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eleições 2002
 

Mensagem de reflexão e orientação sobre as eleições de 2002

A Coordenadoria Ecumênica de Serviço- CESE e o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs-CONIC, no âmbito de suas competências e missão, dirigem esta mensagem de reflexão e orientação a eleitoras cristãs e eleitores cristãos, e a todos as cidadãs e os cidadãos. As Igrejas membros da CESE e do CONIC já têm se manifestado sobre as eleições, cada uma exortando seus membros a uma participação efetiva no processo eleitoral.

Neste momento de processo eleitoral, o povo é espectador passivo de conchavos, de "acordos de cúpula". Os casos de corrupção, cotidianamente divulgados pela imprensa, apurados ou a serem apurados, não respondem à finalidade de devolver a dignidade ética à classe política desacreditada. Qualquer hipótese de mudança do quadro político que possa ser apenas pensada por este povo de espectadores é reprimida com a ameaça de instabilidade institucional que levaria o País à atual situação da vizinha Argentina, ela própria vítima de mazelas das elites locais e das condicionalidades impostas pelos organismos de financiamento internacionais.

Ao aproximar-se um novo momento eleitoral, preocupa-nos antes de mais nada o descompasso crescente entre o exercício da política e a ética. Corrupção e escândalos continuam desacreditando muitos dos políticos eleitos nos passados pleitos. É dever das cidadãs e dos cidadãos escolher candidatos conduzidos por princípios éticos comprovados, o que nem sempre corresponde a uma identificação religiosa. Essa ação pode devolver legitimidade e vigor à ordem política, a qual deve estar a serviço do bem comum e não dos interesses de grupos. Qualquer projeto político para o Brasil precisa superar a miséria e a fome, garantir a todos, brasileiros e brasileiras, condições mínimas de subsistência. As leis do mercado devem ser governadas por políticas presididas pela ética. Não pode ser conferida prioridade ao lucro, ao capital , à acumulação de bens quando é prioridade ética e política a inclusão dos pobres aos níveis condignos de alimentação, moradia, saúde, educação, segurança e lazer. Os excluídos da cidadania real não precisam apenas de cestas básicas, mas têm direito a trabalho dignamente remunerado e garantido pela Constituição. As cristãs e os cristãos lembram as palavras do profeta " Tirai do alcance do meu olhar as vossas más ações, cessai de fazer o mal. Aprendei a fazer o bem, procurai a justiça, chamai à razão o espoliador, fazei justiça ao órfão, tomai a defesa da viúva" (Is. 1,16-17).

Tecnologia e finança aliaram-se na construção de um sistema capitalista que encontrou seu apadrinhamento nas políticas neo-liberais criadoras do mercado globalizado. Propostas políticas de globalização, eticamente válidas, devem ser elaboradas pelos países que ainda lutam contra a fome e a miséria e não apenas recebidas ou impostas, como é o caso da ALCA, sem uma decidida defesa de interesses do País. Não queremos eleger políticos que sejam unilateralmente nacionalistas, mas políticos que saibam conjugar os objetivos éticos da política e de um projeto nacional e a inevitável interdependência e solidariedade entre os países do mundo. Nosso compromisso ecumênico nos leva a propor uma outra globalização, a da justa distribuição dos recursos necessários ao desenvolvimento sustentável da vida humana, para que todos os povos da terra gozem da verdadeira paz, fruto da justiça (Is. 32,17).

É o nosso dever de cidadão e cidadãos eleger governantes que optem pela ética na política e coloquem como prioritárias nos planos de governo as políticas sociais. Políticos incapazes de ações que visem essas finalidades não devem ser considerados candidatos a governar o País. É nosso dever de cidadãs e cidadãos fazer de nosso voto um instrumento de renovação do quadro político, vigiar com particular atenção sobre a lisura do processo eleitoral e combater a corrupção valendo-se do respaldo da lei 9840/99. Lembrados que nosso voto não pode ser vendido, pois ele não tem preço mas consequências na vida privada e social, incentivamos todas as pessoas de boa vontade a trabalharem intensamente na campanha eleitoral para garantir o aperfeiçoamento da democracia participativa no País e a construção de uma sociedade justa e solidária.

Se nossa experiência nos diz que " os chefes das nações as mantêm sob seu poder, e os grandes, sob seu domínio", entre nós, " não seja assim". Pelo contrário, se alguém quer ser grande entre vós, seja o vosso servo, e se alguém quer ser o primeiro entre vós seja o vosso servo. Assim o Filho do Homem veio, não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate pela multidão." (Mt 20, 25-27). O exemplo de Cristo e as suas palavras iluminam a visão política das cristãs e dos cristãos. É com essa visão que vamos nos comprometer com o processo eleitoral deste ano em nosso País.


Salvador, 05 de junho de 2002.

Dom Jubal Pereira Neves - Presidente da CESE
Rev. Joaquim Beato - Presidente do CONIC

Assina, também, solidariamente, o Conselho Latino-Americano de Igrejas - CLAI-Brasil, através da Secretaria Regional para o Brasil.
Rev. Luiz Caetano Grecco Teixeira - Secretário Regional do CLAI-Brasil

 

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