Stephen Kanitz *
Uma única
inovação ocorrida no século XV teve enorme influência
para o progresso, a inclusão social e a redução
da pobreza. Foi a invenção do conceito de capital social
pelo frei Luca Paccioli, o criador da contabilidade. Esse conceito
perdura até hoje em todos os contratos sociais e balanços
das empresas brasileiras.
Antes de Luca Paccioli, um comerciante ou produtor que não
pagasse suas dívidas poderia ter todos os bens pessoais, como
casa, móveis e poupança, arrestados por um juiz ou credor.
Como ainda ocorre em muitos casos no Brasil.
Só um louco varrido abria uma empresa para gerar produção
e empregos para os outros. Por isso, na época, todo mundo produzia
somente para si, reinava o egoísmo total. Produzir para os outros
como se faz atualmente, nem pensar.
O conceito de capital social permitiu a criação da empresa
de responsabilidade limitada. Depois de Paccioli, se você montasse
um negócio, sua responsabilidade, ou "desgraça",
ficaria limitada ao capital social, e não abrangeria a totalidade
de seus bens pessoais, como antes.
Milhares de pessoas com competência administrativa e empreendedora
começaram a produzir para os outros, e não somente para
si, empregando trabalhadores até então desempregados,
sem medo de perder tudo se a empresa fracassasse. Desde então,
o mundo não pára de se desenvolver, com exceção
da América Latina, que ainda não entendeu o conceito.
O capital social é o capital que os acionistas oferecem à sociedade
para garantir que empregados e fornecedores recebam no fim do mês.
Diferentemente do que se ensina, o capital não pertence aos
acionistas, e sim à sociedade – daí o termo social.
Os contadores e técnicos de contabilidade vão concordar
comigo, pois eles colocam o capital social numa categoria chamada "não
exigível", justamente porque são dívidas
que não podem ser "exigidas" pelos acionistas enquanto
a companhia existir.
Estes somente têm o "direito" de reaver o capital
se a empresa fechar. Como empresa rentável nunca fecha, o dinheiro
nunca volta para seu legítimo dono.
Duzentas mil famílias brasileiras compraram nos últimos
anos ações da Gol, Dasa, Copasa, Porto Seguro, Rossi,
Gafisa, OHL, Iochpe, Grendene, Natura, Cyrela, Cosan, UOL e nunca mais
verão a cor daquele dinheiro. Essas empresas jamais devolverão
o dinheiro "investido", porque ele agora faz parte de seu
capital social.
Essas famílias se juntaram a mais outros 2 milhões de
investidores altruístas que ofereceram sua suada poupança à sociedade
brasileira, subscrevendo o capital social da Petrobras, Banco do Brasil,
Vale do Rio Doce, Telesp, Eletrobrás, e assim por diante.
Todos eles, se precisarem de dinheiro, terão de torcer para
que alguma alma caridosa ou tão altruísta como eles compre
esses seus "direitos não exigíveis" no pregão
da Bolsa de Valores de São Paulo. Isso se essas empresas continuarem
a ser bem-sucedidas e a América Latina resistir à onda
anti-social que vem por aí.
Em troca de oferecer capital social à sociedade, você fará jus
a uns míseros dividendos de 3% ao ano, e em 33 anos você terá seu
dinheiro de volta. Isso se a empresa não quebrar ao longo do
caminho. Aí, seu "capital social", ou o que sobrar
dele, será distribuído aos trabalhadores e fornecedores
e você não receberá absolutamente nada.
Se você é contra o capital social, como muitos intelectuais
são, tem uma opção muito melhor, que é comprar
títulos "públicos", que rendem 17% de juros
ao ano.
A maioria dos intelectuais da América Latina conclama seus
alunos a lutar pela completa "destruição do capital
social" do mundo. Muitos cientistas políticos e sociólogos
usam o termo capital social de forma equivocada, uma tentativa deliberada
de confundir o leitor.
Antes de pegarem em armas ou darem mais uma aula a nossa nova geração,
pensem no que vocês estão pregando, ou leiam um livro
de introdução à contabilidade, qualquer uma dessas
edições escritas nos últimos 500 anos, que pelo
jeito passaram despercebidas.
* Stephen Kanitz é administrador por Harvard
(www.kanitz.com.br)
Editora
Abril, Revista Veja, edição 1951, ano 39, nº 14,
12 de abril de 2006, página 22