P. Dr. Valério Guilherme Schaper *
A busca
Quando eu era
menino, ganhei uma enciclopédia, destas escolares. Ela vinha acompanhada
de uns fantásticos livros sobre histórias, mitos e lendas de toda a
humanidade. Fascinante! Li aqueles volumes mais de uma vez. Além de
todas as lendas germânicas que me interessavam de forma particular,
eu sempre voltava à leitura da lenda de Arthur e os Cavaleiros da Távola
Redonda.
Os cavaleiros
de Arthur – homens nobres e de valores sólidos e não apenas guerreiros
sanguinários – tomaram como grande missão encontrar o Santo Graal, que
se imaginava ser o cálice da última ceia, com preciosas gotas do sangue
de Cristo, colhidas durante a crucificação. Não sabiam que esta seria
a grande e última missão de suas vidas. Cada um dos Cavaleiros empreendeu
uma jornada cheia de peripécias. A busca consumiu o melhor de suas forças
e capacidades. Somente um deles, totalmente puro, consegue chegar ao
final da jornada e contemplar o Graal: Sir Galahad, filho de Lancelot,
o grande cavaleiro.
Muitos romances,
peças e filmes procuraram atualizar a história desta busca, que ganhara
forma literária em torno do século XII da nossa era. A saga chegou inclusive
às telas do cinema com Indiana Jones. Apesar de todos os enigmas, das
peripécias, dos bandidos e da ação bem ao gosto da indústria cinematográfica,
ele queria mesmo era encontrar o Graal, contemplar o Graal. Vale para
todas as tentativas de tratar do Graal uma mesma idéia: a jornada é
árdua, cheia de perigos e conduz do desconhecido a um conhecimento inesperado.
Em síntese, pode-se dizer que a busca do Graal trata de uma jornada
humana: a busca do sagrado, a busca do divino.
A conspiração
Recentemente
esta história (épico, saga, mito) foi atualizada mais uma vez, através
do livro de Dan Brown, O código
Da Vinci. O livro, diferentemente das tentativas precedentes, teve
o dom de transformar-se num fenômeno literário. Estima-se que o livro
já tenha vendido cerca de 25 milhões de exemplares,
em 44 idiomas, conforme matéria publicada em 21.04.05, no site
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u50416.shtml.
No Brasil o fenômeno não
é menos impressionante. As vendas já chegaram à casa dos 750 mil exemplares
http://cbl.org.br/news.php?recid=1909. A matéria é de 11.04.05 e o acesso foi feito em 23.04.05. É preciso
lembrar que no Brasil a tiragem média é de 3.000 exemplares e qualquer
livro que chegue à casa dos 50 mil exemplares é considerado “best seller”.
O livro tirou do limbo uma pequena editora.
Ainda que não
se possa falar de uma obra literária no sentido grandioso do conceito,
é preciso conceder ao autor, Dan Brown, o mérito de ter elaborado um
“thriller” envolvente e ágil, como é a expectativa do leitor hoje. Lançando
mão de enigmas, informações histórias e artísticas, morte, fugas espetaculares,
muito suspense, reviravoltas e um final imprevisível, o autor criou
um enredo vertiginoso que consegue segurar a leitura por 475 páginas.
No cerne de toda
a história: um segredo religioso, evitado por milênios pela tradição
cristã, personificada no romance na Igreja Católico-Romana, e zelosamente
guardado e cultivado por uma irmandade milenar, fictícia, o Priorado
de Sião. O motor, um tanto óbvio, da história é a tentativa de uma organização
católico-romana, a Opus Dei, apossar-se definitivamente das provas que
ameaçam a fé cristã, melhor, a forma assumida por esta fé na história
do Ocidente.
Como diz Leigh
Teabing, historiador britânico e pesquisador do Graal, “(...)os homens
fazem muito mais para evitar o que temem do que para obter o que desejam”
(O Código Da Vinci, p. 283). Este é a linha mestra do romance: os esforços
para evitar que seja revelada a verdade que se teme. No fundo, qualquer
romance estrutura-se em torno desta tensão: a dinâmica que se instaura
para evitar que algo seja revelado ou os desdobramentos psíquicos ou
sociais que o desvelamento de algo produz.
No fogo cruzado
dos interesses estão uma criptologista e um simbologista. São vitais
para a trama. Afinal, todo o desenrolar da história é marcado por uma
sucessão de códigos engenhosamente guardados, à vista de todos, que
precisam ser decifrados. Os códigos só podem ser decifrados se os símbolos
milenares conhecidos forem devidamente relacionados. Os que prometeram
guardar e zelar pelo poderoso segredo criaram uma teia fantástica de
referências cruzadas, que somente reforçam o clima da terrível conspiração
engendrada nos porões do cristianismo para ocultar a terrível verdade,
a relação de Jesus com Maria Madalena e a ascendência dela sobre o incipiente
movimento cristão. O poder foi ardilosamente subtraído das mãos das
mulheres e manipulado pelos homens. Eis a suma da conspiração.
A teoria conspiratória
que atravessa toda a história é o verdadeiro alimento das/os milhões
de leitoras/res que se atiram vorazmente à leitura, esperando desvendar,
ao final, o sinistro enigma da civilização ocidental, alicerçada sobre
o cristianismo. Como diz Pamela
Gettun, bibliotecária do Departamento de Teologia e Estudos da Religião
do Kings College, em diálogo com o simbologista Robert Langdon e a criptologista
Sophie Neveu, “todo mundo adora uma conspiração” (O código Da Vinci,
p. 402). Esta referência meta-literária brinca com o fato de o próprio
romance não estar fazendo outra coisa do que explorar esta sede humana
por teorias conspiratórias. Dan Brown registra assim, com ironia, que
tem plena consciência dos elementos com os quais está lidando. Brown,
à semelhança do que tem acontecido amiúde no mundo das artes, não é
um artista, mas um engenheiro. O único imponderável em seu trabalho
é saber se serão 20 ou 30 milhões de exemplares vendidos.
O feminino
Nos
momentos finais do romance, o simbologista Robert Langdon, um Sherlock
Holmes repaginado, mantém um interessante diálogo com Marie Chauvel,
lugar-tenente de guardiã do Graal. Ao temor de Langdon de que a insistência
do Priorado em conservar em segredo a primazia do feminino na tradição
cristã significava condená-la ao esquecimento, Chauvel retruca da seguinte
maneira: “Estamos começando a sentir a necessidade de restaurar o sagrado
feminino” (O Código Da Vinci, p. 466).
Inúmeras mulheres
teólogas, militantes, feministas ao redor do mundo vêm, há décadas,
chamando a atenção para o feminino na religião cristã (também teólogos,
como Leonardo Boff, no Brasil). Sim, de fato é preciso admitir que o
patriarcalismo, o machismo, o androcentrismo causaram muito dano à tradição
cristã. Fizeram com que o evangelho não fosse anunciado em sua integralidade.
Duas idéias parecem
reunir a diversidade de soluções apontadas nas discussões sobre o tema.
De um lado há indicações de que é preciso restaurar o feminino no sagrado.
De outro, de forma mais crítica, há vozes que pleiteiam um outro sagrado,
um “sagrado feminino”. Do ponto de vista cristão, não há outro sagrado,
mas o mesmo anunciado, pregado e vivido, ainda que com a restrição absurda
de uma dimensão divina inegável: o feminino. Importa, então, recuperar
esta dimensão. Obviamente este processo é conflitivo. Lutamos por não
admitir que houve esta parcialidade histórica na mensagem cristã, lutamos
por preservar privilégios masculinos, lutamos por negar a verdade. Trabalhamos
para ocultar as pegadas da dimensão feminina do sagrado na história
da fé cristã. Para tudo isso, a parcialização da mensagem do evangelho
foi instrumento. O evangelho, tolhido de sua dimensão feminina, serviu
de forma hedionda a esta causa.
Entretanto, não
é provável que se trate de uma conspiração que resolveremos desvendando
enigmas. Uma conspiração termina quando a verdade é finalmente revelada.
O que temos é mais do que isso. É algo mais persistente, mais arraigado,
mais entranhado em nossas vidas. É algo que resiste à verdade, às evidências,
que é refratário a toda luta por emancipação e libertação do feminino.
É certamente algo mais profundo e mais triste. Trata-se de uma terrível
verdade humana: a luta marcada por interesses nem sempre conscientes,
nem sempre claros. Em tudo isso está a inegável marca da existência
humana que, em linguagem cristã, chamamos de pecado. É o pecado que
permeia as obscuras relações que historicamente, humanamente, traçamos
com o sagrado, tingindo-as com as cores da culpa, do medo, do ódio,
da violência, da intolerância, do preconceito, da exclusão, do apego
ao poder e aos privilégios, etc.
Contudo, o resgate
da dimensão feminina do sagrado não pode tornar-se prisioneira de uma
teoria conspiratória ou complô. Vale, então, alertar que transformar
a causa da dimensão feminina do sagrado em uma luta por desvendar uma
conspiração é subtrair-lhe o tema, é trair-lhe a causa, transformando-a
num jogo pueril de decifrar enigmas. Obviamente há muitos enigmas na
história de obscurecimento do feminino levada a cabo no cristianismo,
mas a luta feminista não se resume a decifrar estes enigmas num jogo
de entretenimento sem quaisquer pretensões maiores do que o divertimento.
As mulheres envolvidas
nesta causa não buscam um passatempo substitutivo ao cuidado da casa,
da família, dos bordados, etc. É uma causa e não uma ocupação. E esta
causa não é das mulheres, mas humana. Seremos e estamos sendo todos
e todas engrandecidos/as por ela. É preciso lutar contra tudo que queira
tirar-lhe dignidade, ainda que seja um romance que fez com que o tema
chegasse à consciência de 20 milhões de leitoras e leitores.
O sagrado
O desenlace da
história dá-se em forma de um diálogo entre uma mulher sagrada, uma
mulher sábia, Marie Chauvel, e o detetive-simbologista, Robert Langdon.
O seu interlocutor é o curioso, o buscador, o intelectual, o inquiridor.
Sintomaticamente, no romance ele é um simbologista. Uma pessoa que procura
conexões extraordinárias, secretas, abscônditas entre os símbolos. Ela,
por sua vez, provisoriamente no lugar de guardiã do Graal, dá a verdadeira
profundidade à busca que havia guiado os heróis até aquele momento.
Naquela altura
do romance, a heroína criptóloga, Sophie Neveu, chegara ao fim de sua
jornada pessoal, pois encerrara o seu autodescobrimento. Ela havia descoberto
quem era. Langdon, no entanto, precisava continuar. Ele insistia e resistia.
Procurava as conexões. Ele ainda não havia encerrado a busca. Ele insiste
que o segredo do Graal precisa ser revelado, pois, do contrário, perder-se-á
definitivamente. Entretanto, Marie Chauvel afirma que a irmandade sempre
entendeu que o Graal “jamais deveria ser revelado” (O Código Da Vinci,
p. 466). Ele não pode acreditar. Ele quer decifrar os últimos elementos
simbólicos. Pede a ajuda de Chauvel. Ela ri deste esforço, desta resistência
ao fato de os símbolos permanecerem obscuros, remetendo sempre a outros
símbolos.
A linguagem dos
símbolos é, por excelência, a linguagem do sagrado. O sagrado só sabe
falar por símbolos, metáforas, imagens. Na verdade, o simbologista Langdon
já havia tropeçado com a verdade em um livro que acabara de escrever
– pesquisar e escrever livros era sua vida – mas não conseguia ver.
Para esses que vêem sem conseguir enxergar, Marie Chauvel tem uma resposta
simples: “(...) há muitas formas de se ver coisas simples” (O Código
Da Vinci, p. 469). Sim, uma dessas formas é complicar, é procurar a
conspiração, a conexão secreta ou mágica, que, se não está na coisa,
está em nossa capacidade de extrair conexões engenhosas entre os símbolos.
Jesus contava
parábolas. Elas nos parecem difíceis, complicadas. São histórias simples,
é linguagem comum. É verdade, há camadas de sentido em toda história
simples. São, no entanto, histórias que falam de fatos do cotidiano.
Nós complicamos porque queremos um tratado lógico ou então buscamos
conexões e vínculos secretos, misteriosos, sugerindo uma conspiração
fantástica. Jesus dá graças ao Pai, dizendo: “(...) ocultastes estas
coisas aos sábios e instruídos e as revelastes aos pequeninos” (Mt11.25).
Paulo também volta a esta idéia, enfatizando que Deus escolheu as coisas
simples, fracas, humildes, loucas para envergonhar os sábios e a sabedoria
(1 Co 1.18-31). O fato é que preenchemos o sentido da busca, da jornada
das mais diversas formas (O Código Da Vinci, p. 466). Invariavelmente
preenchemos erroneamente. Trocamos o acessório pelo essencial.
Marie Chauvel
despede-se de Langdon lamentando que ele, não obstante tanto esforço,
retorne sem “nenhuma resposta concreta”. Ela consola-o dizendo: “Um
dia vai descobrir” (O Código Da Vinci, p. 470). Enfim, sobressaltado
por um sonho, Langdon encontra a resposta. Corre ao encontro dela e,
então, ajoelha-se. O herói do romance alcança, enfim, a sua redenção.
A jornada produziu nele o efeito que toda jornada, também a do Graal,
deve produzir: uma transformação. A busca
do divino não reside na posse da verdade, mas em ser possuído pela verdade
e então se deixar transformar por ela. A jornada não consiste em desvendar
o mistério de Deus, mas sermos por ele desvendados. É de novo Marie
Chauvel quem nos revela esta verdade simples: “(...) o Graal jamais
deveria ser revelado. (...). É o mistério e a maravilha que alimentam
nossas almas, e não o Graal em si. A beleza do Graal reside em sua natureza
etérea.” (O Código Da Vinci, p. 466)
Isto equivale
a dizer que ao mistério cabe ser e continuar sendo mistério. Mistério
desnudado transforma-se em posse humana, pois se esvazia ao nos encher
de sabedoria. Cheios de saber e poder cremos ter possuído a verdade.
O mistério, o verdadeiro mistério, não é jamais desnudado ou esvaziado.
Mistério revela-se! A ação de comunicar-se está nele, não em nós. Mistério
revela-se continuamente e permanece Mistério. Há nele algo sobre o mundo
e sobre nós que escapa continuamente. O mistério é revelação e, no entanto,
é mistério sempre. Esta é sua verdade! A nossa verdade reside na busca,
jamais no descanso satisfeito da resposta encontrada. As verdades circunstancialmente
encontradas são traiçoeiras, pois a nossa tentação é ceder ao cansaço
ou ao prazer de contemplá-las como se fossem definitivas. Lembremo-nos,
no entanto, que “(...) agora vemos como em espelho, obscuramente; então, veremos face
a face” (1 Co 13.12).
24.04.05
* Valério Guilherme Schaper é professor
da Escola Superior
de Teologia