P. Dr. Walter Altmann*
Na
próxima semana inicia o horário de propaganda política
obrigatória nas rádios e tvs de todo país e este
normalmente é um momento no qual a população expressa
todo seu desgosto e conseqüente desinteresse em relação
aos políticos e ao processo eleitoral. Contudo, como luteranos
não podemos esquecer nosso papel diante da sociedade como um
todo e o nosso compromisso com a democracia e construção
do pacto social. Nosso interesse e envolvimento, com certeza, podem
contribuir para transformação da realidade e é
justamente por isso que a presidência da IECLB redigiu uma carta
pastoral destacando alguns elementos que devem estar presentes na reflexão
das comunidades cristãs com vistas ao pleito municipal que se
aproxima.
A carta, transcrita na íntegra a seguir, é um convite
para a reflexão nas comunidades, pois resgata questões
históricas, que reafirmam nossa responsabilidade sob a ótica
do Evangelho, e desafios concretos para que seja construída uma
participação política, vista como um instrumento
de promoção da vida digna.
Leia, divulgue e participe deste processo.
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carta pastoral
- eleições municipais 2004 |
Em momentos determinantes da sociedade brasileira, a IECLB, no exercício
de sua responsabilidade pública, tem dirigido a suas comunidades,
em particular a seus presbitérios, e aos integrantes de seu quadro
de obreiros e obreiras, sua mensagem de estímulo ao compromisso
com a nossa realidade.
O pleito eleitoral é um destes momentos, visto que se reveste
sempre de profundo significado e pode abrir caminho para respostas às
grandes questões que afetam o desenvolvimento de um país
e o futuro de seu povo e instituições. Nesse processo,
renova-se a esperança por mudanças que assegurem novas
possibilidades de vida numa conjuntura favorável às transformações
há tanto reclamadas pelos setores mais desprivilegiados de nossa
sociedade.
Qual a responsabilidade da comunidade cristã nas eleições
e nos processos políticos? Pelo amor, as pessoas cristãs
são servidoras umas das outras (Gálatas 5.13), e esse
servir inclui a política. Assim, às vésperas de
novas eleições municipais, reafirmamos a nossa responsabilidade,
como Igreja de Jesus Cristo, nos assuntos políticos e sociais
de nossa pátria, e chamamos a atenção para alguns
pontos decisivos no atual cenário político brasileiro.
Eleições: uma questão
de todos nós
A importância do processo democrático
na ótica e vivência luteranas
Eleições são significativas em uma democracia.
Elas são parte fundamental na construção do pacto
social que determina os caminhos sociais, econômicos e ambientais
no dimensionamento da qualidade de vida de toda a população.
Historicamente, nos mais diferentes países, a comunidade luterana
colaborou em muito para que a sociedade tivesse o direito de escolher
seus dirigentes. Eleições estão, de certa forma,
implícitas na compreensão evangélico-luterana de
comunidade como “sacerdócio de todas as pessoas”
ou como corpo de Cristo, conforme a compreensão apostólica.
Na prática luterana, e também na vivência da IECLB,
há eleições para a escolha de obreiros e obreiras
nos campos de trabalho, de pessoas integrantes dos presbitérios
nas comunidades, bem como para os cargos de Direção da
Igreja.
Martim Lutero defendeu o direito das comunidades tomarem suas próprias
decisões, enquanto os países e territórios ainda
eram governados por reis e príncipes, que não eram escolhidos
pelo povo. Eleições são, portanto, preciosos espaços
para a comunidade luterana. Esta compreensão foi colocada em
prática pelos protestantes ainda no Brasil Império, quando
aqui se fixaram a partir de 1824, há 180 anos. Eleições
são um importante instrumento para a construção
de uma sociedade livre e democrática, com um pacto social consistente,
que promova a liberdade, a justiça e a paz.
Hoje, muitas pessoas se mostram indiferentes em relação
às eleições. Certamente, esta postura não
contribui para a democracia e para o pacto social. No entanto, estamos
sendo chamados para o testemunho, também no campo da política,
e não podemos nos omitir. Não é possível
deixar o destino de um município, estado ou da própria
nação na mão de um pequeno grupo, mesmo que este
afirme que quer fazer o melhor pelo povo. A visão e a consciência
de um pequeno grupo são sempre parciais e limitadas; por isso,
devem ser motivo de constante alerta e atenção. Nesse
sentido, eleições são um instrumento do amor cristão
para libertar a nação de visões e consciências
viciadas. Para tanto, pessoas cristãs e não-cristãs
atuam no âmbito da política, da economia e da ordem social,
mediante o uso da razão. No entanto, essas áreas da vida
humana em sociedade, conforme Lutero, estão submetidos às
exigências da vontade de Deus, e tudo o que nelas se fizer, mediante
a razão, deverá estar a serviço do amor, do atendimento
às necessidades humanas do povo, do estabelecimento do direito
e da promoção da justiça. Para que este propósito
se cumpra, a razão deve ser libertada de seus interesses em proveito
próprio e ser capacitada para servir.
O crescimento do “voto evangélico”
Um novo cenário no processo eleitoral
Entre os eleitores no país (hoje cerca de 120 milhões),
há um expressivo e crescente número de “votos evangélicos”
(aproximadamente 20 milhões de votos). Estes podem, em várias
circunstâncias, ser determinantes na consagração
de candidatos a cargos públicos. Isso torna os evangélicos
um segmento cobiçado do colégio eleitoral, criando o risco
de alianças comprometedoras e prejudiciais para o futuro e a
credibilidade de nossas instituições sociais, reduzindo
o nosso voto a interesses particulares e em benefício de projetos
institucionais e paroquiais. Isso significa a distorção
de nosso compromisso maior – empenhado, no conjunto da sociedade
brasileira, com as necessidades básicas de nosso povo, sem distinções
de natureza confessional ou ideológica. Como evangélicos,
membros da comunidade luterana, estamos inseridos na realidade social
e na política, e não podemos deixar de exercer plenamente
o nosso direito e dever de votar com a consciência voltada para
a grandeza de uma nação, por sua vez inserida no contexto
internacional, como uma voz nova e atuante no clamor universal para
um novo mundo de justiça e de paz.
Antigas realidades – permanentes
desafios
Promessas e fatos: até onde vai o poder dos
candidatos
Em períodos eleitorais, a propaganda dos mais diferentes candidatos
e partidos tende a ressaltar as mesmas grandes questões locais
e nacionais, prometendo soluções muitas vezes fora de
suas capacidades legais ou pessoais.
Uma análise de eleições anteriores demonstra que,
tantas vezes, são feitas promessas posteriormente abandonadas
ou impossíveis de serem cumpridas na prática. Em conseqüência,
a política e o mandato público são vistos, mais
e mais, de forma negativa pelo povo. Há temas, por certo, indispensáveis
no contexto de nossa realidade. Não é possível
esquecer que elementos necessários para a construção
democrática de uma nova sociedade são os direitos humanos
e a cidadania. E cidadania requer ações como luta contra
a miséria, a fome, a doença e o desemprego; esforço
para extirpar a violência e a corrupção, as desigualdades
sociais e a destruição do meio ambiente; empenho em favor
de educação e moradia para todos, de reforma agrária,
de libertação do trabalho escravo e de um novo destino
para as crianças de rua.
São estes, entre tantos outros, os mesmos velhos e desafiadores
problemas que atravessam a nossa história e afetam profundamente
o processo de reconstrução do país. Na medida em
que buscarmos sua solução ou superação,
estaremos contribuindo não apenas para renovar radicalmente a
nossa sociedade, mas para oferecer ao mundo uma nova face de qualidade
de vida – e vida em abundância (João 10.10). E, se
parece que entramos no mundo da utopia, devemos lembrar que no horizonte
de novos céus e uma nova terra, segundo a promessa de Deus (2
Pe 3.13), devemos inserir também nosso sonho libertador guiados
pelo Senhor Jesus, que deu a sua vida em favor da humanidade (Jo 3.16),
e nos convida e desafia a segui-lo em fé, esperança e
amor (1 Co 13.13).
Devemos cuidar também para que esses desafios vitais da realidade
humana, resumidamente indicados, não fiquem no terreno de meras
promessas, não cumpridas talvez por falta da constante vigilância
que o momento exige de todos nós. Isso porque nossa atuação
na política e na sociedade não termina com o voto. Muito
pelo contrário, é com ele que começa e se aprofunda
a nossa responsabilidade pública como pessoas cristãs.
Pontos de partida para a mudança
Olhando para a realidade dos municípios brasileiros
As eleições municipais – e sua significação
para o poder local - estabelecem um parâmetro fundamental para
o exercício da cidadania, preparando-nos para outras instâncias
da prática democrática, predominantemente em termos nacionais.
Agora, porém, como cidadãos e cidadãs responsáveis,
temos a oportunidade de enumerar os problemas mais graves e urgentes
em nosso município e na cidade onde vivemos.
Pensando
em cada um dos nossos municípios, podemos levantar uma série
de perguntas que poderão guiar nosso discernimento político
e nossa decisão de voto. Seguem alguns exemplos: Será
que estamos no bom caminho? A cidade está arborizada? Nossas
ruas, rios e córregos estão limpos? O trânsito é
tranqüilo e ordenado? É possível circular de bicicleta
sem risco de perder a vida? E em cadeira de rodas? É possível
conversar sem competir com propagandas gritadas e carros de som? As
festas terminam sem violência? Todas as crianças e jovens
estão na escola? As pessoas recebem prontamente o adequado atendimento
à saúde? Todos os adultos têm trabalho e ocupação
dignos? (Cf. Luis Felipe Cesar, Ponte Velha). Se a resposta a essas
perguntas for não, estamos pelo menos melhorando? As leis e os
projetos públicos estão na direção certa?
A política é transparente? A população pode
participar nos processos de decisão e nos programas ou é
mero objeto?
Estas e muitas outras perguntas, de acordo com cada realidade, podem
servir de base para um oportuno diálogo com as candidatas e os
candidatos, principalmente os de origem evangélica, dando-lhes
a assessoria possível, fazendo-lhes sentir as expectativas da
população e as exigências do próprio Senhor
da vida. Cada comunidade saberá, nos limites de seus municípios
e cidades, quais as maiores e mais urgentes necessidades do povo –
e as formas de culto e de conscientização que estimulem
os seus membros –, sem esquecer a influência que exerce
na própria sociedade local, na reivindicação das
soluções adequadas a cada situação.
A responsabilidade pública da comunidade cristã não
se esgota com a participação nas eleições.
Ela se estende ao longo do mandato das pessoas eleitas. Nesse tempo
ela adquire a face da vigilância e da consciência crítica.
Cabe-nos vigiar e contestar as autoridades, sempre que descumpram os
seus compromissos e deveres para com o povo e a sociedade, como ainda
dizia Lutero: “Não é subversivo criticar a autoridade
quando ocorre livre, pública e honestamente no ministério
ordenado da palavra de Deus. Ao contrário, é uma rara
virtude louvável e nobre, até mesmo um serviço
a Deus especialmente grande.”
Responsabilidade pública dos cristãos
A política como instrumento para a promoção
da vida digna
A palavra “política”, na sua origem, tem o significado
de “administrar as coisas públicas em favor de todos os
cidadãos”. Isso significa que o amor ao próximo
usa a prática política como instrumento eficaz para solucionar
os problemas do nosso povo e promover a renovação da vida
em todas as instâncias sociais. E assim chegaremos ao município
e à cidade que desejamos, ao mundo melhor com que sonhamos.
Lutero colocava o Evangelho acima de todas as coisas. Ainda assim,
não se descuidava dos assuntos políticos, econômicos,
sociais, culturais – como expressões da responsabilidade
provinda da fé, diante de Deus e do próximo. Podemos entender
a relação entre fé e política, a partir
de suas colocações, como uma prática sob a soberania
de Deus, Senhor tanto da Igreja como do Estado. Na Igreja alimentamos
nossa fé pela palavra e pelos sacramentos. Em nossa vida pública
exercitamos a justiça e o cuidado para com os mais fracos como
propósito divino contra a tentação das injustiças
e das exclusões. Através da política e do Estado
(leis, programas, movimentos sociais, partidos e governos) exercitamos
nosso amor para com o próximo, atendendo o povo em suas necessidades
e anseios por uma vida digna.
* Walter Altmann é Pastor Presidente
da IECLB