Dr. Valério
Guilherme Schaper *
Domingos
eram de festa. Meu pai solicitava um dos destemidos filhos a buscar
uma Coca para o almoço. Verdadeiros cavaleiros de Arthur em busca
do Santo Graal, casco de vidro na mão, atravessávamos
a rua em busca da imponente Coca Cola. No armazém, éramos
agraciados com o a garrafa cristalina com seus dizeres em rubro. O líquido
negro aguardava silencioso o momento de espocar sua espuma pelo ar,
enchendo a casa de um cheiro adocicado e levemente ácido. Era
apenas um litro e atendia satisfatoriamente a ânsia festiva de
uma família de seis pessoas. A "Coca Família"
era uma instituição da classe média brasileira.
Sob o "slogan" da "Coca Família", atravessamos
felizes o regime militar. Porém, o tempo passa, coisas mudam.
A Coca mudou. Nós mudamos. A família mudou.
Então, veio a Coca de 1 litro e 250 ml. Tudo bem! Sabe como
é, sempre sobrava uma vontadezinha de dar um bico no "refri"
à noitinha ou, quem sabe, ali durante o Silvio Santos, ou, mais
recentemente, durante o Faustão. Porém, o tempo passa,
coisas mudam. A Coca mudou. Nós mudamos. A família mudou.
De repente, veio a Coca de 2 litros. Bom, a coisa complicou. Só
dava para encarar o desafio chamando os avós e uma tia mais velha
ou um tio ranzinza. Somente com algum esforço, e muitos e discretos
arrotos depois, vencíamos o produto que, antes, transformava
as nossas refeições de domingo de uma necessidade biológica
em um evento transcendente. Sim, continuava um evento, mas agora um
evento quase insuportável, com netos brigando com os avós
e irmãos lavando a roupa suja das gerações. Porém,
o tempo passa, coisas mudam. A Coca mudou. Nós mudamos. A família
mudou.
De
repente, lançaram a Coca de 2 litros e 250 ml e, sem seguida,
um tambor de 3 litros, comemorativo ao Natal de 2003. A moça
no supermercado, sorridente, garantiu-me que era um excelente negócio,
pois o preço era quase o mesmo de uma de 2 litros e 250 ml. Bom,
mas a vantagem comercial transformava-se uma desvantagem sociológica,
pois, para enfrentar o suplício de 3 litros, além dos
avós, um tio ou tia, era preciso chamar a família do vizinho,
aquele colega insuportável do trabalho, seu cunhado, sua sogra.
Para enfrentar com galhardia a nova demanda do Graal, você precisa
dos cavaleiros e de todos os súditos de Arthur.
Qual é a lógica em tudo isso? A família brasileira,
estatisticamente, está diminuindo dia após dia. A inflação
está diminuindo. O risco país está diminuindo.
A Coca Cola Família, entretanto, já chegou à casa
do 3 litros (três dígitos). Você não vê
lógica e tem poucas opções de enfrentar a questão.
Vejo três possibilidades: a) aos domingos, você transforma
sua casa na Marquês de Sapucaí e agüenta o seu vizinho
e o cunhado com as respectivas companheiras; b) você bebe os 3
litros e vai ser confundido com um balão metereológico
e, depois, sozinho diante do Big Brother, arrotará até
terceira ou quarta geração; c) beberá só
um dos três litros no almoço e terá dois litros
daquele xarope intragável para o jantar - aí aconselho
a não chamar ninguém, pois você poderá perder
os poucos amigos que lhe restam.
A Coca Cola Família tornou-se o inimigo número um da
família brasileira, pois é o pivô de todas as crises.
Da Coca família chegamos, após longas escaramuças,
à Coca anti-família. Eu sugiro que acabemos com a Coca
família antes que ela acabe com o que resta da família
brasileira, pois logo concluiremos que é melhor tomar nossa Coca
- mesmo a de 3 litros - sozinhos do que enfrentar o inferno dominical
de precisar reparti-la com esse monte de gente irritante que nos torna
uma família.
O fato, a lógica, é que o capitalismo - sim, desculpe
revelar isso assim sem mais cuidados, a Coca Cola é uma empresa
capitalista e não foi criada apenas para fazer nossa felicidade
- ignora propositalmente a dinâmica estatística da família
brasileira. Para ela pouco importa o que você fará com
os 3 litros (ou com 2 litros e 250 ml) desse melado espantoso, desde
que deixe algumas moedas - sim, moedas, porque a Coca custa uma ninharia
- a mais no caixa. O engodo da vantagem, a ilusão do excesso
oferecido regularmente nas prateleiras é inversamente proporcional
à dinâmica da família brasileira. A Coca não
pensa que você precisa ou deva ter uma bela confraternização
dominical com sua família extensa. Aliás, para a Coca
Cola, a família ideal tem um indivíduo, pois aí,
ao invés de algumas milhões de famílias, ela terá,
pelo menos potencialmente, 6 bilhões de famílias-indivíduo,
comprando 3 litros de Coca e tentando em vão convidar alguém
para a dura empreitada de consumir "a coisa" antes que volte
a ser um monte de água piorada e, obviamente, tentando em vão
se reproduzir. Bom, teremos, em breve, a clonagem. Desde que não
comecem a clonar a Coca Cola, poderá haver uma solução
de continuidade para a família.-indivíduo.
É preciso, porém, admitir que, desta vez, a Pepsi saiu
na frente. Em segundo lugar e menos comprometida com a imagem de um
refrigerante-família, a Pepsi, numa recente série de comerciais,
assumiu de vez o fim da instituição família e consagrou
o "pega-pega" como nova forma de intercâmbio afetivo.
Todo mundo "pega" todo mundo e todo mundo "pega"
Pepsi. E, "suma sumarum", já temos até trilha
sonora nacional para embalar os ritos desse novo "tribalismo":
"eu sou de ninguém, eu sou de todo mundo e todo mundo é
meu também" (Os tribalistas).
No futuro diremos que a família acabou porque ninguém
agüentava mais tanta Coca Cola e mesmo porque a proposta social
da Pepsi era bem mais interessante e, para felicidade geral, sugeria
de quebra o desaparecimento do cunhado e da sogra.
* Dr. Valério
Guilherme Schaper
Professor da Escola Superior de Teologia / São Leopoldo - RS