ao criticismo.
O luteranismo me ensinou uma determinada visão da realidade
que é um pouco mais complicada do que muitos simplismos querem
fazem crer. Subdividir o mundo em bandidos e mocinhos, em ganhadores
e perdedores, em crédulos e incrédulos, em justos e pecadores,
ora isto é construção de hipócritas ou
de ingênuos. É estupidez a que a sabedoria doevangelho
se opõe. Por isto mesmo sou grato por ser luterano e convido
ao empenho para garantir viabilidade à IECLB.
Fonte: Gottfried Brakemeier