Contardo Calligaris *
Acabaram
de ser publicados, na Itália, os resultados de uma pesquisa,
sob o título “Fede e Libertá” (fé e
liberdade). Ela oferece um retrato da fé e da religiosidade
católicas nas regiões do Vêneto. Mas os resultados,
confirmando pesquisas americanas de 2004, tornam-se indicativos de
uma realidade que talvez valha, em geral, para os cristãos do
mundo ocidental contemporâneo.
No Vêneto, quase toda a população ( perto de 90%)
declara ser católica, mas apenas 18% aderem às práticas
e às doutrinas obrigatórias, enquanto os outros dizem
ser católicos “do jeito deles” ou, no mínimo,
expressam “reservas”.
A maioria dos entrevistados (66,5%) pensa que a missão da igreja
seja assistir os pobres e os que sofrem, não legislar em matéria
de moral nem ditar dogmas.
Questionados se os religiosos deveriam definir claramente o que é o
bem e o que é o mal, apenas 10% dos entrevistados responderam
afirmativamente.
O curioso é que os entrevistados podem questionar artigos de
fé decisivos ou discordar radicalmente das indicações
da igreja quanto à conduta sexual ou ao aborto, mas continuam
se dizendo e se sentindo católicos.
Hoje, por serem católicos, os indivíduos não
deixam de escolher livremente o que lhes parece plausível em
termos de crença e o que lhes parece certo em matéria
de comportamento.
A constatação que se impõe é que, neste
começo do século 21, o espírito do protestantismo
ganhou. Não é que as igrejas reformadas (luterana, calvinista,
anglicana) estejam em alta enquanto o catolicismo declinaria, mas,
como confirma a pesquisa, para quase todos, a religião é cada
vez mais uma questão íntima, privada. As formas do culto,
as crenças e as condutas do fiel são decididas sem a
mediação da autoridade “infalível” de
papa, padres e pastores: se o que faço é pecado ou não, é uma
questão que se resolve numa conversa direta com Deus.
Segundo o estudo clássico de Ernst Troeltsch (sobre o protestantismo
e o mundo moderno), o espírito do protestantismo “ganhou”,
foi um dos grandes agentes da modernidade ocidental: graças
a ele, o indivíduo e sua liberdade passaram a ser valores superiores à obediência, à tradição
e à própria comunidade.
Segundo um ditado das planícies do centro-oeste americano ( área
com forte ascendência luterana), a regra do bom cristão é “God
and common sens”, “Deus e o bom senso”. Claro, o “bom
senso”, que substitui assim a palavra do padre, do bispo etc.,
não é um modelo de autonomia; ele se inspira nas convicções
morais compartilhadas pela maioria, mas (fato crucial) ele preserva
a sensação de uma adesão motivada por nossa própria
capacidade de pensar e julgar.
Será que essa transformação “protestante” da
religiosidade católica explica o crescente sucesso das igrejas
evangélicas? Afinal, elas são igrejas reformadas, não é?
Penso o contrário. Grande parte dos evangélicos de hoje
(bem diferentes dos protestantes clássicos e dos “novos” católicos)
são os adversários do espírito do protestantismo
que deu forma ao mundo moderno: eles constituem igrejas que se propõem
como mediadoras exclusivas da palavra divina. Além das questões
de doutrina, a própria conduta moral não é deixada à decisão
do sujeito no seu diálogo com Deus: ela é decidida por
cartilhas”que cobrem cada aspecto da vida, catequese metódicas,
justificadas por citações sagradas (sempre disponíveis:
a Bíblia é um repertório variado e imenso).
Assim, por exemplo, mostra-se aos fiéis que “a Bíblia” proíbe
aspectos da sexualidade e do comportamento em geral. Ou que, “segundo
a Bíblia, quem não pagar o dízimo será condenado.
Em suma, os evangélicos, promotores de uma religiosidade normativa,
têm pouco a ver com o espírito do protestantismo; ao contrário,
eles parecem ser os herdeiros dos católicos de antes da Reforma
e da modernidade. Com uma diferença: freqüentemente, os
mediadores que eles impõem aos fiéis são desprovidos
de uma formação que era um “efeito colateral” da
vasta cultura dos religiosos do passado.
* (Contardo Calligaris é psicanalista
e escreve na Folha de São Paulo às 5a. feiras.
Adaptação do texto: P. Hermann Wille –
Santo
Amaro – São
Paulo)